O gesso é um material moldável que endurece rapidamente e permite preservar detalhes. Na Roma Antiga, era usado para revestir paredes e também em práticas funerárias. Assim, o mesmo material empregado nas construções podia ajudar a preservar a memória dos mortos.
Projeto Seeing the Dead/Universidade de York e York Museums Trust
Nas casas e templos romanos, o gesso era usado como acabamento e como base para pinturas. Sua presença frequente nas construções mostra como o material fazia parte do cotidiano. Essa disponibilidade também favoreceu seu emprego em práticas funerárias.
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Ao endurecer, o gesso podia registrar tecidos, ornamentos e até a posição do corpo. Nos sepultamentos, funcionava como uma espécie de cápsula de memória. Essa capacidade de preservação associava o material às ideias de cuidado e permanência.
Headland Archaeology/Reprodução
Em alguns sepultamentos romanos, o corpo era colocado em um caixão ou sarcófago e envolvido por gesso líquido. Ao endurecer, o material formava uma camada ao redor dos restos mortais. A prática era incomum e pode estar relacionada a rituais funerários de grupos com certos recursos ou status.
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Por muito tempo, acreditou-se que apenas adultos de elite eram sepultados em gesso. Contudo, novas análises revelaram crianças e bebês envolvidos nesse ritual. O gesso, portanto, não era apenas símbolo de poder, mas também de vínculo emocional.
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Três bebês com menos de quatro meses foram encontrados em sepultamentos desse tipo. O uso do gesso para recém-nascidos mostra que o material servia para expressar luto e amor, mesmo quando a lei não reconhecia oficialmente o velório infantil.
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Com taxas de mortalidade próximas a 30%, muitos acreditavam que os romanos eram indiferentes à perda. Porém, o gesso nos sepultamentos infantis revela outra realidade: famílias buscavam preservar a memória dos filhos, apesar da fragilidade da vida.
Divulgação/ Universidade de York
Um recém-nascido em York, por exemplo, foi envolto em lã roxa com fios de ouro e coberto com gesso. O material preservou até as marcas do tecido luxuoso. Esse caso mostra como o gesso registrava não apenas o corpo, mas também símbolos de prestígio e afeto.
rto com gesso - Uma viagem pelo gesso e suas utilidades - Projeto Seeing the Dead/Universidade de York e York Museums Trust
Em outro sepultamento, um bebê foi enterrado entre dois adultos, todos envolvidos em gesso, em uma posição que sugere vínculo. O material eternizou não apenas os corpos, mas também a relação entre eles.
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Pesquisadores analisam se o gesso continha incenso ou mástique, além de pigmentos como o púrpura do molusco murex. Esses elementos reforçam que o gesso não era neutro: carregava aromas e cores que intensificavam o ritual.
Divulgação
Crianças mais velhas também foram relatadas. Uma menina de 7 a 9 anos foi sepultada com joias e calçados, envolta em gesso. Ossos de uma ave, talvez um animal de estimação, também estavam presentes. O material preservou esse universo afetivo, revelando cuidado e memória.
Divulgação/ Museu de York
Havia um claro contraste com a lei. Afinal, textos jurídicos romanos proibiam velórios para crianças com menos de um ano. No entanto, o gesso nos sepultamentos infantis mostra que as famílias ignoravam tais normas. O luto privado se sobrepunha às regras públicas.
Art Muse LA
Mais que um material técnico, o gesso era mediador entre vida e morte. Ele registrava corpos e objetos, funcionando como testemunha silenciosa da dor e do cuidado. Sua função transcendia o uso cotidiano.
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Assim como em paredes revestidas de tinta, o gesso guardava imagens. Nos sepultamentos, guardava lembranças. Essa dupla função reforça sua importância cultural: tanto na arte quanto no luto, o gesso era veículo de permanência.
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Os achados de York corrigem a ideia de que os romanos não valorizavam seus filhos. O gesso nos sepultamentos mostra que bebês eram amados e lamentados, mesmo em uma sociedade marcada pela alta mortalidade.
Reprodução do Yotube Canal Universidade de York
Segundo Maureen Carroll, os textos jurídicos refletem apenas a visão da elite masculina. Já o gesso nos sepultamentos revela a realidade das famílias, onde o luto era vivido intensamente. O material dá voz ao silêncio das crianças.
Reprodução do Youtube Canal Michigan Law
Os sepultamentos em gesso de York mostram que o sofrimento das famílias romanas não era diferente do que vemos hoje. O gesso, ao preservar corpos e memórias, revela que até os mais pequenos eram profundamente valorizados. Assim, a arqueologia reescreve a história do afeto na Roma antiga.
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