O lateral-esquerdo Cortez, doa Grêmio doou cestas básicas em Bela Vista, Campo Grande - ALEXANDRE BORGES
O lateral-esquerdo Cortez, doa Grêmio doou cestas básicas em Bela Vista, Campo GrandeALEXANDRE BORGES
Por Gustavo Monteiro
Moradora de um condomínio da Minha Casa Minha Vida em Cosmos, na Zona Oeste, e mãe de seis filhos, com idades entre 4 e 14 anos, Aline Almeida, de 36, teve que parar de trabalhar na quarentena. Ela fazia faxinas e tirava cerca de R$ 600 semanalmente. Porém, os serviços foram suspensos por conta do isolamento. "Tinha clientes fixos, como um casal de idosos do Recreio, mas, por causa do risco, tiveram que interromper. Eles sempre ligam para saber como estou e dizem que assim que isso passar me chamam de volta", comenta a diarista, que precisou de ajuda para comprar alimentos.
O auxílio veio da ONG Defensores do Planeta, de Campo Grande, que atua há 21 anos na região e em outras áreas carentes do Rio e da Baixada Fluminense - e é a única organização da Zona Oeste a ter um assento na Organização das Nações Unidas (ONU). A entidade já fez doação de cestas básicas e kits de higiene para cerca de 700 famílias desde o início da quarentena. A relação de Aline com a instituição não começou agora, ela já atuava como voluntária há três anos. "Nessa semana tive que me mudar para a quitinete de um irmão, em Jacarepaguá, e ele está me ajudando. Espero que tudo isso acabe logo para eu poder voltar a trabalhar", diz.
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O biólogo e diretor executivo da Defensores do Planeta, Mauro Pereira, afirma que as doações começaram no final de março, quando 200 cestas básicas foram entregues em seis áreas: Jardim Maravilha e Piraquê (Guaratiba), Mendanha (Campo Grande), Cosmos, Rola (Santa Cruz) e Nova Iguaçu. "Começamos a perceber que o problema era bem maior, porque muitas casas não tinham sequer água e produtos de higiene", conta.
Foi aí que se iniciou a montagem dos kits com água sanitária, álcool gel, sabonete, detergente e desinfetantes.
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"Neste momento difícil que a Zona Oeste está passando com a pandemia do coronavírus, não poderíamos deixar de ajudar nossas comunidades", afirma Pereira, acrescentando que, em abril, foram doadas 200 cestas básicas e 200 kits de higiene nos mesmos locais. "Cadastramos as famílias para que possam receber ajuda por três meses.
A ONG atua com a implementação da 'Agenda 2030' da ONU, que estabeleceu 17 objetivos, entre eles acabar com a pobreza e a fome, permitir o acesso ao saneamento básico, além de ações para o desenvolvimento sustentável. "Não queremos ver nossas comunidades com fome, problemas de saúde, sem trabalho e falta de água. São coisas essenciais à vida", reforça o diretor.
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Jogadores contribuem
ZONA OESTE - CAPA: Jogador de futebol Jean Lucas doa cestas básicas em Campo Grande
ZONA OESTE - CAPA: Jogador de futebol Jean Lucas doa cestas básicas em Campo GrandeDIVULGAÇÃO
Se dentro dos campos de futebol eles já brilham, fora das quatro linhas dão um show ainda maior. Atletas da Zona Oeste que ganharam fama e prestígio não esqueceram de suas origens e estão colaborando para amenizar um pouco o sofrimento nas comunidades.
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Revelado no Flamengo, Jean Lucas, de 22 anos, doou duas toneladas de alimentos para moradores de Jardim Maravilha, sub-bairro de Campo Grande. Passando o período de quarentena no Brasil, o jogador, que atualmente atua como volante do Lyon, da França, declarou: "Nós, jogadores, que temos condições de ajudar pessoas que vivem um momento complicado como esse, não podemos dar as costas. Até porque, na infância, eu e minha família também tivemos as nossas dificuldades. E cresci exatamente aqui".
O lateral do Grêmio, Cortez, 33 anos, também fez sua boa ação. Com a ajuda de amigos, doou cestas básicas em Bela Vista. Em suas redes sociais, escreveu: "Se eu não consigo sentir a dor de quem está do meu lado, como posso sentir a dor de quem está do outro lado do continente? A África também é aqui!"
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Auxílio que vem de fora
Sensibilizada com a situação das comunidades da Zona Oeste, uma carioca que mora na Alemanha resolveu arregaçar as mangas e encabeçar uma rede de doadores europeus para ajudar a ONG Defensores do Planeta.
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Com o que já foi arrecadado, foram montados 60 kits de higiene e 110 cestas básicas, que serão entregues nesta semana. Mais 48 kits de higiene estão sendo montados. "Numa das casas que visitamos, a geladeira tinha dois gambás que foram caçados para alimentar aquela família. Essas pessoas não estão vendo outra alternativa a não ser caçar para sobreviver. É um problema socioambiental que está afetando também a fauna da região", conta o diretor.
Comunidades atendidas
ONG SerCidadão está cadastrando e pretende ajudar 3 mil famílias de Paciência, Santa Cruz e Sepetiba
ONG SerCidadão está cadastrando e pretende ajudar 3 mil famílias de Paciência, Santa Cruz e SepetibaDIVULGAÇÃO
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A ONG Defensores do Planeta pesquisou o perfil socioeconômico dos moradores e constatou que a maioria trabalha na informalidade, vendendo picolé na praia da Barra, ou alimentos como churrasquinho, hambúrguer, salgadinhos etc. Há também os que trabalham como diaristas, empregadas domésticas, garçons, cozinheiros. Em todos esses casos, a quarentena gerou a interrupção das atividades, fazendo com que as pessoas precisassem de auxílio para sobreviver.
Outra ONG que tem atuado fortemente na região, a SerCidadão iniciou a campanha Ser Solidário, que pretende beneficiar 3 mil famílias em situação de extrema vulnerabilidade social em Santa Cruz, Paciência e Sepetiba. A direção da instituição lembra que a Zona Oeste do Rio concentra 41% da população do município e tem os menores Índices de Desenvolvimento Humano da cidade.
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A entidade faz o mapeamento das famílias para distribuição de alimentos e produtos de higiene, ações de prevenção, apoio psicológico e suporte para viabilizar o acesso destas famílias aos benefícios dos programas governamentais.