Rio pode ter pelo menos 3.200 casos de covid-19 fora das estatísticas

Aumento nos diagnósticos de síndrome respiratória pode indicar 57% de subnotificação de pacientes infectados com novo coronavírus

Por Luana Dandara e Renan Schuindt

534% foi o aumento do número de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) nos meses de janeiro a abril deste ano, em comparação ao mesmo período do ano passado
534% foi o aumento do número de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) nos meses de janeiro a abril deste ano, em comparação ao mesmo período do ano passado -
Rio - A Secretaria Estadual de Saúde (SES) informou, ontem, que subiu para 5.552 o número de casos confirmados do novo coronavírus no Estado do Rio. Contudo, dados obtidos com exclusividade por O DIA mostram que esse número de infectados pode ser cerca de 57% maior. Isso porque houve um aumento de registros da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) nos meses de janeiro a abril deste ano, em comparação ao mesmo período do ano passado. A doença apresenta sintomas muito similares aos da covid-19.
De acordo com a SES, foram contabilizados 3.847 casos de SRAG nos primeiros quatro meses deste ano, enquanto no mesmo período de 2019 foram apenas 606 casos, um aumento de 534% desses registros. Para o especialista Daniel Soranz, doutor em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz, isso indica uma possível subnotificação do coronavírus no estado. "Acredito que pelo menos 3.200 dos casos notificados por SRAG sejam Covid-19. Isso porque os sintomas são os mesmos, há pouca capacidade de diferenciação entre as duas doenças. Esses dados representam em parte a subnotificação do coronavírus, que pode ser ainda maior. Vários testes ainda não foram processados e muitos pacientes nem foram testados", explica.
Há uma expectativa, acrescenta Soranz, de que nos próximos dias o Ministério da Saúde estabeleça o chamado vínculo epidemiológico entre a Síndrome Respiratória Aguda Grave e o novo coronavírus: "Como não há testes, na dúvida a regra é que o registro seja feito como SRAG. Isso precisa ser mudado, para que os pacientes que apresentem sintomas e tenham tido contato com algum caso confirmado de covid-19 nem precisem fazer um exame. Esse procedimento foi realizado nas epidemias de H1N1, zika e dengue", lembra o especialista.
De acordo com boletim mais recente do sistema de monitoramento InfoGripe, mantido pela Fiocruz, pelo menos 70% dos casos confirmados de vírus respiratórios, nas últimas semanas, testaram positivo para covid-19.
Também causada por um coronavírus, a Síndrome Respiratória Aguda Grave foi detectada pela primeira vez em 2002, na China. Os principais sintomas são febre, tosse, dor de garganta e dificuldade de respirar.
Cartórios: mais óbitos no estado
Em relação à subnotificação de óbitos por covid-19, dados da Central de Informações do Registro Civil (CRC Nacional), que computam informações de cartórios de todo o país, indicam 4.559 registros de óbitos por insuficiência respiratória/pneumonia no Rio de Janeiro, de 1º de janeiro deste ano até ontem (22). O número é 9,78% maior, em comparação ao mesmo período do ano passado, quando foram registradas 4.153 mortes com essa tipificação.
O boletim divulgado ontem pela SES mostrou, ainda, que subiu para 490 o número de óbitos pelo novo coronavírus no estado. Há ainda 151 mortes sob investigação.
Daniel Soranz, da Fiocruz, pondera que, de acordo com o Sistema de Informação de Mortalidades do Estado do Rio, cerca de 5% dos pacientes com covid-19 faleceram em casa. "Foram pacientes dispensados pelo serviço de Saúde ou que preferiram nem procurar atendimento", afirma o especialista. Já aproximadamente 18% dos pacientes do estado com o novo coronavírus foram a óbito em UPAs ou unidades de urgência.

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