Por Flipar
Hoje, a área degradada associada à desertificação chega a cerca de 805 km², atingindo não apenas Gilbués, mas também municípios vizinhos. Apesar da paisagem árida e do aspecto semelhante ao de um deserto, trata-se de um processo de perda de produtividade do solo, e não de um deserto propriamente dito. A situação afeta a economia local, baseada na agricultura e na pecuária, e representa um dos casos mais críticos de degradação ambiental no país.
Segundo uma pesquisa feita pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), o processo de desertificação na cidade iniciou entre as décadas de 1940 e 1950, e foi impulsionado principalmente por práticas como mineração e agropecuária (base econômica da cidade).
Outro estudo sobre o tema, publicado pelo historiador Dalton Macambira, da Universidade Federal do Piauí, diz que a área afetada pela desertificação mais que dobrou, de 387 para 805 km² de 1976 a 2019, prejudicando cerca de 500 famílias.
Além da ação do homem, como o crescimento indiscriminado, este processo também tem como “culpados” fatores da natureza como o aquecimento global e a erosão do solo frágil.
Por conta do aquecimento global, as temperaturas em Gilbués devem aumentar ainda mais. Segundo um estudo do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, a temperatura deve subir até 2,5 graus celsius.
Gilbués apresenta altas temperaturas ao longo do ano, com períodos em que os termômetros frequentemente superam os 35 °C. Apesar de registros pontuais de calor extremo no passado, o padrão climático atual indica calor intenso e prolongado, típico do semiárido.
Segundo especialistas, a tendência é de agravamento do cenário, com possibilidade de redução das chuvas entre 10% e 20% no semiárido ao longo das próximas décadas. Esse cenário pode intensificar os processos de desertificação em áreas já vulneráveis, como a região de Gilbués.
Cidades de clima árido, semiárido e subúmido seco são mais propensas a sofrer com o processo de desertificação. Além do clima local, a ação humana também atrapalha.
Segundo as Nações Unidas, a desertificação é um problema global que afeta cerca de 500 milhões de pessoas e contribui para o aumento da pobreza e de conflitos em regiões vulneráveis.
O Instituto Nacional do Semiárido (Insa), ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, alerta que mais de 1,3 milhão de km² no Brasil são suscetíveis à desertificação, especialmente no semiárido. Estudos indicam que cerca de 15% do território nacional já apresenta algum nível de degradação do solo associado a esse processo.
Além do deserto, Gilbués enfrenta outros desafios socioeconômicos, como a falta de infraestrutura, a necessidade de investimentos em educação e saúde, e a migração de sua população para centros urbanos maiores.
Historicamente, Gilbués já foi cenário de exploração de diamantes ao longo do século XX e passou por diferentes ciclos econômicos, incluindo atividades agrícolas. Nas últimas décadas, a região tem visto a expansão do cultivo de grãos, como a soja, acompanhando o avanço da fronteira agrícola no sul do Piauí.