Hospital Federal de Bonsucesso um dia após incêndio  - Reginaldo Pimenta / Agência O Dia
Hospital Federal de Bonsucesso um dia após incêndio Reginaldo Pimenta / Agência O Dia
Por Beatriz Perez
Rio - Douglas da Silva saiu às 3h da madrugada de Paraíba do Sul, no Sul Fluminense, para uma sessão de quimioterapia. O jovem de 25 anos faz a viagem com destino ao Hospital Federal de Bonsucesso, onde trata um linfoma há quase dois anos, três vezes por mês. Quando chegou com o pai, Geovani da Silva, nesta manhã para tomar o segundo ciclo de quimioterapia, Douglas foi avisado de que não receberia atendimento. Assista ao vídeo: 
"Foi um pesadelo total, um pânico. A gente está lidando com vida. A cada dia de tratamento é um dia que passa para ele se recuperar. Infelizmente, a gente sabe que ele pode morrer. Quando ele recebe a medicação, para mim é mais um fôlego de vida. Quando você chega aqui e falam que não vai ser aplicado, e não tem o que fazer, é desesperador", desabafa o pai do jovem.
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Após a imprensa noticiar o caso, no entanto, Douglas pôde realizar a quimioterapia, que estava agendada para hoje. Apenas o setor de nefrologia atendeu os pacientes que compareceram ao HFB para atendimentos agendados nesta quinta-feira. Pai e filho já estavam a caminho de casa quando foram acionados pela equipe para voltar e tomar a medicação. A próxima dose , no entanto, prevista para o próximo dia 4, é motivo de aflição para os dois. Douglas ainda tem uma previsão de 5 meses de tratamento.
"Não deram informação nenhuma. Pegaram o nome da gente e falaram que iriam remarcar. As meninas da oncologia, viram a reportagem e disseram para voltarmos para aplicar a medicação. Mas, falaram que os pacientes serão encaminhados para outra unidade", lamenta Geovani. "Estou sentindo pânico, imagina os outros pacientes e seus familiares. Estou em um lugar escuro sem direção nenhuma. Não sei o que fazer. Vou ter que aguardar uma ligação. Não sei se vão ligar. Se ele interromper a medicação, já começa a tossir, ficar prostrado, só fica deitado", explica Geovani.
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Este foi o segundo ciclo de quimioterapia de Douglas. O primeiro não surtiu o efeito desejado e o linfoma retornou ainda mais forte. A equipe médica do HFB orientou que ele fizesse um transplante de medula. A família teme perder o acompanhamento do corpo médico do Hospital Federal de Bonsucesso. "A equipe daqui é a salvação da vida do meu filho, é 1.000%. Para mim esse profissionais da oncologia são deuses. O hospital pode parecer feio por fora, mas o corpo interno dele é perfeito", elogia.
Em nome dos pacientes e parentes que são atendidos na unidade, Geovani pediu que as autoridades reconsiderem a decisão de suspender o atendimento em todo o complexo hospitalar.
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"Peço que o representante que tem o poder na mão olhe para a gente como se fosse um parente. Chegou uma época nesse hospital que não havia medicamento. Eu fui tentar comprar o remédio, mas custava R$ 30 mil reais. Eu não sabia o que fazer. Se eu tivesse dinheiro, meu filho estava no particular. Mas eu dependo disso aqui", emociona-se.
Douglas teme que a dose de quimioterapia e outros medicamentos atrase. "Se atrasa, tenho uma tosse tão forte, que chego a vomitar. Fico sem força para fazer nada. Fico só deitado. Eu tenho medo do que vai acontecer. Meu sonho é ter saúde, poder comer de tudo, beber o que eu quiser. Peço que tenham carinho pelo hospital", apela.
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Conselho Regional de Medicina defende que HFB continue funcionando
O Conselho Regional de Medicina do Rio vai trabalhar para que a unidade não seja interditada, conforme decidiu o Ministério da Saúde após o incêndio de terça-feira. A informação é do diretor do conselho, Flávio Antônio de Sá Ribeiro, que esteve na manhã desta quinta no hospital da Zona Norte do Rio.

"O Cremerj defende a assistência aos pacientes daqui. O HFB deveria permanecer funcionando. O hospital é grande o suficiente para receber os pacientes, especialmente os que vêm de fora da capital receber atendimento aqui", defende.
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Sá Ribeiro diz que o Cremerj acompanha tudo que está sendo feito e que aguarda relatórios dos Bombeiros e da Polícia, além de um documento feito pelo corpo clínico do HFB. "Vamos nos reunir e tomar atitudes pra manter hospital aberto", afirma.
Pacientes ficam sem atendimento
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Pacientes que se deslocaram na manhã desta quinta-feira para o Hospital Federal de Bonsucesso por terem atendimento marcado estão voltando para casa. Quem tinha consulta programada está deixando o nome em uma lista, e funcionários do hospital entrarão em contato para encaminhá-los para outras unidades. Nesta quinta-feira, apenas pacientes da nefrologia, que precisam de tratamentos como diálise ou quimioterapia, foram atendidos.
O hospital não conseguiu entrar em contato com os pacientes para avisá-los de que os atendimentos estariam suspensos. Apenas quem ligou para a unidade em busca de informação foi avisado. Samuel Soares de Moraes, 65, estava com uma visita agendada para esta quinta-feira no HFB. Ninguém fez contato com ele para avisar que a revisão de sua cirurgia no olho estaria suspensa. O motorista aposentado saiu de casa, em Bangu, às 6h, e às 10h precisou voltar com a promessa de que seria contatado para remarcação.
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"A informação que tive é de que assim que puderem continuar com meu procedimento vão me ligar. Estou chateado, mas vou fazer o quê? Bola para frente, o negócio é ir à luta", disse o aposentado.
Ministério da Saúde mandou suspender atendimentos

O Ministério da Saúde informa que determinou a abertura de sindicância para apurar as causas que levaram ao incêndio no Hospital Federal de Bonsucesso, na capital fluminense, nesta terça-feira (27).

A prioridade, diz a pasta, é garantir o atendimento em segurança da população. As consultas e exames laboratoriais no complexo estão temporariamente suspensos. O Ministério da Saúde diz que disponibilizará toda a estrutura de saúde da rede federal do Rio de Janeiro, de forma que não haja prejuízo na assistência.

No ano passado, foram repassados R$ 1,8 milhão de verba suplementar para a modernização da unidade.

A Superintendência Estadual do Ministério da Saúde no Rio de Janeiro avalia conceder férias aos servidores que já tenham o período vencido e remanejar os demais profissionais a outras unidades de saúde da rede federal.

A pasta lamenta profundamente a morte dos três pacientes que estavam internados no HFB e se solidariza aos familiares e amigos das vítimas.