Rio - Mães da Sé, em São Paulo, da Praça de Maio, em Buenos Aires, e outras tantas da Baixada Fluminense tocam a vida com uma torturante pergunta: onde está meu filho? O desaparecimento forçado foi uma prática usada pelas ditaduras sul-americanas, mas ainda fazem parte da realidade. O Rio registrou, de janeiro a julho de 2020, 1.859 casos de pessoas desaparecidas no estado, segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), que recolhe registros da Polícia Civil. O mapa mostra que a Baixada e a Zona Oeste da capital, regiões onde as milícias predominam, têm mais desaparecimentos do que todo o resto do estado.
Em 2020, delegacias dos municípios da Baixada Fluminense registraram 470 desaparecimentos. Na RISP 2 (Região Integrada de Segurança Pública 2), que abrange a Zona Oeste e parte da Zona Norte - bairros como Madureira, Vaz Lobo e Campinho, onde milícias são atuantes -, foram 479. Somados, as 949 pessoas sumidas nessas regiões são mais do que em todo o resto do estado (910).
Os números abrangem desaparecidos numa maneira geral, incluindo por exemplo casos de pessoas com deficiência intelectual. Mas parte desses casos compreendem os chamados desaparecimentos forçados, "quando há privação da liberdade por agentes do Estado, ou por pessoas que agem com a cumplicidade e a omissão do Estado", explica Fransérgio Goulart, historiador e coordenador executivo da Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial (IDMJ). Goulart estuda essa prática na Baixada Fluminense.
"Ouvimos familiares e vítimas que relataram desaparecimentos, ou pelos braços da polícia, ou da milícia. Recebemos denúncias, tivemos acesso a escutas sobre esses relatos, e a milícia tem utilizado, sim, de desaparecimento dos corpos. Temos indícios que, de fato, os números de desaparecimentos forçados na Baixada têm um ator protagonista que são as milícias. Por questões de disputas territoriais, por não pagamentos de taxas, corpos desaparecem", avalia Goulart.
Em cidades onde a presença de milicianos é intensa, como Queimados, Belford Roxo e Nova Iguaçu, a prática é ainda mais recorrente, com uso inclusive de cemitérios clandestinos para esconder os corpos. "Tem muitos cemitérios clandestinos na Baixada, possíveis áreas de desovas de cadáveres, como Nova Aurora, em Belford Roxo, Adrianópolis, Cerâmica e Austin, em Nova Iguaçu. Muitos moradores dessas áreas relatam a questão de desaparecimentos forçados e que corpos são deixados nessas áreas". Em julho, a polícia encontrou um cemitério clandestino em uma região de mata entre Queimados e Engenheiro Pedreira.
Desaparecimentos de crianças também assombram famílias, e os mais variados tipos de grupos criminosos podem estar por trás.
Quer conhecer mais e, quem sabe, ajudar na causa? No instagram, procure @maesdobrasil ou o blogdasmaesdobrasil.blogspot.com.
Comentários