Arte de Paulo Márcio nos leva para o mundo lúdico que toda a criança deveria desfrutar
Arte de Paulo Márcio nos leva para o mundo lúdico que toda a criança deveria desfrutarArte: Paulo Márcio
Por ANA CARLA GOMES
No último domingo foi celebrado o Dia Mundial da Infância. E fiquei lembrando os comentários de alguns amigos, no ano passado, falando de como era bom ser criança e não ter a dimensão de certas crises, como a que vivemos atualmente. Mas, logo na segunda-feira, um vídeo veio para escancarar que o mundo lúdico não é vivido por todos os nossos pequenos: crianças, de máscaras, assustadas com um tiroteio, se encolhiam no chão do corredor de uma escola do Rio.
Um dos alunos pergunta: "Tia, como a gente vai saber onde está o tiro?". "A gente não sabe, o tiro está em todas as partes. Ora aqui pertinho, ora se distanciando", responde a professora, ainda preocupada em não manter as crianças muito próximas por conta da covid-19.

Rapidamente vem à minha mente uma foto emblemática do fotógrafo Ricardo Cassiano, no dia 17 de junho de 2020. Ele registrou meninos soltando pipa sem proteção contra a covid-19 entre covas rasas no Cemitério do Murundu, em Padre Miguel. Um deles vestia a camisa do Flamengo. O Rubro-Negro jogaria no dia seguinte na retomada do Carioca contra o Bangu, com portões fechados, no Maracanã. Quanta contradição num só clique: a ingenuidade infantil, sem noção do perigo, a paixão pelo futebol no corpo e o brinquedo na mão.

A imagem e o vídeo me fazem constatar que é muito bom ser criança para quem não cresce vendo a dureza da vida. Num país de diversas infâncias sofridas, a realidade é tão árida e cortante que impede qualquer beleza nas palavras. Precisávamos de muitas outras vacinas de proteção e afeto, como uma que imunizasse nossas crianças contra mundos que não fossem lúdicos.