Comunidades pobres lamentam a saída dos médicos cubanos do Rio

Dos 224 profissionais que voltam para Cuba, maioria trabalhava em unidades de áreas carentes

Por BRUNNA CONDINI

JulioCesar Naranjo,46anos, deixou para trás dois filhos e tempela frente o desafio de atender4mil pessoas. Reprodução
JulioCesar Naranjo,46anos, deixou para trás dois filhos e tempela frente o desafio de atender4mil pessoas. Reprodução -

Rio - Não é de hoje que os moradores do Complexo do Alemão recebem com simpatia os estrangeiros que frequentam a comunidade. O próprio nome do lugar é uma homenagem ao polonês Leonard Kaczmarkiewicz, que na década de 1920 comprou as terras da Serra da Misericórdia, onde a favela se instalou. Apesar de nascido na Polônia, o tal Leonard acabou sendo chamado de 'alemão' por causa da pele clara e cabelo louro. Nos últimos tempos, os moradores do Complexo rendem homenagem a outros gringos: os médicos cubanos. A saída desses profissionais do programa 'Mais Médicos' causou uma onda de lamentação. Todos que foram tratados por eles se desmancham em elogios.

"Tinham tratamento carinhoso, nos ouviam com atenção", conta Maria das Graças Silva Moreira, que se diz satisfeita com o atendimento dado pelo cubano Ernesto Barcelos a ela, os três filhos e sua mãe.

Assim como no Alemão, outras áreas carentes do Rio se ressentem da partida dos profissionais vindos de Cuba. Havana anunciou o fim da participação no Mais Médicos após o presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), questionar a qualificação dos médicos cubanos e afirmar que faria mudanças no acordo. Na cidade do Rio de Janeiro, trabalhavam 41 profissionais em 32 unidades da rede de atenção primária, como as Clínicas da Família.

Atendida pela doutora Dalia Porro, médica do programa, na Clínica da Família Herbert de Souza, em Tomás Coelho, a aposentada Maria dos Anjos Rocha, 68 anos, afirma que gratidão é a palavra que resume o atendimento que recebeu da profissional cubana.

"Já estou sentindo muita falta. Na minha vida toda nunca tive uma médica igual a ela. A doutora Dalia descobriu minha diabetes, tratou minha pressão alta, me examinava da cabeça aos pés. Foi um anjo na minha vida. Humana, carinhosa, me tratou mais de três anos", recorda. Maria reconhece que há bons profissionais de saúde por aqui. "Dou 10 para os nossos médicos, apesar das dificuldades. Mas tenho que dizer que dou 100 para a doutora Dalia", comenta a aposentada, com humor e alguma saudade.

Não só os pacientes lamentam a debandada. O agente de saúde e vice-presidente do Sindicato dos Agentes Comunitários de Saúde do Município do Rio de Janeiro (SINDACSRJ), Wagner de Souza, 41 anos, sendo 15 dedicados à área, conta que trabalhou desde a inauguração na unidade conhecida como CMS Alemão (hoje Clínica da Família), localizada no Complexo do Alemão, de onde também é morador, e recebeu o suporte durante três anos de médicas cubanas.

"Tinham comprometimento com a população, eram detalhistas. Trouxeram a cultura de acreditar e praticar medicina preventiva", observa Wagner."Faziam um atendimento integral, acompanhavam até o fim os pacientes, cobravam respostas, mandavam chamar". Segundo Wagner, a troca entre as médicas e os profissionais de saúde cariocas era grande.

A maior falta será sentida mesmo pelos pacientes. "Já estamos numa época de falta de médicos, agora os cubanos vão embora. Sou muito grata à médica que atendeu a mim e a minha filha", declara a cabeleireira Glória Alves da Silva, moradora do Alemão.

BAIXADA FLUMINENSE PREJUDICADA

Como revelou a coluna Informe do DIA, o estado do Rio vai perder um total de 224 médicos cubanos. Uma das regiões mais prejudicadas é a Baixada Fluminense. O município de Duque de Caxias, por exemplo, perde 11 cubanos que não farão mais parte do programa Mais Médicos. A prefeitura estima que 38,5 mil pacientes ficarão desassistidos.

Em Queimados, sete médicos cubanos atendiam 2,1 mil moradores por mês. O prefeito Carlos Vilela (MDB) tenta com o Ministério da Saúde dar uma solução para o problema criado pela saída desses profissionais.

Na cidade do Rio, quase todas as unidades que receberam esses profissionais de saúde são localizadas em favelas.

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