Alerta na rede: cuidado redobrado ao preencher dados na internet

Levantamento revela que 4,5 bilhões de informações dos internautas foram comprometidas neste ano

Por WILSON AQUINO

Rio - Mais do que um teste para candidatos a uma vaga no Ensino Superior, o tema da redação do Enem virou objeto de reflexão, uma vez que alerta o quanto a sociedade é vulnerável no ambiente virtual. Dados do Breach Level Index (Índice de Nível de Violação) revelaram que, somente no primeiro semestre deste ano, nada menos do que 4,5 bilhões de registros de dados da rede mundial de computadores internet foram comprometidos.

A partir dos dados é possível bombardear o usuário com informações e ofertas que podem manipular o seu poder de decisão. Especialistas explicam que os algoritmos permitem saber o que o usuário quer, a que horas e onde busca, podendo influenciar na escolha e na navegação dele, ou seja, por meio do comportamento, as empresas direcionam a navegação e fazem o inverso: manipulam na internet para influenciar o comportamento do usuário.

"Toda vez que você faz uso de uma plataforma na internet, está sujeito a ter suas informações coletadas, trabalhadas e repassadas", explica o coordenador de MBA de Marketing Digital da Fundação Getúlio Vargas, Vítor Lima. Segundo ele, este processo de coletar os dados quem permite é o próprio usuário, ao entrar no site ou rede social. "Tem que ler os termos de uso e a política de relacionamento. Como a gente no Brasil tem o péssimo hábito de não ler o contrato, fica exposto, concorda em se expor. Se o usuário não prestar atenção no ambiente em que está se inserindo, a vida dele pode ser passível de ser explorada", avisa o professor.

Tomando como exemplo o Facebook, envolvido recentemente no escândalo da Cambridge Analytica que coletou, inadequadamente, dados pessoais de 87 milhões de usuários do Face , Vítor Lima explicou que a partir do momento em que o usuário começa a curtir páginas, posts ou fazer comentários, a plataforma pode estar coletando seus dados, gerando uma inteligência sobre o comportamento de uso, preferências, gosto, afeto ou desafeto da pessoa. "O sistema começa a entender, porque você mesmo diz o que gosta e o que não gosta. A partir daí, começa a segmentar perfis de usuários com preferências similares para formar grupos". O professor Lima considera manipulação um termo pejorativo. "Em Marketing a gente usa segmentação. Cabe ao usuário a leitura e a concordância ou não com os termos. A questão é que no caso do sistema ele é unilateral, não tem como negociar. Ou o usuário aceita ou não aceita".

Em agosto, foi sancionada a lei brasileira de proteção e tratamento de dados pessoais, que prevê a exigência de consentimento do usuário todas as vezes que quiserem processar seu CPF de alguma forma e a possibilidade de excluir informações pessoais de algum banco de dados. A lei, que começa a valer a partir de 2020, prevê multa em até 2% do faturamento (ou até o limite de R$ 50 milhões) da empresa infratora. Segundo o advogado Douglas Leite, do escritório Licks Advogados, o Brasil ainda tem um longo caminho na adequação à lei, inspirada na que foi implementada na Europa, em maio. "Dados são considerados o 'novo ouro' e, por isso, é importante a nova legislação para lidar com esse mercado, de maneira que os usuários se sintam protegidos", afirmou Leite.

Presidente da Apple critica empresas

O presidente da Apple, Tim Cook, criticou as empresas de tecnologia que tiram vantagem dos dados de usuários. Ele afirmou, durante conferência na Europa, que as informações dos clientes se transformaram em armamento para que as empresas aumentem seus lucros. "Atualmente, esse comércio explodiu em um complexo industrial de dados. Nossas informações, sejam assuntos do cotidiano ou questões pessoais, estão sendo usadas como armamento de guerra contra nós", disse Cook, destacando que "essa pilha de dados pessoais servem para enriquecer as companhias que os coletam".

Cook elogiou a General Data Protection Regulation, lei de proteção de dados europeia, que acabou influenciando a legislação brasileira. Quem aprovou a lei nacional foi Rafael Albuquerque, CEO da Zoox Smart Data, empresa que trabalha com sensores como Wi-Fi e câmeras para geração de Big Data. Para ele, é uma grande oportunidade para o mercado. "A nova lei não é uma ameaça, pelo contrário. Hoje, só está na base de dados da Zoox quem quer e usuário pode sair a qualquer momento. É um avanço no relacionamento digital", explicou.

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