Bezerra da Silva, o sambista que uniu malandragem e crítica social

Por Flipar

Ao longo de uma trajetória que atravessou décadas, Bezerra construiu uma obra voltada para os problemas sociais das favelas e da população marginalizada, atuando na fronteira entre a marginalidade e a indústria musical, ainda que frequentemente ignorado pelo chamado mainstream.

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Filho de família pobre, Bezerra nasceu em um contexto de dificuldades. Sua mãe, Hercília Pereira da Silva, foi abandonada pelo marido, Alexandrino Bezerra da Silva, quando estava grávida. 

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Aos 15 anos, após ser expulso da Marinha Mercante, o adolescente decidiu viajar para o Rio de Janeiro em busca do pai e de uma chance de escapar da pobreza. Na cidade, passou a trabalhar na construção civil e chegou a ter como endereço a própria obra onde trabalhava, na zona central. 

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Por volta de 1949, foi morar no Morro do Cantagalo, na Zona Sul carioca. Foi lá que começou a desenvolver com mais intensidade seu estilo musical, influenciado pelo coco de Jackson do Pandeiro. Ingressou na bateria do bloco carnavalesco Unidos do Cantagalo, tocando tamborim, e ampliando sua atuação como ritmista.

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A vida boêmia e marcada pela malandragem o levou a ser detido dezenas de vezes pela polícia e, desempregado, chegou a viver por um tempo nas ruas cariocas. Ao ser acolhido em um terreiro de umbanda, descobriu a mediunidade e ouviu de uma mãe-de-santo que seu destino era a música. 

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Com o nome artístico José Bezerra, teve as composições ?Acorrentado? e ?Leva teu gereré?, em parceria com Jackson do Pandeiro, lançadas em 1959 no primeiro álbum da carreira do cantor paraibano. 

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Nos anos seguintes, integrou a orquestra da gravadora Copacabana Discos, que acompanhava artistas de renome, e emplacou novas composições gravadas por Jackson do Pandeiro, como ?Meu veneno?, ?Urubu molhado?, ?Babá?, ?Criando cobra? e ?Preguiçoso?. Em 1965, a cantora Marlene gravou ?Nunca mais?, parceria de Bezerra com Norival Reis.

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Em 1967, compôs seu primeiro samba, ?Verdadeiro amor?, gravado por Jackson do Pandeiro no mesmo ano. Ao final daquela década, adotou definitivamente o nome artístico Bezerra da Silva e, em 1969, lançou seu primeiro compacto simples pela Copacabana Discos, com as músicas ?Mana, cadê meu boi?? e ?Viola testemunha?. 

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Seu primeiro LP, ?Bezerra da Silva ? O Rei do Coco Volume 1?, sairia apenas em 1975, pela Tapecar, com destaque para a faixa-título. No ano seguinte, lançou ?O Rei do Coco Volume 2?, cujo principal sucesso foi ?Cara de boi?.

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Antes mesmo do hip hop brasileiro, as canções de Bezerra da Silva retratavam a realidade das comunidades, com títulos como ?Malandragem Dá um Tempo?, ?Sequestraram Minha Sogra?, ?Bicho Feroz?, ?Malandro Não Vacila? e ?Meu Pirão Primeiro?.

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Os principais temas eram a vida do povo, a exploração e a opressão sofridas pelos trabalhadores e a malandragem. Ele próprio ressaltava que cantava músicas de compositores que eram serventes de pedreiro, camelôs, desempregados, lavadores de carro e cozinheiras, reforçando seu vínculo com a base popular.

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Ao longo da carreira, Bezerra da Silva gravou 28 álbuns, que venderam mais de 3 milhões de cópias. O artista recebeu 11 discos de ouro, três de platina e um de platina duplo.

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Estudou violão clássico por oito anos e também integrou por oito anos a orquestra da Rede Globo, sendo um dos poucos partideiros que sabiam ler partituras.

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Em 1995, lançou pela gravadora CID o projeto ?Moreira da Silva, Bezerra da Silva e Dicró: Os Três Malandros In Concert?, paródia do espetáculo dos três tenores Luciano Pavarotti, Plácido Domingo e José Carreras. 

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Em setembro de 2004, foi internado em uma clínica privada do Rio de Janeiro com pneumonia e enfisema pulmonar, chegando a permanecer quase uma semana em coma. Um mês depois, voltou a passar mal e foi levado ao Hospital dos Servidores do Estado, onde faleceu em 17 de janeiro de 2005, aos 77 anos. 

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Casado com Regina de Oliveira, que também atuou como sua empresária e compositora sob o pseudônimo Regina do Bezerra, deixou filhos, entre eles Itallo Bezerra da Silva, que seguiu carreira musical. 

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Sua trajetória foi retratada no livro ?Bezerra da Silva ? Produto do Morro?, de Letícia Vianna, lançado em 1998. Em 2010, o rapper Marcelo D2 lançou o álbum ?Marcelo D2 canta Bezerra da Silva?, homenageando parte de sua obra. 

Rodrigo Ladeira/Divulgação

Seu estilo inconfundível de malandro carioca, com o característico boné, segue inspirando admiradores em rodas de samba, e sua memória foi celebrada pela escola de samba Acadêmicos do Tucuruvi no Carnaval de São Paulo em 2023.

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