Bandidos fugiram por região de mata da comunidadeReprodução / TV Globo
Por Bruna Fantti e Thuany Dossares
Rio - A cada 36 horas pelo menos um tiro assusta moradores da Cidade de Deus, na Zona Oeste do Rio. De acordo com a plataforma "Onde Tem Tiroteio?", do dia primeiro de janeiro até ontem, foram registrados 152 tiroteios na comunidade. Mais do que amedrontar, essa chuva de projéteis de diversos calibre que cruzam a comunidade quase diariamente, afeta a rotina dos milhares de moradores da favela. Trabalhadores ficam sem poder sair de casa para seus empregos, aulas são canceladas e estudantes não vão à escola, e, até mesmo, o simples ato de dormir é alterado.

"Eu, minha filha e meu neto dormimos no chão da sala, por medo de balas entrarem no quarto e nos atingirem na cama. Em dias mais críticos, nem na sala ficamos, vamos para o corredor do prédio. Na verdade, a gente já não dorme mais, porque a polícia tem entrado de madrugada também. Muitas vezes a gente não consegue nem sair de casa pela manhã, mas mesmo quando conseguimos, como que se trabalha, como estuda, tendo dormido mal, estando com medo, preocupado?", questionou uma faxineira que mora na comunidade.

A faxineira contou que por chegarem atrasados no trabalho por não conseguirem sair durante a troca de tiros, alguns moradores da Cidade de Deus chegaram a perder seus empregos. Segundo o "Onde Tem Tiroteio?", em setembro, a média de confrontos armados na comunidade é de um por dia, já que em onze dias, foram registrados onze tiroteios.

Até hoje, 31 operações policiais foram noticiadas pela imprensa

A Cidade de Deus, na Zona Oeste, tem sido palco de dezenas de operações policiais recentemente. Segundo o Observatório da Segurança do Rio de Janeiro, no Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), pelo menos 31 ações foram realizadas na comunidade apenas este ano. As incursões são marcadas por trocas de tiros que assustam os moradores que ficam no meio do fogo cruzado entre criminosos e policiais. O número de operações pode ser superior, já que nem toda operação é noticiada. 

O laboratório de dados "Fogo Cruzado" apurou que, pelo menos, 60 desses tiroteios tiveram a presença de agentes do estado. Ainda segundo a plataforma, do início do ano até o dia 11 de setembro, 37 pessoas foram baleadas na Cidade de Deus e destas 16 morreram. No mesmo período de 2018, o Fogo Cruzado contabilizou 22 vítimas de projétil de arma de fogo, sendo 10 fatais.

Questionada sobre as frequentes operações na Cidade de Deus, realizadas tanto por unidades especiais quanto pelo 18º BPM (Jacarepaguá), a Polícia Militar se limitou a passar informações sobre a ação realizada ontem pelo batalhão de Jacarepaguá na comunidade.
Segundo a corporação, a incursão tinha como objetivo inicial a retirada de barricadas e miguelitos (estruturas de metal pontiagudas para furar pneus), visando assegurar o direito de ir e vir dos moradores e a mobilidade de veículos na comunidade, incluindo as viaturas policiais. Dois suspeitos foram conduzidos para a delegacia. No Caminho Outeiro, houve confronto e um criminoso com um tornozeleira eletrônica e de posse de uma pistola, foi ferido e socorrido ao Hospital Lourenço Jorge, mas não resistiu ao ferimento.

De acordo com informações da Polícia Militar, o tráfico de drogas da Cidade de Deus é controlado por Edvanderson Gonçalves Leite, o Deco da CDD, de 53 anos.