Estátuas e monumentos 'ajudam' moradores a contar os problemas vividos no dia a dia

Se pudessem falar, o que diriam sobre a preservação do patrimônio da cidade?

Por *Rachel Siston

Cartola talvez não conseguisse inspiração para novas músicas, diante de tanta violência vivida pelos moradores da Mangueira
Cartola talvez não conseguisse inspiração para novas músicas, diante de tanta violência vivida pelos moradores da Mangueira -
Rio - Imponentes em seus cavalos de bronze ou reduzidas a cabeças e ombros, as estátuas da cidade são testemunhas até seculares do ambiente nas praças, largos e demais áreas públicas. Nem sempre identificadas, elas posam para os selfies dos turistas. Mas "só observam". Se pudessem falar, o que diriam sobre a preservação do patrimônio da cidade?

Nascido na Ilha do Governador, Renato Russo ganhou monumento na Estrada do Galeão. Vez por outra, fãs se reúnem ali para cantar seus sucessos. Contestador, o artista certamente comporia notas tristes para a falta de conservação de sua praça. O Chafariz Marco da Ilha tem tijolos de vidro quebrados e o lixo se acumula ao redor.

O aposentado Alcinei Inácio, de 70 anos, dá voz ao lamento que o músico faria. "Além desse abandono, todo dia tem assalto. Policiamento não tem. Estou na rua desde cedo e não vi um carro de polícia", reclama.

Cadê Noel Rosa? Sumiu...

Não muito distante da Ilha, o busto do marechal Mascarenhas de Moraes — ex-comandante da Força Expedicionária Brasileira (FEB) — está na Praça das Nações, em Bonsucesso, desde 1946. Mas 'Mulher da Luz' do chafariz que funcionava ali está desaparecida. O equipamento ainda está tomado por lixo e fezes de moradores de rua que vivem no local. O militar assiste, imóvel, aos assaltos rotineiros.

Alcinei, morador da Ilha, reclama da falta de policiamento no bairro - Cléber Mendes

"Não pode andar com o celular na mão, pois a toda hora tem assalto, a maioria de moto", contam as amigas Caroline Alencar, 34; Lívia Andrade, 25; e Vanessa Titoneli, 27, que trabalham na região.

'Mulher da Luz' não foi a única vítima. Do monumento de Noel Rosa, em Vila Isabel, não sobrou nem o dedinho do pé. A câmera de segurança da vizinhança é testemunha dos constantes ataques de vândalos à escultura de bronze, instalada em 1996. Quem visita o bairro já não pode levar para casa a lembrança do compositor, cujas notas musicais nas calçadas de pedras portuguesas estão incompletas.

Do reduto da boemia a um dos mais tradicionais territórios do samba, na Mangueira, é um pulo. Lá, Cartola marca presença em frente ao Centro Cultural que leva seu nome. É um atrativo a mais para o público conhecer o museu dedicado ao ritmo. Mas cabe um lamento pela falta de segurança no entorno e um bocado de tristeza pela situação da população de rua que ocupa a Avenida Radial Oeste, a poucos metros dali.

Na Zona Sul, no Largo do Machado, a estátua de Nossa Senhora da Conceição diria que seu chafariz se tornou uma lixeira. Do alto de seu pedestal, ela vê aumentar a quantidade da população de rua. Mas nem tudo é problema. Feiras de artesanato e shows fazem da praça um ambiente de convivência.

"É sempre assim movimentado em qualquer horário do dia", diz a artesã Andrea Honório, de 47 anos.

Na Praça XV, o monumento a Dom João VI diria que, apesar de ter pessoas dormindo sob seus pés, o local voltou a ser uma atração turística desde que o espaço foi revitalizado e virou palco constante de eventos culturais.

 *Sob supervisão de Clarissa Monteagudo

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Cartola talvez não conseguisse inspiração para novas músicas, diante de tanta violência vivida pelos moradores da Mangueira Cléber Mendes/Agência O Dia
Alcinei, morador da Ilha, reclama da falta de policiamento no bairro Cléber Mendes

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