Alexsandro dos Santos, pai de Emily e tio de Rebeca, ajudou a fechar túmulo da filha e da sobrinha - Divulgação ONG Rio de Paz
Alexsandro dos Santos, pai de Emily e tio de Rebeca, ajudou a fechar túmulo da filha e da sobrinhaDivulgação ONG Rio de Paz
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Foi com emoção e revolta que o pai de Emily Victória Silva dos Santos, de 4 anos, e tio de Rebeca Beatriz Rodrigues dos Santos, 7 anos,  fechou o túmulo da filha e da sobrinha, enterrados uma ao lado da outra, no fim da tarde deste sábado (5), no Cemitério Nossa Senhora das Graças, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. As primas foram mortas, vítimas de bala perdida, na comunidade do Barro Vermelho, em Jardim Gramacho, na sexta-feira (4). 
"Estamos enterrando mais duas vítimas da violência na nossa comunidade. Duas crianças. Minha filha e minha sobrinha. Está aí os governadores que só querem ganhar dinheiro. To enterrando minha filha, que não viveu nada", disse o ajudante de pedreiro Alexsandro dos Santos. 

A pequena Emily, que faria 5 anos no dia 23 de dezembro, foi sepultada com a roupa que ela mesma escolheu para usar em sua primeira festinha de aniversário, de Moana, uma princesa da Disney.

"Ela queria uma festa da Moana, estava tudo preparado. Queria uma festinha igual a da prima. Seria a primeira festinha dela", contou Lídia da Silva Moreira Santos, tia de Emily.
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Prima das meninas, Ana Lúcia Alves de Souza, 51, contou que as duas eram muito amigas. "A Emily era uma criança muito ativa, querida por todos do bairro. A Rebeca era uma menina doce, saudável. As duas eram muito coladas, moravam no mesmo quintal".

Emocionado, o pai de Rebeca desabafou. "Parece que explodiu uma bomba na nossa família. A Rebeca era a minha única filha, a Emily era minha prima. Agora, só nos resta chorar", disse Maycon Douglas Moreira Santos, 25 anos.

Policiais não prestaram socorro

A avó de Rebeca, contou que ouviu os disparos e viu o momento em que policiais militares saíram do local em uma viatura. Ela diz que viu a sobrinha baleada na cabeça e sem vida e acusa policiais de atirarem e não prestarem socorro às meninas.

"Eu desci do ônibus e ouvi os disparos. Vi que tinha uma viatura da PM que saiu logo depois. A Polícia chega atirando, não pensa nos moradores das comunidades. Eram crianças que estavam brincando na porta de casa", disse Lídia da Silva Moreira Santos.

Em nota, a Polícia Militar disse que policiais estavam em patrulhamento, quando disparos de arma de fogo foram ouvidos, mas negou que houvesse disparos por parte dos policiais militares.

A Polícia Civil diz que a Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF) instaurou inquérito para apurar a morte de duas crianças, de 4 e 7 anos. Os cinco policiais militares que estavam na região foram ouvidos e tiveram cinco fuzis e cinco pistolas apreendidas para realização de confronto balístico. Os agentes estão em diligências para apurar as circunstâncias do fato.

Números trágicos

Dados da plataforma Fogo Cruzado mostram que neste ano, 22 crianças foram baleadas na Região Metropolitana do Rio: destas, 8 morreram.

Já a ONG Rio de Paz, que acompanha os casos de crianças e adolescentes mortas vítimas de armas de fogo desde 2007, contabiliza, desde então, 79 vidas tiradas no Rio, a maioria dela por balas perdidas. Só neste ano de 2020 a Rio de Paz listou 12 casos, uma média de uma morte por mês.

"Mais duas crianças foram mortas vítimas da violência. Sempre que essas mortes ocorrem pensamos que tudo vai mudar, uma vez que a face mais hedionda da criminalidade no Rio é a morte por bala perdida desses meninos e meninas. Contudo, nada muda. Famílias permanecem desamparadas, a autoria dos homicídios não é elucidada, os assassinos não são punidos e nenhuma transformação ocorre na política de segurança pública. Vale lembrar que quem morre são crianças pobres. Nisso reside a razão da indiferença por parte das autoridades públicas”, criticou o presidente da Rio de Paz, Antonio Carlos Costa.