Mãe de jovem morto na Providência: 'Entram no morro e acham que todo negro tem envolvimento'

Verônica Maria diz que Rodrigo Cerqueira, morto durante operação policial no Morro da Providência, era estudante e não tinha envolvimento com criminalidade, contrariando versão da PM. Professor ressalta assiduidade e esforço escolar da vítima, que apresentava problemas de visão

Por Beatriz Perez

Verônica Maria aguarda, no IML, liberação do corpo do filho, Rodrigo Cerqueira, morto em operação policial no Morro da Providência na quinta-feira
Verônica Maria aguarda, no IML, liberação do corpo do filho, Rodrigo Cerqueira, morto em operação policial no Morro da Providência na quinta-feira -
Rio - A mãe de Rodrigo Cerqueira, 19 anos, morto na tarde desta quinta-feira durante uma operação policial no Morro da Providência, Região Central do Rio, disse que o filho nunca teve envolvimento com o crime, enquanto chorava a morte do jovem no Instituto Médico Legal, Centro do Rio, na manhã desta sexta-feira. O professor Rodolfo Ferreira conta que Rodrigo era um dos primeiros a chegar à aula e, por problemas de visão, sentava-se sempre na primeira fileira para conseguir enxergar o quadro. 
Verônica Maria morava com Rodrigo e com a outra filha de 17 anos na parte baixa da Providência, Região Central da capital. A Polícia informou que o jovem era suspeito e estava armado. A mãe, no entanto, nega a versão e diz que o filho nunca "pisou em uma delegacia". "Meu filho era querido, uma pessoa carinhosa, tudo de bom. Pode perguntar pra qualquer um, pros professores. Ele estudava. Meu filho nunca pisou em uma delegacia. Eles entram no morro e acham que todo negro tem envolvimento com alguma coisa".
Rodrigo Cerqueira cursava o segundo ano do Ensino Médio. Ele foi morto durante operação policial no Morro da Providência, Centro do Rio - Reprodução
Professor de História no Colégio Estadual Reverendo Hugh Clarence Tucker, em Santo Cristo, Rodolfo Ferreira conta que Rodrigo foi seu aluno neste ano e no ano passado. O jovem cursava o segundo ano do Ensino Médio. O professor diz que o adolescente frequentava as aulas com assiduidade. Rodolfo diz estranhar a versão policial de que o jovem era suspeito de envolvimento com a criminalidade e ressalta que ele usava óculos e tinha dificuldades para enxergar.
"Na escola ele era um bom garoto e bastante esforçado: não faltava, fazia muitos trabalhos. Muitas vezes, a gente chegava e ele já estava na sala. Ele tinha dificuldade de visão e sentava na primeira fileira. Aguardávamos que ele copiasse o quadro, porque realmente tinha dificuldade, usava lentes grossas, e compensava com esforço", conta.
A Polícia Militar disse em nota, na quinta-feira, que Rodrigo era suspeito e estava armado. "Um suspeito foi atingido e socorrido ao Hospital Municipal Souza Aguiar, onde não resistiu aos ferimentos. Com ele foram apreendidas uma pistola calibre 9 mm, um carregador municiado e entorpecentes a serem contabilizados", disse a corporação.
A mãe da vítima, que trabalha com serviços gerais, criticou a ação policial. "Eles forjam. No morro todo mundo é bandido pra eles. Eles estavam todos encapuzados, para ninguém saber quem é, jogaram spray de pimenta na cara de todo mundo", conta. "Meu filho era meu amigo", emociona-se. 
De acordo com relatos de integrantes do Pré-Vestibular Machado de Assis, a ação aconteceu quando os voluntários começavam a distribuir cestas básicas na comunidade. A ação era conjunta com professores da escola de Rodrigo, que arrecadaram doações para as famílias dos alunos. "Na hora que estavam entregando as cestas a polícia chegou, usando máscaras pretas, e começou a confusão", conta o professor Rodolfo Ferreira.
A Polícia Militar disse que , durante o socorro, moradores tentaram atacar os policiais e "foi necessário uso de armamento de menor potencial ofensivo para dispersar o grupo". A Delegacia de Homicídios da Capital foi acionada para a ocorrência. 
De acordo com a Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), foi instaurado inquérito para apurar a morte de Rodrigo Cerqueira da Conceição. Os policiais militares foram ouvidos e outras diligências estão em andamento para esclarecer o caso, informa a Polícia Civil.
Semana marcada por morte de jovens durante operações

Galeria de Fotos

João Vitor faria 19 anos no próximo dia 6 Arquivo Pessoal
Iago César Gonzaga, de 21 anos Reprodução
João Pedro Pinto tinha 14 anos ao ser morto, na segunda-feira Arquivo Pessoal
Na noite da véspera da morte de Rodrigo, João Vitor Gomes da Rocha, 18, foi morto durante uma operação conjunta da Polícia Militar com a Polícia Civil na Cidade de Deus. Segundo a polícia, ele fazia parte de uma quadrilha especializada em sequestro-relâmpago que age nas imediações do bairro da Zona Oeste do Rio. A mãe do jovem, no entanto, nega a versão e diz que o filho não estava envolvido com a criminalidade. Na ocasião, voluntários do Movimento Frente CDD distribuíam 200 cestas básicas para moradores da comunidade.

Na segunda-feira, familiares denunciaram que Iago César Gonzaga, de 21 anos, foi torturado e morto por policiais militares durante uma operação na comunidade de Acari, na Zona Norte do Rio. No mesmo dia, morreu o adolescente João Pedro Matos Pinto, de 14 anos, atingido por tiro de fuzil disparado por policiais quando estava brincando no quintal de casa. Segundo a família e testemunhas, policiais chegaram atirando à casa onde João e amigos estavam, na praia da Luz, em Itaoca. Ele foi baleado e colocado em um helicóptero da Polícia Civil. A família ficou sem notícias de seu paradeiro por 17 horas.
Na sexta-feira da semana passada (15) uma operação com intenso tiroteio levou terror ao Complexo do Alemão, Zona Norte. A Polícia Civil identificou os corpos de 12 mortos durante a ação que tinha como objetivo encontrar um paiol com armas, munições e drogas. Moradores precisaram transportar a pé os corpos envolvidos em lençóis para a parte baixa da comunidade. Moradores denunciaram que tiveram suas casas invadidas.

Comentários