Especialistas repercutem aspectos da 'carteirada'Reprodução/Arte O Dia
Por Gabriel Sobreira
Publicado 26/07/2020 12:34
Rio - Só neste mês, dois casos de “carteirada” viralizaram e geraram indignação do público. Teve a mulher que ouviu o companheiro ser chamado de cidadão e disse para o fiscal da Vigilância Sanitária do Rio que o marido era melhor que pelo simples fato de ser "engenheiro civil, formado". E em Santos (SP), teve o desembargador que ao ser autuado pela falta do uso de máscara, chamou o guarda "analfabeto", rasgou e jogou a multa no chão e ainda deu "carteirada" ligando para o Secretário de Segurança Pública do município para intimidar o agente. O que leva uma pessoa a humilhar outra tentando ganhar vantagem por causa do cargo que ocupa ou por causa de um diploma que tem? Quando esse comportamento começou? Afinal, as leis são feitas para todos ou valem só para uns? Com a palavra, os especialistas ouvidos por O DIA.
Mas o que é a carteirada ou o "você sabe com quem está falando?"? Há mais de 40 anos, o antropólogo, professor e escritor Roberto DaMatta lançava um ensaio completo sobre o tema no livro 'Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro' (1979). Hoje, aos 84 anos, o acadêmico tem sido procurado sucessivamente para avaliar o comportamento que tem chamado cada vez mais atenção das pessoas. "O nome que a gente dá para esses dois casos é a recusa da igualdade. A carteirada nada mais é do que uma forte aversão ao igualitarismo", setencia DaMatta.
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“A carteirada é um ritual de destituição da cidadania, ritual da desigualdade. Enquanto que o Carnaval, em linhas gerais, é um ritual da igualdade, em linhas gerais. O ‘sabe com quem está falando?’ é um ritual que é do restabelecimento da pessoa no seu devido lugar. E onde isso acontece é onde se tem o anonimato, a impessoalidade. Onde você não conhece as pessoas e vai mostrar quem você é. Obviamente, quem faz isso é quem é ‘superior’, pois o ‘inferior’ não vai fazer”, acrescenta.
Mas será que tem saída para este comportamento? DaMatta diz que sim. "A única saída é a inteligência, entendimento, o trabalho intelectual, é arrumar as coisas na nossa cabeça para que não aconteça de novo. Por exemplo, eu pedi um bife com batata frita, mas o garçom me trouxe um peixe. Eu vou esculhambar ele? Ou vou ter paciência com a minha própria fome e esperar que ele troque o prato. No caso da máscara, isso fica até desproporcional porque ela é uma proteção que você está usando contra a sua própria eventual morte. E quem mais desobedece é quem acha que é entendido, que é 'letrado', quem deveria dar o exemplo dentro do sistema normal", destaca ele.
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O escritor conta que entre os recentes casos, ficou mais surpreso com a atitude do desembargador. "Com a arrogância que ele (desembargador) teve, nos Estados Unidos ele seria algemado. Ele não estava no papel de desembargador, mas de transeunte como você e eu", pontua ele, que acrescenta: “A gente ocupa papéis sociais. Quando você sai da sua casa e vai para rua, você deixa de ser filho, deixa de ser marido, neto, sobrinho, irmão e passa a ser um cidadão. Se você está dirigindo um automóvel, passa a ser um motorista. Então o guarda de transito tem todo o direito de parar o seu carro para fazer uma averiguação. O que obviamente você espera desse guarda que detém o seu automóvel é um tratamento cortês, civilizado. O que você não pode nesse momento é tirar a sua carteira de delegado de polícia e falar que não, que você não pode ser parado por ele, porque você é 'superior' a ele”.
No livro ‘Carnavais, malandros e heróis’, DaMatta já dizia que um sistema ama a democracia, como também ama o 'você sabe com quem está falando?'. "O que chama atenção nos dois casos (da mulher do engenheiro civil e do desembargador) é que a maioria das pessoas está melhorando, tem uma grande demanda no Brasil de seguir as regras que valem para todos. É a sociedade que, aos trancos e barrancos, como dizia (o antropólogo) Darcy Ribeiro, está democratizada. O que é a democracia? É a regra valendo para todos. A gente busca igualdade, tenta tratar todo mundo com respeito, com boa fé", ensina. 
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Paulo Gracindo
Sociólogo, doutor em Ciências Sociais e professor do Mestrado em Sociologia Política da UCAM
"Esse uso da carteirada é corriqueiro. Em uma comunidade dominada pelo tráfico, os que detêm a arma ou proximidade com traficantes, no jargão local, “os que tem contexto”, eles são mais respeitados do que os que não tem contexto. O que nos espanta é que pessoas que estão plenamente inseridas na sociedade, no ordenamento jurídico que temos, ainda se valem em alguns momentos, ou diversos, essa ideia de ser o amigo do Rei. A sociedade tem uma arma que é a divulgação dessas imagens. O posicionamento público é muito importante para que a carteirada deixe de existir. E é importante que a gente passe a não cultuar essa distinção social. Acho muito difícil. Talvez um dos traços mais perenes da humanidade seja o desejo de distinção, de acreditar que se é um ser humano melhor de qualidades que são extraordinárias, frente aos outros seres humanos, que são 'medíocres'. Acho que cada vez mais a gente vai ver esse tipo de caso. É interessante lembrar que a gente teve um processo de distribuição de renda, em que vários movimentos sociais, minorias, passaram a reivindicar seus direitos na arena publica. Isso faz com que de formas varias, outros indivíduos se sintam coagidos no seu desejo de realização da sua diferenciação social. E quando o momento muda, a gente tem é um retorno do recalcado, que vem com toda a força possível tentando a todo custo com que os seus privilégios, as suas distinções sejam reconhecidas. E isso vai acabar em conflitos como esses dois que citamos acima".