Impeachment não é moeda de troca

O processo contra Witzel não pode ser apenas uma cortina de fumaça. É preciso apurar os fatos e, também, não esquecer que há uma pandemia a ser combatida

Por O Dia

Nuno Vasconcellos: "O episódio, porém, oferece mais um exemplo do estado de ânimos que tomou conta da política brasileira nos últimos anos"
Nuno Vasconcellos: "O episódio, porém, oferece mais um exemplo do estado de ânimos que tomou conta da política brasileira nos últimos anos" -
Não é o caso de se discutir, aqui, se o governador Wilson Witzel terá forças para se defender no processo de impeachment que a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro abriu contra ele na quarta-feira passada. Dos 70 parlamentares da Alerj, 69 votaram pelo início do processo — resultado que, por si só, já indica o tamanho das dificuldades no caminho do governador. Independentemente do desfecho da batalha, a pergunta a ser feita é: será que esse era o assunto mais urgente que os deputados tinham para tratar neste momento?
Que fique claro, aqui, que não está sendo ignorado o peso das acusações contra Witzel, que devem ser esclarecidas. Caso se comprove algum erro do governador ou de qualquer um de seus auxiliares, que ele seja punido na forma da lei. A Polícia Federal está investigando o caso e, qualquer ação que a Alerj tome com base em indícios será, no mínimo, precipitada. O episódio, porém, oferece mais um exemplo do estado de ânimos que tomou conta da política brasileira nos últimos anos.

ÔNIBUS APINHADOS — A sociedade do Rio ficaria ainda mais decepcionada com seus políticos caso o processo de impeachment contra Witzel se reduza, com o passar do tempo, a uma moeda de troca para acertos pouco republicanos e eticamente reprováveis. O governador precisa fazer o que prometeu e deixar a população tranquila em relação à lisura de suas intenções e de seus atos. Qualquer acerto que, por hipótese, ele venha a fazer com o governo federal ou com integrantes da própria Alerj para garantir seu mandato sem, no entanto, apresentar uma explicação que convença a sociedade de que não agiu de má fé, não ajudará a tornar mais fácil a vida do governador.
O resultado da votação de quarta-feira foi amplo demais para que os ânimos da Alerj mudem de uma hora para outra sem uma boa explicação. Se ela vier, como o governador assegura que virá, ótimo. Caso não venha e mesmo assim a Alerj resolva deixar o dito pelo não dito e não levar a acusação a sua última consequência, os deputados é que terão que se entender com o eleitor. E explicar a razão de darem início a um processo político tão grave como esse no momento em que sua atenção deveria estar totalmente voltada para o cidadão. No mesmo dia em que os deputados deram início ao processo contra o governador, para citar um único exemplo de descaso, os cariocas que usam o transporte público, sem que qualquer autoridade viesse em seu socorro, se expunham ao risco de contaminação pelo coronavírus nos ônibus apinhados do Rio.

POPULAÇÃO VULNERÁVEL — A questão é: o que tem o processo de impeachment de Witzel a ver com o transporte público abarrotado? A resposta: tudo. Uma das mais nobres atribuições do Legislativo — seja o federal, o estadual ou o municipal — é aprovar as prioridades e acompanhar de perto as ações do Executivo. Logo no início da pandemia, o STF confirmou que os governadores e os prefeitos têm mais poder do que o governo federal no que diz respeito às decisões sobre o enfrentamento da covid-19. Essa decisão, por extensão, conferiu aos legislativos estaduais e municipais poderes não só para definir os rumos das ações dos governadores e prefeitos mas, também, para fiscalizá-los, sempre tendo em vista os interesses da população.
As denúncias contra o governador, no entanto, parecem ter pegado toda a Alerj desatenta. Da mesma forma, os deputados continuam relapsos em relação a outros problemas que acontecem bem diante de seus olhos. Nenhum político do Rio, por exemplo, cobrou do secretário de Transportes do estado ou do município explicações sobre as providências que tomaram — se é que tomaram alguma — para evitar o caos que se viu nos ônibus do Rio de Janeiro nos últimos dias.
Em São Paulo, apenas a título de comparação, o prefeito Bruno Covas deu a seu secretário um prazo para resolver a superlotação dos ônibus. Do contrário, outra pessoa estaria no posto a partir de segunda-feira. Ao abrir a discussão em torno do impeachment num momento em que deveriam cuidar do cidadão, os deputados dão a impressão de querer encontrar um culpado pelos desacertos no combate ao coronavírus. Na verdade, porém, eles estão apenas se tornando cúmplices de tudo o que há de errado no Estado do Rio de Janeiro.

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Nuno Vasconcellos: "O episódio, porém, oferece mais um exemplo do estado de ânimos que tomou conta da política brasileira nos últimos anos" Daniel Castelo Branco
Nuno Vasconcellos: "As denúncias contra o governador, no entanto, parecem ter pegado toda a Alerj desatenta" ARTE O DIA

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