Depressão: depoimentos de famosos são alerta para doença

Revelações do jogador Nilmar e o youtuber Whindersson mobilizaram os fãs numa corrente de solidariedade e chamaram a atenção para a doença, que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), será a mais incapacitante em todo o mundo até o próximo ano

Por FRANCISCO EDSON ALVES

Whindersson Nunes e Nilmar mobilizaram fãs em uma rede de solidariedade durante o fim de semana
Whindersson Nunes e Nilmar mobilizaram fãs em uma rede de solidariedade durante o fim de semana -

Rio - Revelações comoventes de dois famosos que contaram sofrer de depressão — o jogador Nilmar e o humorista e youtuber Whindersson Nunes, um dos fenômenos da internet — mobilizaram os fãs numa corrente de solidariedade e chamaram a atenção para a doença, que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), será a mais incapacitante em todo o mundo até o próximo ano. Segundo a instituição, ela já atinge mais de 300 milhões de pessoas no planeta. No Brasil, a situação é grave. O país já é campeão de casos na América Latina. Quase 6% da população (11,5 milhões de pessoas) sofrem com a enfermidade.

"A iniciativa deles (em falar sobre o assunto), acaba despertando a busca por ajuda e tratamento por parte de muitas pessoas, que, as vezes, sofrem com depressão e nem sabem", diz a psicóloga Ana Café. Ela conta que em média 70% dos pacientes dos espaços que dirige, Núcleo Integrado e Espaço Village, chegam por conta de depressão. E boa parte em consequência do uso nocivo de álcool e outras drogas.

"Mas a depressão é `democrática´. Não escolhe classe social, idade ou raça. Cuidamos de pessoas dos 15 aos 70 anos, por exemplo", adverte, comentando que as novas tecnologias têm ajudado a acelerar o problema. "As redes sociais, por exemplo, unem de certa forma quem está longe de nós, mas afastam, e criam mundos isolados, entre pessoas mais próximas, como pais, irmãos, amigos. Esse mundo à parte é perigoso, sem afetividade necessária do tocar, do sentir, do olhar nos olhos", justifica.

Na sexta-feira, o comediante Whindersson decidiu usar o Twitter para contar que sofre de depressão: "Eu sinto uma angústia todos os dias, algumas risadas, algumas brincadeiras e depois lá estou eu de novo com esse sentimento ruim", desabafou, recebendo em seguida palavras de carinho da esposa, a cantora Luisa Sonza.

Já Nilmar, ex-Seleção Brasileira, em entrevista, domingo, no Globo Esporte a Roger Flores, amigo e ex-companheiro de Corinthians, falou pela primeira vez sobre a doença, diagnosticada aos 33 anos, em 2017, quando chegou ao Santos. Hoje, ainda afastado dos gramados, seu futuro é incerto. "Eu tive o apoio da minha família", afirmou, ao dizer que segue em tratamento.

O psicólogo e fundador do Grupo Progeres - Centro de Prevenção, Diagnóstico e Tratamento de Saúde Mental, em Niterói, David Osmo, adverte que os índices alarmantes de casos de depressão o obrigou a expandir sua clínica. "Estamos priorizando agora instalações para prevenção de ideações suicidas, a fase mais grave da doença", ressalta David.

O assistente administrativo M., de 58 anos, é um desses tipos de pacientes. "Com a morte dos meus pais e minha irmã, fiquei sozinho. De repente, comecei a ser tomado por sentimentos ruins e a tramar minha própria morte. Foi aí que fui buscar ajuda. Na hora certa", lembra M., que há quatro meses tenta se livrar do pesadelo, indo a consultas (que custam em torno de R$ 150) e tomando três medicamentos diferentes.

A estudante X., de 20 anos, também tentou por fim à própria vida, tomando uma carga excessiva de medicamentos. "Acordei da overdose no hospital. Meus parentes acharam uma carta que tinha escrito de despedida e chegaram a tempo de me salvar", detalha X., lembrando que já sofria, sem saber, com sintomas da depressão desde os 9 anos, quando seus pais se separaram.

A psicóloga, psicanalista e terapeuta familiar,Márcia Modesto diz que a doença avança porque ainda não é totalmente reconhecida, percebida, principalmente na infância e adolescência. "Por isso virou uma epidemia. Os pais têm que prestar atenção em alguns sintomas, como tristeza prolongada, isolamento, cansaço, insônia ou sono demais, muito ou pouco apetite, e dificuldade para cumprir rotinas de estudo, muitas vezes confundida como preguiça. Tais comportamentos podem ser sinais da depressão", explica.

Já Osvaldo Saide, do Programa de Alcoologia e Adictologia do Hospital Pedro Ernesto e professor de Psiquiatria na UERJ, recomenda que quanto mais cedo forem detectados os sinais, mais chances de eficácia no tratamento. "Cada caso é um caso. Embora a depressão seja um transtorno mental de longo prazo, há pessoas que ficam bem logo após a primeira terapia com medicamentos, em torno de um ano. Outras podem levar mais tempo e sofrer novas crises. Internação é recomendada quando o paciente tem ideia fixa de suicídio", diz.

Rede pública

O governo do estado informou, na noite desta segunda-feira, através da assessoria de imprensa, que está fazendo levantamento de unidades que prestam atendimento psicológico gratuito contra a depressão em todos os municípios; que "fomenta ações de tratamento, mas que cabe às prefeituras desenvolverem  programas que atendam a população. Em nota (ver a íntegra abaixo), a Superintendência de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), por sua vez, garante que "todas as unidades de Atenção Primária (clínicas da família e centros municipais de saúde) estão aptas para os cuidados de pacientes com quadro de depressão".

"As intervenções de saúde junto a pessoas com quadros descritos como depressivos devem ser realizadas numa perspectiva ampliada, com ações psicossociais para além da consulta com especialista e/ou medicação. Todas as unidades de Atenção Primária (clínicas da família e centros municipais de saúde) estão aptas para os cuidados de pacientes com quadro de depressão, seja pelo próprio médico da família ou, nos casos mais delicados, com apoio de psicólogos e psiquiatras dos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF) que atuam junto à rede básica.

Para os casos mais graves e/ou associados a outros quadros psíquicos, a rede de Saúde Mental no município do Rio conta com 34 centros de atenção psicossocial (CAPS), entre unidades voltadas ao atendimento de adultos, crianças/adolescentes e usuários de álcool e outras drogas. Há também 36 unidades que ofertam consultas especializadas de saúde mental/psiquiatria via SISREG e cinco unidades de pronto atendimento com equipes de saúde mental para atendimento em psiquiatria em situações emergenciais. Endereços podem ser obtidos através do link  www.rio.gov.br

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