A história de Nicósia, cidade do Chipre que é a ‘última capital dividida do mundo’

Por Flipar

A origem da cidade remonta à Antiguidade. Nos registros arqueológicos, ela aparece como Ledra, um pequeno reino-estado estabelecido por volta do século 11 a.C. Sua posição estratégica no interior da ilha, distante do litoral vulnerável a ataques, favoreceu seu crescimento como centro administrativo. 
Hansueli Krapf/Wikimedia Commons
Durante o período do Império Bizantino, consolidou-se como núcleo político e religioso relevante. Mais tarde, sob a dinastia franca dos Lusignan, entre os séculos 12 e 15, Nicósia floresceu como capital do reino cruzado de Chipre, recebendo influências arquitetônicas góticas ainda visíveis em antigas catedrais transformadas em mesquitas. 
Domínio Público/Wikimedia Commons
Com a chegada da República de Veneza no século 16, a cidade foi fortificada com muralhas circulares monumentais, projetadas para resistir a invasões otomanas. Essas muralhas, com 11 bastiões em formato de estrela e três portas principais, continuam praticamente intactas e delimitam o centro histórico.
Reprodução do Flickr Gianni Distefano
Em 1570, a ilha foi conquistada pelo Império Otomano, inaugurando um período de mais de três séculos de domínio turco-otomano. Mesquitas, banhos públicos e caravançarás passaram a integrar a paisagem urbana, enquanto igrejas católicas foram convertidas para o culto islâmico.
Reprodução do Youtube Travel HDefinition
No final do século 19, o controle da ilha foi transferido ao Reino Unido, que administrou Chipre até 1960. A independência trouxe a formação de um Estado bicomunitário, reunindo cipriotas gregos e turcos sob uma constituição complexa que previa partilha de poder. No entanto, tensões étnicas e políticas se intensificaram ao longo da década de 1960, culminando na intervenção militar turca em 1974. O resultado foi a divisão territorial da ilha e a consolidação da Linha Verde em Nicósia.
Orhanozkilic/Wikimedia Commons
Apesar da separação, a capital mantém intensa vida cultural e institucional. No lado sul, concentram-se órgãos governamentais, universidades e museus nacionais, como o Museu do Chipre, que abriga um vasto acervo arqueológico cobrindo desde o período neolítico até a era romana. O centro histórico preserva ruas estreitas e bairros restaurados como Laiki Geitonia, onde cafés, tavernas e lojas de artesanato evocam tradições mediterrâneas.
A.Savin/Wikimedia Commons
No lado norte, mesquitas históricas como a antiga Catedral de Santa Sofia, atual Mesquita Selimiye, testemunham a herança islâmica e medieval da cidade. Mercados populares e hotéis restaurados mantêm viva a atmosfera oriental.<
A.Savin/Wikimedia Commons
A travessia entre as duas partes tornou-se mais acessível a partir de 2003, quando alguns postos de controle foram abertos, especialmente na movimentada Rua Ledra. Desde então, moradores e turistas podem circular mediante a apresentação de documentos, o que trouxe nova dinâmica social e econômica ao centro urbano.
CyprusPictures /Wikimedia Commons
Ainda assim, a presença da zona desmilitarizada é visível: edifícios abandonados, casas vazias e trechos interditados compõem um cenário que lembra a permanência do impasse político. Em certos pontos elevados, é possível observar torres de vigilância e bandeiras que simbolizam as diferentes administrações.
Reprodução do Flickr Gianni Distefano
Nicósia é uma capital singular não apenas por sua divisão geopolítica, mas pela densidade histórica acumulada em suas ruas muradas. A convivência de igrejas góticas, mesquitas otomanas, edifícios coloniais britânicos e construções modernas sintetiza camadas sucessivas de dominação, resistência e adaptação. 
Reprodução do Youtube Travel HDefinition

Veja mais Top Stories