Luanda Moraes vai assumir o cargo de reitora do Centro Universitário Estadual da Zona Oeste (Uezo) em janeiro - Paulo Vitor / Divulgação
Luanda Moraes vai assumir o cargo de reitora do Centro Universitário Estadual da Zona Oeste (Uezo) em janeiroPaulo Vitor / Divulgação
Por O Dia

Pela primeira vez na história, uma instituição universitária estadual será comandada por uma negra. A eleita é a engenheira química Luanda de Moraes, de 43 anos, que assume o cargo de reitora do Centro Universitário Estadual da Zona Oeste (Uezo) no mês de janeiro. Uma conquista marcante da qual a professora tem exata dimensão da importância.

"Tenho plena consciência do que isso significa como um todo. Quando os alunos negros vêm me agradecer pela representatividade, isso reforça a minha missão de seguir em frente. Tenho orgulho em dizer que a Uezo tem mais da metade do seu quadro de alunos composto por estudantes que ingressaram pela política de cotas, baseada no programa da ação afirmativa", enfatiza.

Criada em Rocha Miranda, subúrbio do Rio, Luanda sempre estudou em colégios públicos. Inspirada no pai, primeira pessoa da família a cursar uma faculdade - ele se formou em Engenharia Química, pela Universidade Federal Rural (UFRRJ) -, Luanda decidiu seguir a mesma carreira e, em 2002, também concluiu a graduação pela mesma instituição de ensino.

"Meu pai, que já é falecido, se destacava na família por ser um jovem que gostava de estudar. Aos quatro meses de idade, participei da formatura dele. Devo todas as minhas referências e toda a minha resistência aos meus pais, pelas privações que eles tiveram para oferecer condições de estudar a mim e aos meus irmãos. Somos três irmãos formados em universidades federais. Minha mãe abriu mão de trabalhar para ficar com a gente e eu sou muito grata", ressalta ela.

Após a graduação, Luanda de Moraes fez mestrado e doutorado em Ciências e Tecnologia de Polímeros, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Na ocasião, como não havia no Brasil especialistas para colaborar com a interpretação do resultado de seu estudo, ela foi como pesquisadora visitante para o Istituto per lo Studio delle Macromolecole (ISMAC, CNR), em Milão, na Itália. Em seguida, concluiu seu pós-doutorado pela Uerj na mesma área.

Sua trajetória no Centro Universitário Estadual da Zona Oeste (Uezo) começou em 2009, quando ingressou na instituição como professora contratada. Em 2012, prestou concurso para a Uezo e se tornou professora adjunta. Desde 2017, é vice-reitora do centro universitário e atua orientando alunos de graduação e pós-graduação em pesquisas sobre energia renovável em parceria com Inmetro.

"Fui eleita para a próxima gestão da Uezo, de 2021 a 2025, juntamente com o professor Dario Nepomuceno, também um homem negro, com a grande missão de consolidar a Uezo como a Universidade Estadual da Zona Oeste, onde seus servidores sejam respeitados", afirma.

Para Luanda, a questão da representatividade é uma luta de muito tempo, pois a sua família já abordava o tema dentro de casa e discutia a importância do empoderamento da população preta. "Meus pais sempre atuaram no movimento negro, e todo avanço que nós tivemos em relação à lei que estabeleceu que racismo é crime e à lei de cotas teve, em certa medida, a participação deles. Eu sempre usei cabelo black e a minha família trabalhou muito no nosso empoderamento, e esse incentivo foi fundamental, já que do lado de fora de casa nós éramos desvalorizados. Na minha casa se falava muito de política e história. Eram poucos recursos financeiros, porém muitos recursos de conhecimento e aprendizado", lembra.

A vice-reitora da Uezo destaca a importância de se combater o racismo em toda a sociedade.

"No meu grupo de pesquisa, eu era a única negra. Isso não é por acaso, é uma marca do racismo estrutural. Não podemos naturalizar isso. O fato de hoje eu estar na Uezo, ser vice-reitora, não pode ser colocado como 'um esforço meu', no sentido de insinuar que quem não conseguiu é porque não se esforçou. Aqueles meus colegas de Rocha Miranda que não conseguiram, isso se deve a estrutura da sociedade racista que exclui, e isso é muito sério", reforça Luanda.

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