Rio - A Vale admitiu, em nota, que somente este ano vai contratar empresa especializada em monitoramentos de barragens por sistemas microssísmico e sismográfico. De acordo com matéria exclusiva publicada nesta segunda-feira, documentos obtidos com exclusividade pelo DIA comprovam que a mineradora fora alertada para o “sistema obsoleto” de prevenção que mantinha para detectar possíveis problemas na barragem da Mina do Feijão, em Brumadinho (MG), com pelo menos um ano e três meses de antecedência da tragédia, ocorrida no dia 25 de janeiro, mas ignorou o assunto. Até ontem, o desabamento da barragem já tinha 160 mortes confirmadas e ao menos 189 pessoas desaparecidas.
"Os monitoramentos microssísmico e sismográfico não estão previstos na legislação, mas a Vale já fazia o monitoramento sismográfico da região desde 2017. O monitoramento microssísmico, no corpo da barragem, estava previsto para ser instalado neste ano", informou a nota.
Ao ser questionada porque a empresa não adotou equipamento de ponta e ultramoderno em monitoramento, como os que usam fibras ópticas, mesmo tendo sido alertada sobre o assunto um ano e três meses antes da queda da barragem de Brumadinho, pela Minipa Sense, exportadora de tal tecnologia, a Vale assegurou que "adota os parâmetros mais modernos de segurança e monitoramento disponíveis hoje no mercado e de referência internacional".
"A empresa já possui um sistema estruturado de gestão de barragens e investe continuamente na melhoria de seus processos, buscando sempre as melhores técnicas operacionais e tecnologias para assegurar a estabilidade de suas estruturas. Quinzenalmente, são realizados monitoramentos e inspeções em todas as estruturas que se enquadram na Política Nacional de Segurança de Barragens. Ao todo, são mais de 2000 inspeções por ano, reportadas e analisadas em um sistema integrado de gestão. Além disso, possui também vídeo-monitoramento e radar interferométrico em algumas estruturas", diz o texto.
Hamilton Luiz Silva, de 46 anos, sócio e diretor de Negócios da Minipa Sense - empresa líder em sistemas de alarmes e sensoriamento por fibra óptica -, atesta que representantes da Vale participaram do 4º Simpósio sobre Segurança de Barragens e Riscos Associados, nos dias 26 e 27 de novembro de 2015, em Porto Alegre. Na época, Hamilton foi um dos palestrantes, demonstrando a eficácia do sistema óptico na prevenção de catástrofes para engenheiros do setor de barragens, incluindo os da Vale.
“Se tivessem nos ouvido, essa tragédia não aconteceria. Logo que ocorreu o acidente em Mariana no início de novembro de 2015 não esperamos ser contatados pelas empresas que operam barragens. Fomos proativos, na tentativa de ajudar a prevenir outra tragédia no Brasil. Procuramos o Comitê Brasileiro de Barragens (CBDB) para expor nossa preocupação e falar da tecnologia moderna que já desenvolvíamos e dispúnhamos”, relembra Hamilton, explicando que os piezometros (aparelhos que medem pressões e líquidos) usados nas barragens, são elétricos, e completamente expostos a problemas. “Quando cai um raio ou tem variação de energia, queima tudo. Por isso inventamos o dispositivo óptico, imune a interferências eletromagnéticas, que não queimam e nem estão sujeito a manipulações humanas”, comenta.
Segundo Hamilton, se a barragem estiver sensorizada com equipamentos capazes de captar, filtrar e emitir sinais em tempo real, é possível emitir alarme prévio via SMS ou e-mail para a equipe operacional ou a população próxima. E, simultaneamente, acionar um sistema de alarme de sirenes ao longo da barragem muito antes do seu rompimento”, diz.
Várias reuniões de alerta
Hamilton Silva lembra que ele e os sócios estiveram várias vezes no Ministério de Minas e Energia (MME) para reuniões técnicas ao longo de 2017. “Apresentamos nossa solução de monitoramento em tempo real para o então secretário Nacional de Geologia, Mineração e Transformação Mineral, do Ministério de Minas e Energia (MME) Vicente Lobo e toda sua área técnica, inclusive para direção do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM). Infelizmente, as várias reuniões não resultaram em nada”, lamenta. A pasta atualmente é ocupada por Alexandre Vidigal.
Hamilton se diz inconformado, ao ouvir no noticiário, representantes da Vale alegando que não sabiam dos riscos. “Por conta de uma economia porca, não investiram em segurança adequada para a barragem acidentada”, desabafa, sem esconder a indignação, garantindo que os gastos da Vale com investimentos em alta tecnologia para o monitoramento de toda a extensão da barragem, em tempo real por fibra óptica, seria “irrisório, insignificante, diante do ocorrido”.
A reportagem não conseguiu contato com ex-funcionários do MME, inclusive os exonerados, que tiveram conhecimento da necessidade de se modernizar os sistemas de monitoramento de barragens, entre eles, Vicente Lobo.
O grupo Minipa Sense também chegou a sugerir alteração na Portaria 416-2012, que trata do Plano de Segurança de Barragens de Mineração, do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM). Na ocasião, conforme e-mail recebido pela equipe de Segurança de Barragens, a empresa sugeriu 13 mudanças na portaria, mas também foram ignoradas pelo órgão governamental.microssísmico, barragem,
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