Lasar Segall: mostra em SP reúne obras marcantes do artista lituano-brasileiro

Por Flipar

A mostra, com obras realizadas tanto em sua fase europeia quanto após a mudança definitiva para o Brasil, é fruto de uma colaboração com o Museu Lasar Segall (foto) e permanece aberta à visitação até o dia 5 abril de 2026.

Reprodução do Flickr Sergio Zeiger

Com curadoria de Patricia Wagner, a exposição propõe um percurso sensível pela produção do artista, destacando a permanência dos temas abordados por Segall, que dialogam com debates contemporâneos sobre violência, intolerância e deslocamentos forçados. 

Reprodução do Museu Acervo Fotográfico Museu Lara Segall

O título da mostra dialoga com um relato do poeta Vinicius de Moraes, que em 1943 contou ter ouvido de Segall, durante uma conversa com o cronista Rubem Braga, uma observação contemplativa ao olhar para o céu: ?Essa velha lua, amigo, sempre a mesma??.

Reprodução do Museu Acervo Fotográfico Museu Lara Segall

O núcleo central da exposição aproxima trabalhos expressionistas criados na Alemanha de obras produzidas no Brasil a partir de 1923, ano em que Segall se estabeleceu no país. 

Reprodução do Museu Acervo Fotográfico Museu Lara Segall

Entre as peças de maior relevância está ?Eternos caminhantes? (1919), trabalho confiscado pelo regime nazista em 1937 e exibido na mostra de ?arte degenerada?, símbolo da perseguição às vanguardas modernas. A obra foi recuperada pela família apenas em 1958 e integra o conjunto cedido pelo Museu Lasar Segall. 

Museu Lasar Segall

Também compõem a exposição trabalhos pertencentes à Pinacoteca de São Paulo, como ?Morte? (1919), além de obras oriundas de coleções particulares, a exemplo de ?Morro vermelho? (1926) e ?Mulata com criança? (1924), apresentadas com contextualização crítica. Já ?Interior de pobres II? (1921) passou por processo de restauração especialmente para integrar a mostra.

Reprodução do Flickr Sergio Zeiger

Lasar Segall nasceu em 21 de julho de 1891, na cidade de Vilna, então parte do Império Russo e hoje Vilnius, capital da Lituânia. Originário de uma família judaica, cresceu em um ambiente marcado pela religiosidade e pelas tradições culturais do Leste Europeu, elementos que mais tarde estariam presentes em sua produção artística. 

Reprodução do Museu Acervo Fotográfico Museu Lara Segall

Ainda adolescente, deixou sua cidade natal para estudar arte na Alemanha, iniciando uma formação que o colocaria em contato direto com as vanguardas europeias do início do século 20. 

Reprodução do Museu Acervo Fotográfico Museu Lara Segall

No país, aproximou-se dos círculos modernistas de Dresden. Sua obra desse período revela forte influência do expressionismo alemão, com figuras alongadas, traços marcantes e uma paleta sombria, frequentemente voltada à representação de temas como sofrimento humano, pobreza, marginalização e espiritualidade. 

Divulgação / Museu Lasar Segall

A Primeira Guerra Mundial e as tensões políticas na Europa impactaram profundamente sua trajetória. Judeu em um continente cada vez mais tomado por nacionalismos e preconceitos, Segall viu crescer o ambiente de hostilidade que marcaria as décadas seguintes. 

Reprodução do Museu Acervo Fotográfico Museu Lara Segall

Em 1913, ele realizou sua primeira exposição no Brasil, em São Paulo e Campinas, mas retornou à Europa pouco depois. Somente em 1923 decidiu fixar residência definitiva no país, naturalizando-se brasileiro anos mais tarde.

- Reprodução do Museu Acervo Fotográfico Museu Lara Segall

No Brasil, estabeleceu-se inicialmente em São Paulo, onde passou a dialogar com o movimento modernista que ganhava força após a Semana de Arte Moderna de 1922. Embora não tenha participado diretamente do evento, sua produção foi incorporada ao debate estético que buscava afirmar uma arte moderna com identidade própria. 

Reprodução do Museu Acervo Fotográfico Museu Lara Segall

Ao longo dos anos 1920 e 1930, sua obra começou a incorporar novas cores e luminosidades, influenciada pelo ambiente tropical, sem abandonar a densidade emocional característica de sua fase europeia.

Reprodução do Museu Acervo Fotográfico Museu Lara Segall

Temas como imigração, exílio, navios de emigrantes, favelas e a condição dos desfavorecidos tornaram-se recorrentes em sua obra. O artista também produziu gravuras, esculturas e ilustrações, ampliando seu campo de atuação. 

Divulgação

Durante o regime nazista, algumas de suas obras que permaneciam na Alemanha foram classificadas como ?arte degenerada?, expressão usada pelo governo de Adolf Hitler para desqualificar produções modernas que fugiam dos padrões estéticos oficiais. 

Reprodução do Flickr Sergio Zeiger

Trabalhos seus chegaram a ser confiscados e exibidos em mostras destinadas a ridicularizar artistas associados às vanguardas. Esse episódio reforçou o caráter político involuntário de sua obra, marcada pela empatia com os perseguidos e deslocados.

Reprodução do Museu Acervo Fotográfico Museu Lara Segall

Nas décadas seguintes, Segall consolidou-se como um dos nomes centrais do modernismo brasileiro. Sua residência-ateliê na Vila Mariana, em São Paulo, tornou-se ponto de encontro de intelectuais e artistas. O espaço hoje abriga o Museu Lasar Segall, dedicado à preservação e difusão de sua obra e de seu acervo documental.

Reprodução do Flickr Sergio Zeiger

Lasar Segall morreu em 2 de agosto de 1957, em São Paulo. Sua produção permanece como um testemunho sensível das tensões do século 20, ao mesmo tempo em que constrói uma ponte entre a experiência europeia e a realidade brasileira. 

Divulgação

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