Memórias ‘Odianas’

Por André Gabeh

Que coisa mais divertida, aconchegante e mágica estar nesse jornal, nessa página. Uau! O Criador desse universo é um roteirista capaz de criar tramas com reviravoltas mais surpreendentes do que criatividade de pobre! Meu pai, provavelmente, está todo orgulhoso lá no céu e, do jeito que gostava de um trelelê, deve estar pedindo pros santos protetores dos cronistas me mandarem bênçãos.
Explico: No final dos anos setenta e início dos anos oitenta, meu pai trabalhou na distribuição do jornal O DIA, na antiga sede da Riachuelo e, de vez em quando, eu tinha a honra de visitar o seu trabalho. Tirava maior onda em Pilares.
Sucesso.
Adoraria contar uma história lúdica e poética sobre a beleza da minha infância passada entre as impressoras, observando, todo angelical, as esteiras por onde os jornais escorriam quentinhos... Adoraria falar sobre a poesia de pegar um jornal e ser um dos primeiros cidadãos a provar daquelas notícias fresquinhas.
Adoraria.
Mas a verdade não é tão bonita.
Em 1980 eu era um menino de cinco anos, hiperativo, futucador, com uma fome maior que o P.I.B. Do Canadá e com um comportamento que era uma cruza de DEMÔNIO DA TASMÂNIA, BARATA VOADORA e FILHOTE DE CACHORRO. Ou seja, além de não saber ler as coisas escritas nas manchetes e editoriais, quando via a esteira por onde desciam os jor nais, eu implorava pra alguém me colocar nela pra eu escorregar. Consegui algumas vezes.
Digo amém a isso. A cena era bem pitoresca.
Lembro de parecer um leitãozinho no rolete.
Não havia poesia possível.
Quando eu chegava na porta do jornal as pessoas corriam pros seus terços, bíblias, relíquias de Porto das Caixas, farelo de pão distribuído na igreja de Santo Antônio dos pobres ... Era um “pegapracapá”, um sururu... todos tentavam se proteger, mas as única coisas que me domavam eram o “cremecráquer” (sei o
nome certo, mas prefiro escrever de ouvido hahaha) do pessoal que virava a noite trabalhando e OS BRINDES.
Ah...Os brindes!! Chego a chorar groselha lembrando dos presentinhos que sempre recebia: chaveiros, caderninhos de telefone e bloquinhos pra desenhar. Quantas vezes eu visitasse o O DIA, quantas vezes eu ganharia aqueles mimos. Ainda tenho algum desses chaveiros. Um dia posto nas minhas redes sociais pra vocês verem.
Era tudo meio sombrio e ao mesmo tempo muito agitado e com pessoas muito urgentes. Parecia a mina dos Sete Anões, sabe? Um povo correndo contra o tempo, muito suor, aquele cheiro das palavras no papel. Meio fetiche, meio filme de terror. E MUITO CAFÉ.
Garrafas térmicas cheias de café. Eu doido por um gole, mas meu pai não me deixava nem passar perto. Eu tinha um fogo no rabERROR404 suficiente pra fazer fogueira pra uns  cento e trinta arraiás. Se tomasse café eu seria capaz de evaporar a Baia da Guanabara só piscando os olhos.
E agora olha eu aqui! Sereno. hahaha
Meu pai sentiria orgulho de mim. Sentiria alegria por minhas palavras estarem me levando a lugares onde ele já esteve. Ele me levava pela mão pra visitar o seu trabalho e eu estou aqui, o trazendo em meu coração.
É bonito isso.
Talvez você esteja me lendo (engraçado isso: “me lendo”. Repete só: me lendo, me lendo, me lendo... ) e tomando o café que eu não podia tomar. Talvez você esteja lendo ao lado do seu pai, ou da sua mãe. Talvez você esteja tirando a xícara da mão do seu filho azucrinado, talvez nada disso.
Eu estou aqui.
Estamos.
E é bonito isso.
É bonito pra cacete. Quase tão bonito quanto bom dia de mãe.
Aliás, quando contei pra minha mãe que começaria a escrever por aqui, falei de minhas memórias ODIANAS ( entenderam, né? Odianas = Vindas do O Dia )e ela comentou: - Teu pai voltava de cabelo em pé com suas peripécias.
Eu ri e falei que mesmo assim ele continuava a me levar.
-Ele gostava! E o pessoal gostava de você.
E eu também gostava quando você ia, porque se seu pai fizesse alguma piranhagem você me contaria. 
Gente... eu era um espião e nem sabia!
Mas quer saber? Até isso achei bonito.
Fiquem ótimos, e obrigado por me lerem.
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