Com 85 anos de Mangueira, Tia Suluca dá bênção a nova geração da escola

Aos 92 anos, baluarte é só elogios a Cacá Nascimento, que brilhou em sua estreia no desfile campeão da Sapucaí

Por LUIZ PORTILHO

Tia Suluca recebeu Cacá Nascimento em sua casa, que fica perto da Estação Primeira. 'Essa menina já está na história da Mangueira', diz a baluarte
Tia Suluca recebeu Cacá Nascimento em sua casa, que fica perto da Estação Primeira. 'Essa menina já está na história da Mangueira', diz a baluarte -

'Habitada por gente simples e tão pobre, que só tem o sol que a todos cobre. Como podes, Mangueira, cantar?' Entoando esses versos de Cartola, Cacá Nascimento, de 11 anos, encantou Tia Suluca, 92, assim como fez com todo Brasil ao interpretar a estudante da comissão de frente da Verde e Rosa no desfile campeão. Na casa da baluarte da Estação Primeira, adocicada pelo quitute da goiaba colhida diretamente do quintal, com vista para o morro que tantos mestres deu ao mundo, a menina recebeu a bênção da matriarca da escola, que tem o sangue do eterno mestre-sala Delegado na veia.

"Essa menina já está na história da Mangueira. É inteligente, sabe o que está fazendo", diz Tia Suluca. Os 92 anos de vida não tiram de Arlette da Silva Fialho a disposição de defender a escola pela qual começou a desfilar quando ainda tinha 7 anos, levada pelo irmão, o primeiro mestre-sala da agremiação, Ezio Laurindo da Silva. Foi ele mesmo, o eterno Delegado, morto em 2012, quem plantou a semente do amor pela Mangueira no coração de Tia Suluca.

"Eu tenho muita saudade dele. Foi o maior mestre-sala do mundo. Eu me lembro que a gente dançava em casa, usando uma vassoura. Mas eu não quis ser porta-bandeira, pois é uma função que cansa muito", conta a baluarte, que é presidente de honra da Ala das Baianas.

"Nossa fantasia era de papel crepom. A Dona Neuma que fazia", destacou Tia Suluca, lembrando de outra personalidade da Mangueira, morta em 2000. "Quando chovia era um sufoco, mas o amor pela escola superava isso. Eu gostava muito. Só de ouvir a bateria ensaiando pela Rua Visconde de Niterói, eu descia correndo do Buraco Quente para ir atrás. Era bom frequentar essas festas e ouvir sambas de Cartola (falecido em 1980) e de Carlos Cachaça (falecido em 1999). Era bom ver a Dona Neuma e a Dona Zica (falecida em 2003)".

Dos locais que já abrigaram os desfiles do Carnaval carioca: Praça Onze, Avenida Rio Branco, Estádio de São Januário, Avenida Presidente Vargas e Sapucaí, esta a partir de 1978, ela prefere a última. "Ela é pequena para mim, mas eu gosto. E eu sempre gostei de ir no chão. Agora é que tenho de ir no carro. Neste ano, eu fui como avó do Zumbi dos Palmares", ressaltou.

Sem perder um Carnaval ao longo desses 85 anos de serviço à escola, incluindo os ensaios, onde tem uma mesa cativa, Tia Suluca ficou encantada com o enredo 'História para ninar gente grande' e com o samba campeão de 2019. "Eu senti firmeza. E eu nunca tinha visto um samba tão bom como esse", contou a baluarte, que sugeriu: "A Mangueira precisa lembrar de seus mestres que andam tão esquecidos, como Jamelão (ex-intérprete, morto em 2008) e Delegado".

Sonho de Cacá é ser intérprete e passista da Verde e Rosa

Oriunda da escola de samba mirim Mangueira do Amanhã, Cacá Nascimento arrebatou corações interpretando a estudante da comissão de frente, na qual exibiu a faixa ‘Presente’, o que fez lembrar a vereadora Marielle Franco (Psol), assassinada em março do ano passado.

“Fiquei muito feliz em participar do desfile. As pessoas da escola são incríveis. Eu tive que ensaiar muito”, contou a menina, que participou da última edição do programa The Voice Kids, da TV Globo, e também gravou o samba-enredo campeão deste ano.

Com o apoio do pai, o fotógrafo Márcio Xavier, de 42 anos, a pequena ensaiava desde às 2h, nos últimos dois meses. “Tinha dia que eu saía da quadra com o dia clareando”, destacou Márcio, que também é compositor da Estação Primeira.

No 6º ano do Ensino Fundamental, Cacá tem o sonho de ser cantora e quer levar isso para a história que inicia na Mangueira. “Antes eu queria ser porta-bandeira, mas não tenho o talento da Squel (Jorgea, atual dona do posto). Deus me deu o dom de cantar e dançar. Então, quero ser intérprete e passista”. 

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