'Para a sociedade, todos (na favela) são bandidos', diz artista sobre placa na Maré

O objeto está na Maré desde 2016, quando policiais fizeram disparos durante operação na área e atingiram a sede do Projeto Uerê

Por MARIA INEZ MAGALHÃES

Placa no teto do projeto pede que policiais não atirem na unidade
Placa no teto do projeto pede que policiais não atirem na unidade -
Rio - "Escola. Não atire. Projeto Uerê". Uma placa colocada no teto da unidade, na Maré, é um pedido, desesperado, para que as operações policiais preservem a vida dos profissionais que atuam no local assistindo crianças e jovens que sofrem com traumas emocionais por causa da violência na comunidade.
O objeto está no local desde 2016, quando policiais fizeram disparos durante operação na área e atingiram a sede do projeto. Mas a artista plástica Yvonne Bezerra de Mello, responsável pelo Uerê, fez uma nova postagem sobre o assunto na última segunda-feira, após operação da Polícia Civil que deixou oito mortos. Durante a ação, tiros foram disparados por agentes de dentro de um helicóptero como em 2016.
"Por essas e outras que coloquei no teto e na fachada do Uerê para ver se não nos matam em dias de confronto. Uma vez um helicóptero metralhou a escola. A que ponto chegamos!", escreveu Yvonne.
Segundo ela, as pessoas tiveram que se proteger dos tiros se jogando no chão na última operação. "A operação não foi no local da escola, mas o helicóptero voava baixo por toda a Maré e as rajadas eram ouvidas. As crianças foram para o chão até tudo acalmar", contou ela ao DIA de Estocolmo, na Suécia. "Fazemos um trabalho diário para salvar essas crianças", disse ela.
A operação tinha como objetivo prender o traficante Thomaz Jhayson Vieira Gomes, o 3N, do Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, na Região Metropolitana. Há informações de que ele está baleado na Maré e teria sido ferido durante a operação.
"A placa foi o jeito que encontramos para nos protegermos. E a situação não melhorou. O poder dos helicópteros com snipers tem é ainda maior. A placa é sempre atual até que não tenhamos mais violência. A placa é a proteção das crianças", disse a artista plástica.
Segundo ela, ainda há marcas de tiros na sede do projeto. Perguntada se, mesmo com a placa no teto do projeto, ela e as pessoas do projeto ainda têm medo quando há operação a favela, Yvonne é taxativa. "Sim, porque não existe respeito a essas comunidades. Para a sociedade de fora, todos os habitantes são bandidos, inclusive as crianças. No momento, estamos sem esperança".

Comentários