Pai de Guilherme diz que filho dava 'orgulho e alegria'LUCIANO BELFORD/AGÊNCIA O DIA
Por Thuany Dossares
Publicado 06/03/2021 19:02 | Atualizado 06/03/2021 19:12
Rio - "Pelas provas deles, é como se o meu filho fosse sentenciado a ser um marginal. Agora eu tenho que provar que o meu filho era um menino trabalhador, com sonhos, de família e que não tinha nada a ver com o tráfico. Isso é muito triste". Esse é o desabafo do corretor de seguros Flávio Erasmo de Oliveira, durante o sepultamento do seu filho Guilherme Martins Oliveira, de 20 anos.

O jovem, que foi baleado e morto durante uma operação de PMs do 41º BPM (Irajá), na quinta-feira, foi sepultado no final da tarde deste sábado, no Cemitério de Inhaúma, na Zona Norte do Rio. Cerca de 200 pessoas, entre amigos, familiares e ex-colegas de farda do rapaz, que recebeu dispensa do Exército há duas semanas, acompanharam a cerimônia de despedida.

Segundo os familiares, os PMs foram os responsáveis pelos disparos que atingiram Guilherme e seus outros dois amigos, que conheceu no Exército, na comunidade Gogó da Ema, no Complexo do Chapadão. Ainda de acordo com os parentes, os policiais acusaram os jovens de terem envolvimento com o tráfico de drogas local.

"Ele foi sozinho para lá encontrar os amigos, estavam conversando, bebendo cerveja. Falaram que a polícia entrou na comunidade e já foi logo atirando e eles correram", contou o pai.

Um dos amigos de Guilherme, Daniel, também não resistiu aos ferimentos e morreu, e outro, João Marcos da Silva Lima, está internado sob custódia, no Hospital Estadual Carlos Chagas. Ele foi autuado em flagrante por tráfico de drogas, porte de arma de fogo e resistência.

"Eles estão falando que os meninos eram traficantes e entraram em confronto com a polícia. Postaram foto de arma, drogas. Mas o amigo do Guilherme que está no hospital fala que eles não estavam com armas, nem com drogas, e que quando levantaram para tentar correr, já foram baleados. E esse menino está até preso pelas alegações que os policiais fizeram", disse Flavio.

O pai de Guilherme tem certeza da inocência do seu filho e chegou a pedir que a polícia realizasse alguma perícia nas mãos do rapaz, para provar que não havia vestígios de pólvora. Mas o pedido não foi atendido enquanto o corpo de Guilherme aguardava liberação no Instituto Médico Legal (IML).

"Um policial do plantão disse que isso era pedido de exclusividade do delegado. Então o corpo do meu filho foi liberado sem que o exame fosse feito. Não tiveram nem o interesse em provar se ele participou de confronto. Parece que não é interessante para a polícia investigar a fundo se houve realmente esse fato que a PM relatou. Nem com o delegado eu falei. A gente tem uma segurança que deveria nos proteger, mas que não nos protege em nada, estão na verdade acusando", declarou Flavio.

Cerca de 30 rapazes que conheceram Guilherme e João Marcos, no Exército e serviram junto com eles, também acreditam na inocência dos amigos e ex-colegas de farda.

"Todos nós temos a certeza que essa acusação é muito injusta, porque eles estavam apenas comemorando, era um momento de lazer, de distração. O nosso irmão, João Marcos, está passando por um momento muito difícil também, assim como a sua família. Lutando pelo direito dele de cidadão, tentando provar sua inocência. Todos já sabem que eles são inocentes, agora só falta a polícia falar a verdade, tem que ser honestos", falou o colega de farda dos rapazes, Alessandro Pereira da Silva.

O caso foi registrado na 31ª DP.
Versão da PM
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Questionada sobre as denúncias, a Polícia Militar afirmou que uma equipe do 41ºBPM (Irajá) sofreu uma emboscada de criminosos armados durante troca da equipe que estava em um veículo blindado, na Rua Fernando Lobo, nas proximidades do Complexo do Chapadão, e revidaram. Policiais militares da unidade foram deslocados em apoio e houve um novo confronto.
"Na ação, três criminosos foram feridos, sendo socorridos para o Hospital Estadual Carlos Chagas. Foram apreendidos uma pistola, munições, um rádio transmissor, uma granada, drogas, e dois aparelhos celulares. Registro feito na 31 DP", diz a nota. Um inquérito Policial Militar (IPM) foi instaurado para apurar as circunstâncias da ação.
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Relembre o caso
Segundo a família, Gabryel Marques de Oliveira, 21, e Guilherme Martins Oliveira, 20, colegas no serviço às Forças Armadas, morreram enquanto estavam em um bar na comunidade Gogó da Ema, no Complexo do Chapadão. Parentes dizem que os documentos e celulares dos mortos foram subtraídos. "O iPhone do meu filho, documentos e identidade do exército sumiram da carteira", diz Fernanda Oliveira, madrasta de Guilherme." A gente falava para os filhos andarem com documento, porque se você é preto e pobre, é bandido nesse país".
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