Rio de Janeiro - 03/11/2019 - Festival Favela Literaria realizada pela CUFA. Foto: Luciano Belford/Agencia O Dia - Luciano Belford/Agência O Dia
Rio de Janeiro - 03/11/2019 - Festival Favela Literaria realizada pela CUFA. Foto: Luciano Belford/Agencia O DiaLuciano Belford/Agência O Dia
Por O Dia
Domingo, 16 horas. O termômetro beira os 40 graus e o horário é típico de um jogo no Maracanã ou de uma tarde na praia. Embaixo do viaduto Negrão de Lima, em Madureira, contudo, cerca de 50 pessoas enfrentavam o calor para assistir uma roda de conversa com quatro autores de literatura negra.
A ação faz parte da programação do primeiro Festival Favela Literária, realizado pela Central Única das Favelas(CUFA), que acontece também em diversos estados do Brasil e tem programação também para esta segunda-feira.
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Segundo Nega Gizza,diretora da CUFA e uma das idealizadoras do evento, a leitura pode mudar vidas, assim como mudou a dela.
"Meu pai me ensinou a entender o mundo da literatura atraída pelos gibis, com muitas imagens e pouca falas. Com o tempo, descobri que com a leitura, a minha mente poderia viajar em cada letra ou palavra. O livro é transformador e o exemplo está aqui, no próprio festival. Pessoas que estão vindo e comprando três, quatro, cinco livros, apenas no primeiro dia de evento. Nosso objetivo é incentivar e ensinar a favela que é importante ler literatura em geral", disse.
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Otávio Junior é um velho conhecido do O Dia. Ganhador da medalha Orgulho do Rio em 2011, o escritor contou que o livro transformou a sua vida.
"Como todo menino, tinha o sonho de ser jogador de futebol. Estava caminhando com alguns amigos para jogar e, no caminho, achei um livro. Ali, naquele momento, deixei o futebol de lado por alguns minutos e comecei a ler. O livro mudou essa trajetória e mudou meu sonho", contou.
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O escritor, autor de mais de 60 obras, sendo cinco delas já publicadas, participou do programa Caldeirão do Huck em 2006. Com o prêmio de R$ 10 mil ganho no quadro 'Agora ou Nunca', Otávio investiu tudo no seu projeto 'Ler É 10 – Leia Favela'.
"Eu circulava durante a semana em favelas do complexo da Penha e do Alemão com uma mala cheia de livros. Percebi que as crianças gostavam de ler, mas não se sentiam representadas nas histórias. Em um primeiro momento, escrevi histórias ambientadas na favelas e agora estou escrevendo sobre histórias ambientadas nas favelas e com protagonistas negros".
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Otávio aproveitou o evento para, em primeira mão, anunciar um projeto inspirado na história da menina Ágatha Félix, de oito anos, que morreu depois de ser atingida por estilhaços de uma bala de fuzil no Alemão, na Zona Norte do Rio.
Visivelmente emocionado, Otávio disse em sua palestra que o projeto será lançado em breve e terá uma abordagem bastante leve, sendo uma forma de homenagem, mas também de protesto pelo acontecido.
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A estudante universitária Mariana Santos optou por trocar o belo dia de sol na praia para acompanhar a programação do evento.
"O verão nem começou ainda, então terei muito tempo para aproveitar o sol. Esse tipo de festival é importante para qualquer pessoa da sociedade. Abordando o tema de favela fica mais importante ainda, pelo menos para quem mora lá, como eu", contou.

Uma das palestrantes com um discurso mais acalorado, Mãe Flávia Pinto é autora do livro'Levanta Favela! Vamos Descolonizar o Brasil'. Segundo ela, esse tipo de evento é de suma importância para a população das comunidades.
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"O Festival Favela Literária é importantíssimo, já que a maior parte da população que não lê está nas favelas. Com literatura e conhecimento, temos uma ferramenta muito poderosa para transformar a cultura da opressão, da violência, do racismo e do sexismo. Acho que o evento tem que ser ampliado, itinerante e ter patrocinadores, para que possamos trazer crianças, idosos e toda a população da favela para promover a cultura da leitura. A leitura é libertadora, é a transformação da humanidade", concluiu.
O evento continua nesta segunda-feira com exposição de livros e fotografias, palestras, saraus e rodas de poesia, das 10h às 22h. Como atração, às 14 horas, uma roda de conversa com o tema Produção Literária na Favela, Periferia e suas Manifestações terá participação de Rene Silva, Anderson Quack, Jonathan Aguiar, Lu Ain-Zaila e Jessé Andarilho.