Por Flipar
Em outubro de 2025, em Madri, Martins recebeu das mãos da rainha Sofia, da Espanha, o Prêmio José Manuel Martínez Martínez, concedido pela Fundação MAPFRE. Conheçamos mais sobre o músico?
Nascido em São Paulo em 25 de junho de 1940, João Carlos Gandra da Silva Martins tornou-se um dos maiores nomes da música erudita brasileira.
Pianista e maestro reconhecido internacionalmente, ele é celebrado especialmente por suas interpretações e gravações das obras de Johann Sebastian Bach. Ele é irmão do jurista Ives Gandra Martins e do pianista José Eduardo Martins.
Seu pai, José Martins, era um português natural de Braga que emigrou para o Brasil após uma infância difícil. Mesmo tendo perdido o polegar em um acidente de trabalho, ele manteve viva a paixão pelo piano e a transmitiu para os filhos.
João Carlos cresceu cercado por estímulos musicais. Aos oito anos, já vencia concursos interpretando Bach, e aos 11 dedicava seis horas diárias ao estudo do instrumento. Foi aluno do renomado professor russo José Kliass, radicado no Brasil.
Ainda jovem, conquistou o Concurso da Sociedade Brito de São Petersburgo. Aos 18 anos, foi selecionado para o Festival Pablo Casals, onde representou as Américas e se apresentou em Washington, iniciando uma carreira internacional brilhante.
Aos 20 anos, estreou no Carnegie Hall, em Nova York, com o patrocínio da primeira-dama dos Estados Unidos Eleanor Roosevelt, e passou a se apresentar com grandes orquestras americanas.
Sua trajetória, porém, foi marcada por inúmeros obstáculos físicos. Em 1965, durante um jogo de futebol amador no Central Park, sofreu uma lesão grave no braço direito, que atingiu o nervo ulnar e comprometeu parte dos movimentos.
Afastado do piano, tornou-se empresário do boxeador Éder Jofre, experiência que o inspirou a lutar novamente pela recuperação. Entre 1979 e 1985, registrou dez volumes da obra de Bach, adaptando a técnica às sequelas.
Em 1995, durante um assalto em Sófia, na Bulgária, foi golpeado na cabeça com uma barra de ferro, o que agravou as sequelas neurológicas e afetou seus movimentos e a fala.
Após cirurgias e reabilitação, gravou seu último álbum com as duas mãos e, mais tarde, o disco ?Só para Mão Esquerda?, com peças compostas por Maurice Ravel para o pianista Paul Wittgenstein.
Com o tempo, também perdeu o movimento da mão esquerda por causa de uma contratura de Dupuytren. Diante da impossibilidade de continuar tocando, teve um sonho com o maestro Eleazar de Carvalho, que o inspirou a iniciar uma nova etapa como regente.
Desde então, passou a memorizar integralmente cada obra, decorando milhares de páginas de partituras. Em 2004, regeu a English Chamber Orchestra, em Londres, gravando os Concertos de Brandemburgo e as Suítes Orquestrais de Bach, lançadas mundialmente.
Em 2012, Martins passou por uma cirurgia cerebral que implantou eletrodos conectados a um estimulador eletrônico, ajudando-o a recuperar parte dos movimentos da mão esquerda, que havia ficado atrofiada por uma década.
Em 2020, um novo capítulo de superação: graças a uma luva biônica desenvolvida pelo designer Ubiratan Costa, o maestro voltou a tocar com as duas mãos durante as comemorações do aniversário de São Paulo. Em 2025, revelou estar com câncer de próstata.
A história de João Carlos Martins chegou ao cinema e à televisão. Em 2017, o filme ?João, o Maestro?, dirigido por Mauro Lima, dramatizou sua vida em três fases, com interpretações de Davi Campolongo, Rodrigo Pandolfo e Alexandre Nero.