Passar quarentena com livros e séries não é a realidade das favelas, aponta pesquisa

Moradores de comunidades passam maior parte do tempo cumprindo tarefas domésticas, como cuidar de filhos e fazer faxina

Por Yuri Eiras

Favela da Rocinha, em São Conrado, Zona Sul do Rio
Favela da Rocinha, em São Conrado, Zona Sul do Rio -
Ocupar o tempo com livros, filmes e séries não é privilégio de todos na quarentena. Uma pesquisa divulgada esta semana pelo Outdoor Social e realizada em quatro favelas do Rio de Janeiro indicou que a maior parte da população das comunidades (29,4%) passa o tempo em casa envolvida com tarefas domésticas, como cuidar de filhos, fazer faxina ou consertos. 
A pesquisa foi realizada com 400 pessoas em favelas brasileiras. Rio das Pedras, Complexo do Alemão, Complexo da Maré e Rocinha foram as representantes do Rio. Nesses locais, 10,8% dos entrevistados disseram passar o tempo em casa cozinhando, e outros 8,8% conversam no Whatsapp. Assistir televisão e ler é passatempo de apenas 2%. Boa parte dos que cumprem tarefas domésticas em casa são mulheres.
"Acredito que a pandemia foi desgastante nesse sentido para todas as classes, principalmente para as mulheres. Aqui, a pesquisa mostrou que a divisão das tarefas domésticas ainda está com as mulheres, independente da classe social", analisa Emilia Rabello, fundadora do Outdoor Social.
A informalidade, realidade dos moradores de favelas antes da pandemia, acentuou. Entre os ouvidos, 41% disseram trabalhar como informais. Desses, 67% ganham dinheiro com bicos, 14% com serviços domésticos, 13,2% são camelôs e 4,2% fazem entregas para aplicativos. O número de empregados com carteira assinada e desempregados foi exatamente igual: 29,4%. A família de Priscila Gomes, 18, retrata bem. Ela, camelô, mora no Complexo do Alemão com um irmão desempregado e outro com carteira assinada. "Moro com tios e dois irmãos. Um dos irmãos está parado, e uma das tias, que trabalhava em casa de família, saiu. Eu sou camelô há bastante tempo, mas já estou há três dias sem trabalhar porque está muito fraco. São três dias que estou sem R$ 1", confessa Priscila.
Falta de dinheiro fez encher as ruas
Cenas de ônibus, trens e BRTs lotados foram recorrentes durante a pandemia. Entre os moradores de favelas que disseram não terem cumprido a quarentena, 91,3% afirmaram que saíram de casa para trabalhar. Caso de Liliani Bordonne, dona de um comércio de design de unhas no Rio das Pedras, em Jacarepaguá. "Paramos por três semanas, voltamos porque não temos outra renda. O movimento não se normalizou é nem irá em tão pouco tempo. As coisas estão difíceis para todos", admite a proprietária, criada na comunidade. No Complexo da Maré, Tatiana Lima vive realidade parecida. Ela adquiriu uma lanchonete na Nova Holanda justamente no meio da pandemia, e se viu obrigada a abrir. "Não está tudo igual. Tem dias que vai mais clientes, outros menos. A gente tem que trabalhar, se cuidando. Muita gente não está com dinheiro para gastar. Mas sei que Deus vai abençoar", torce.
"Home office é uma alternativa que os empregadores precisam pensar para os seus empregados, mas é complicado quando você tem a maioria desses trabalhadores no setor de serviço", avalia Rabello.

Galeria de Fotos

Favela da Rocinha, em São Conrado, Zona Sul do Rio Daniel Castelo Branco
Liliani fechou loja por três semanas ARQUIVO PESSOAL
Tatiane comprou lanchonete na Maré ARQUIVO PESSOAL
Priscila Gomes vende balas e chicletes pelas ruas do Rio REPRODUÇÃO TWITTER