Cartola: de servente de pedreiro a um dos maiores poetas do samba, a trajetória do compositor
Por Flipar
Angenor de Oliveira, que o Brasil conheceria como Cartola, nasceu no bairro do Catete, na Zona Sul do Rio de Janeiro.
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Filho de Sebastião Joaquim de Oliveira e Aída Gomes de Oliveira, ele cresceu em um ambiente simples, mas cercado de música. Seu pai, que era violonista amador, foi o primeiro a lhe ensinar os acordes do instrumento que o acompanharia por toda a vida.
Reprodução do Flickr Arquivo Nacional do Brasil
A sua infância, no entanto, foi marcada por dificuldades. Ainda menino, Cartola viu a família mudar-se várias vezes, até se estabelecer no Morro da Mangueira, onde ele passaria a maior parte da vida.
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Foi na Mangueira que o futuro sambista mergulhou de vez no universo musical popular. A morte precoce de sua mãe o obrigou a deixar os estudos e trabalhar cedo - foi servente de pedreiro, lavador de carros e até contínuo.
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Em um dos seus trabalhos em obras de construção, a fim de proteger os cabelos da poeira de cimento, começou a usar um chapéu-coco. Os colegas passaram a chamá-lo de ?Cartola?, apelido que o acompanhou para o resto da vida.
Acervo Museu do Samba
No início da década de 1920, Cartola passou a frequentar rodas de samba e blocos carnavalescos na Mangueira. Junto a figuras como Carlos Cachaça e Zé Espinguela, fundou blocos carnavalescos e, posteriormente, a Estação Primeira de Mangueira, uma das mais tradicionais escolas de samba do país.
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Ao longo dos anos 1930, suas composições começaram a ganhar destaque fora do morro. Sambas como ?Divina Dama?, ?Quem Me Vê Sorrindo?, ?Alegria?, ?Não Quero Mais Amar a Ninguém? e ?Qual Foi o Mal Que Eu Te Fiz?? foram gravados por grandes intérpretes da época, como Francisco Alves, Carmen Miranda e Mário Reis.
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Apesar da qualidade de sua obra, a vida de Cartola nunca foi fácil. Nos anos 1940, enfrentou longos períodos de esquecimento, trabalhando em atividades humildes para sobreviver.
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Durante esse tempo, afastou-se do samba e chegou a viver em extrema pobreza. O artista foi redescoberto no final dos anos 1950, quando o cronista e radialista Sérgio Porto - mais famoso pelo pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta - o encontrou lavando carros em Ipanema.
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Surpreso ao reconhecer o compositor de clássicos do samba, Sérgio Porto o ajudou a retornar ao meio musical.
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Nos anos 1960, Cartola reencontrou o sucesso. Ao lado de sua companheira Dona Zica, com quem viveu até o fim da vida, fundou o lendário restaurante Zicartola, na Rua da Carioca, no centro do Rio de Janeiro.
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O local tornou-se ponto de encontro de sambistas tradicionais e jovens músicos, como Nara Leão e Paulinho da Viola. O Zicartola foi mais que um restaurante: virou símbolo da resistência do samba de morro e da convivência entre gerações e estilos musicais.
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Mesmo assim, foi apenas em 1974, aos 65 anos de idade, que o sambista lançou seu primeiro disco solo, intitulado simplesmente ?Cartola?.
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O álbum, produzido por João Carlos Botezelli, o Pelão, trouxe clássicos eternos como ?Acontece?, ?Tive Sim?, ?O Sol Nascerá?, parceria com Elton Medeiros, e ?Alvorada?, composição partilhada com Carlos Cachaça e Hermínio Bello de Carvalho.
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Dois anos depois veio o segundo LP, que traz na capa a famosa foto em preto e branco de Cartola ao lado de Dona Zica, com o sucesso ?O Mundo é um Moinho?.
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Em 1977, lançou ?Verde Que Te Quero Rosa?, e em 1979, o disco ?Cartola 70 Anos?, seu quarto e último álbum de estúdio.
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A obra de Cartola é marcada por um lirismo refinado e profundo, incomum no samba tradicional. Um exemplo dessa característica é a canção ?As Rosas Não Falam?. Por isso, críticos e estudiosos o colocam entre os maiores nomes do gênero, ao lado de Noel Rosa, Pixinguinha e Paulinho da Viola.
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Cartola teve uma vida modesta até o fim, morando com Dona Zica em uma pequena casa em Jacarepaguá.
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Em seus últimos anos, lutou contra um câncer que o debilitou bastante, mas continuou compondo e se apresentando sempre que podia. Faleceu em 30 de novembro de 1980, aos 72 anos, deixando um legado monumental.
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Após sua morte, a influência de Cartola só cresceu. Diversos artistas gravaram suas composições, entre eles Gal Costa, Elis Regina, João Nogueira, Ney Matogrosso e Paulinho da Viola.