Mais Lidas

Depressão de estudantes preocupa pais e professores

Levantamento da Secretaria estadual de Educação do Rio revela a incidência de casos de automutilação e outros problemas psiquiátricos

Por WALESKA BORGE

Alunos das escolas estaduais são incentivados a participar de eventos culturais
Alunos das escolas estaduais são incentivados a participar de eventos culturais -
Rio - No início deste ano, um grupo de meninas negras e obesas, vítimas de bullying, foi descoberto em uma sessão de automutilação em uma escola de Nova Iguaçu. Os cortes nas virilhas eram feitos com uma lâmina de aço compartilhada. Uma colega que não participava informou à direção, que conseguiu evitar o pior. Parece inimaginável. Mas casos como esse fazem parte da rotina de outras escolas.
Levantamento da Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro (Seeduc), realizado a pedido de O DIA, revela que entre o início do ano letivo de 2018 até este mês, a rede registrou 962 atendimentos de problemas psicológicos envolvendo alunos. Os casos de automutilação representam 21% (199). Na mesma proporção, a amostragem indicou ainda outras 204 questões relacionadas à saúde mental, como a depressão. Embora haja registros, não foram divulgados os casos de suicídio.
De acordo com o coordenador de gestão intersetorial da Seeduc, Charles Castro, a maior parte dos atendimentos de automutilação — que ocorreram dentro e fora do ambiente escolar da rede de ensino estadual — é formada por alunos negros, obesos, LBGT e aqueles que sofrem bullying. Ele conta que
após identificados, os casos são comunicados às famílias e encaminhados à rede socioassistencial. “Esses jovens dão alguns sinais, como usar blusa de frio mesmo sob forte calor e o isolamento”, revela.
O levantamento da Seeduc também coletou dados como os conflitos interpessoais (brigas entre os estudantes), que somaram 144 atendimentos e as ameças/agressões 125 casos. De acordo com Castro, logo após o episódio de massacre ocorrido na escola em Suzano, a rede estadual recebeu 70 ameças de ataques por parte de estudantes. “Eles deixavam recados nas carteiras, nos banheiros e nas redes sociais”, informa. Apesar dos problemas psicossociais que podem bloquear o desenvolvimento dos alunos, atualmente os cerca de 700 mil estudantes das 1.222 escolas da rede só podem contar com uma equipe multidisciplinar de oito profissionais, composta por psicólogos, assistentes sociais, professores e psicopedagogos.
“Me surpreendi com esse dados das automutilações. O número de profissionais existente hoje não chega nem perto da demanda. Vamos contratar já para o segundo semestre mais 50 profissionais para compor a equipe ultidisciplinar”, anuncia o secretário da pasta, Pedro Fernandes.
O secretário também informa que as escolas vão receber investimentos na ordem de R$ 53 milhões para a contratação de profissionais terceirizados, entre eles, porteiros e nutricionistas.

Cicatrizes são sinal de alerta
Cultura como antídoto à depressão. Os jovens da rede estadual são incentivados a participar de eventos como o Escolas Sem Muro - show de talentos e atividades fora do horário escolar. A secretaria anunciou ainda a compra de 120 ônibus para passeios extraclasse. A pesquisadora Patrícia Constantino, do Departamento de Estudos sobre Violência e Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), lembra que a escola é um ambiente privilegiado para prevenção e promoção da saúde dos jovens.
“É papel da escola, dos gestores e educadores, a prevenção e a instalação da cultura de paz”, orienta. Quanto aos casos de automutilações, a professora Célia Martins da UERJ, neurocientista e psiquiatra, diz que eles acendem um sinal de alerta. Os cortes demonstram que estes jovens estão passando por uma situação de extremo sofrimento: “Ele sente muita raiva de si mesmo. Muitas vezes, sofre depressão”.
Os especialistas lembram ainda que as automutilações ocorrem mais entre as meninas e adolescentes abrigados.

Caso de bullying levou aluna à depressão
Chamada de baleia, gorda, saco de areia na escola, F., de 18 anos, ainda sofre as consequências do bullying que viveu por anos num colégio público onde estuda. A mãe da jovem, C., de 44 anos, conta que a filha deu os primeiros sinais quando, num domingo pela manhã, com cortes abaixo do joelho. A adolescente mentiu, dizendo ter se cortado na mesa do computador.
Logo após, passou andar sempre de moleton, mesmo sob sol forte, e entrou em depressão. “Minha filha começou a arrancar as unhas, tirar os pelos das pernas e da sobrancelha. Queria se punir por comer muito.
Resolvi fazer uma busca no computador dela e encontrei vários grupos de automutilação de jovens na internet”, conta a mãe.
C.procurou a escola e falou sobre o bullying e a automutilação da filha. Apesar disso, a menina não deixou de ser atormentada no ambiente escolar. “Em alguns períodos melhorava, mas depois voltava tudo. Ela desenvolveu bulimia e ficou pele sobre osso. Foi uma época terrível. Passei a ficar 24 horas acordada vigiando minha filha”, lamenta.
A jovem foi afastada de qualquer material cortante. Mas, ainda assim, conseguiu comprar um bisturi na farmácia. “ Ela tentou se matar quatro vezes. Teve um surto e começamos a tratar com um psiquiatra numa clínica pública. Para conseguir vaga para ela, precisei dormir três vezes na fila. Até hoje ela está em depressão”.
A mãe da jovem dá uma recado a outros pais: “Trabalhava muito como faxineira para dar uma vida melhor para ela e muita coisa eu não vi. Olhem mais para os seus filhos”, adverte.
Uma assinatura que vale muito

Contribua para mantermos um jornalismo profissional, combatendo às fake news e trazendo informações importantes para você formar a sua opinião. Somente com a sua ajuda poderemos continuar produzindo a maior e melhor cobertura sobre tudo o que acontece no nosso Rio de Janeiro.

Assine O Dia

Comentários