Na linha de frente contra a covid-19, enfermeira desabafa: 'As pessoas morrem sem dignidade alguma'

Profissional atua no Hospital de Campanha do Maracanã e diz não ter mais forças para lidar com a pandemia

Por Ana Clara Menezes

A enfermeira usa como Equipamento Individual de Segurança: pijama cirúrgico, capote, touca, óculos, face shields, luvas, proteção para o calçado e máscaras
A enfermeira usa como Equipamento Individual de Segurança: pijama cirúrgico, capote, touca, óculos, face shields, luvas, proteção para o calçado e máscaras -
Rio – “Já lidei com várias mortes, mas as da covid-19 são as que mais estão mexendo comigo, porque as pessoas morrem sem dignidade alguma”, relata em entrevista exclusiva ao O DIA, a enfermeira especializada em Pediatria, que preferiu não se identificar, e tem atuado na linha de frente contra o novo coronavírus.
A enfermeira diz que apesar de todos os cuidados, a equipe vai adoecendo e quem segue trabalhando, acaba sobrecarregado. Com a rotina pesada, a profissional, que já trabalhava durante o dia na pediatria de um hospital público universitário, passou a atuar à noite, no Hospital de Campanha do Maracanã. De acordo com ela, apesar da doença afetar menos as crianças, existiram casos, mas que se resolveram bem e rápido.
Porém, a outra realidade ela diz ser cruel. “No hospital de campanha os casos são diversos e as mortes constantes. O curioso, mas, compreensível, é que esse número vem aumentando a cada dia”, relata a enfermeira, comprovando os números que, até a noite desta sexta-feira (22), registram 21.048 mil mortes e 330.890 mil casos confirmados no Brasil.
“Sem despedida, sem companhia e sem ver o rosto de quem ama nos últimos minutos de vida. Essa é a realidade das vítimas fatais da Covid-19. É cruel! E depois de passar por tudo isso, ainda ficam presos em “frigoríficos" porque os cemitérios não têm mais vaga. É desumano, é horrível! Isso acaba comigo.”, revelou a profissional da saúde, que está há quatro meses sem ver os pais.
A enfermeira contou que sempre quis atuar em populações necessitadas como as ribeirinhas, por exemplo, porque vê um cenário tão precário de saúde, que qualquer ajuda já seria de grande valia. Mas diz que nunca se imaginou numa pandemia, ainda mais de um vírus desconhecido que as pessoas não sabem como proceder, como ele age e como acabar com ele.
Hospital no Maracanã - Rogério Santana/Divulgação Governo do RJ
Perguntada sobre o atendimento do SUS, a enfermeira disse que: "Se a população continuar desrespeitando o isolamento, em pouco tempo o sistema de saúde vai colapsar. Já estamos tendo sinais disso”, alertou a profissional, formada pela UFRJ e especializada pela UERJ.
“O que mais me atormenta é o medo de me contaminar. Depois que eu coloco toda a paramentação preciso ficar horas com ela. Sem comer, sem beber água, sem fazer xixi. Se eu sentir alguma dessas necessidades tenho que tirar toda a roupa, fazer o que queria, depois colocar outra roupa. E esse medo sempre fica na minha cabeça. Será que tirei a roupa do modo certo, será que toquei na maçaneta, será que essa máscara já venceu? É enlouquecedor!”, afirmou a enfermeira, que acrescenta.
“Pode ser que eu seja portadora assintomática, então optei por não ter contato com outras pessoas, todo dia quando chego em casa tenho um ritual, deixo os sapatos para fora, higienizo as mãos, tiro a roupa e coloco em um saco separado e tomo banho”, frisou.
A enfermeira falou que o seu maior medo é do que está por vir. Medo de precisar escolher quem vive e quem morre. “Me preparei para salvar vidas, para tentar até as últimas alternativas. Não estou preparada para “simplesmente” escolher quem vive e quem morre. O que tenho feito é me conectar ainda mais com Deus e falar com meus pais todos os dias por vídeo chamada. Ver que eles estão bem e esperando por mim, quando tudo isso acabar, é o que me motiva!”, confessou.
“Cheguei numa fase que estou tão cansada física e mentalmente que não consigo fazer nada, nem dormir. E isso é um ponto que podemos destacar nos profissionais de saúde, muitos estão desenvolvendo vários distúrbios psicológicos, como insônia, ansiedade, depressão, síndrome do pânico. Diariamente são vários os relatos. As condições de trabalho são duras, o trabalho é árduo. Os resultados dos nossos esforços às vezes parecem em vão. É triste sair de um plantão de 24 horas, trancado num setor, sem saber se é dia ou noite, se está chovendo ou está sol, se matando para salvar vidas, e no trajeto para casa, ver muita gente desrespeitando o isolamento. É triste, porque no fundo sabemos o que vai acontecer, é triste porque nós queríamos voltar para nossa família, para nossos pais, para os filhos, no caso de quem é pai/mãe, para os amigos, para os namorados e não podemos. Eu já não tenho forças para lutar contra isso”, desabafou.
A enfermeira finalizou com um apelo: “Quem puder ficar em casa, fique em casa. Não é na casa do amigo, da sogra, dos avós, é na sua casa! Porque a pessoas não percebem que podem estar carregando o vírus sem saber. Precisar ir ao supermercado, tudo bem, mas, existe o risco de se contaminar numa ida dessas e se voltasse para sua casa e respeitasse o isolamento com certeza não faria esse vírus circular. Mas, se volta do mercado contaminado e depois vai na casa da amiga, da avó e do vizinho, o estrago já foi feito, o vírus foi passado adiante. É isso que as pessoas precisam entender. Para alguns o vírus pode não ser nada, mas para outros mata e muito rápido”, pontuou a enfermeira, moradora do bairro Piedade, na Zona Norte do Rio de Janeiro.

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A enfermeira usa como Equipamento Individual de Segurança: pijama cirúrgico, capote, touca, óculos, face shields, luvas, proteção para o calçado e máscaras Arquivo Pessoal
Hospital no Maracanã Rogério Santana/Divulgação Governo do RJ

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