Cochilou, cachimbo cai

O produto inovador não vem do acaso. Ele precisa de incentivos e de motivações internas ou externas. O acaso é muito menos acidental do que a literatura romântica faz parecer

Por diana.dantas

Não me incomodaria se Art Fry fosse meu avô. Com 83 anos de idade, ele é lépido e fagueiro, bem humorado, espertíssimo. Talvez você nunca tenha ouvido falar dele, mas certamente abusou, abusa e continuará abusando de sua invenção mais famosa, o Post-It, essa maravilhosa praga de que nunca vamos desgrudar.

Enquanto a 3M continua faturando horrores com a criação de seu veterano pesquisador, tanto que nem divulga números a respeito, o bom velhinho tornou-se evangelizador das boas ideias. E tem muito a nos ensinar.
 
Há uns poucos dias, Art Fry esteve com um grupo de executivos brasileiros convidados pela 3M a conhecer sua sede, nos EUA, com apoio do grupo Lide Inovação. E eu me meti no meio da conversa. Num mundo acelerado e competitivo, em que precisamos inovar a cada hora, eis aqui alguns pontos a serem pensados como urgência.

Art Fry levou à mesa, entre outros temas, uma discussão sobre o que faz as empresas e os sistemas não darem certo. Ressaltou algo bem importante: você não pode tomar boas decisões a respeito de um mercado que não conhece a fundo. Você não vai crescer, nem saberá inovar, se não entender o que está gerenciando. Saber tudo sobre bananas não é o mesmo que saber tudo sobre maçãs. Vale sempre ter em mente esse ponto, como se fosse um mantra: ‘Não vou me meter no que não conheço’. Ou, ao menos, não tente inventar.

E há o outro lado da moeda. Existem as empresas líderes em seus segmentos que, estando no alto, acabam se acomodando, acreditando que já são o ó do borogodó e não têm como melhorar. Assim, disse Fry, elas podem até estar no caminho certo, o problema é que estão sentadas, em vez de correr atrás.

Achar que nunca vai cair da liderança é um grande erro. Como digo com frequência, nem sempre o que a gente “acha” tem a ver com a realidade. Acomodar-se é o maior crime de quem está no alto. Como se sabe há milênios, se você cochilar, o cachimbo cai.

Art Fry também deixou claro que a pressão pelo aumento de lucros e de produtividade, por si só, não deixa margem para a aplicação de tempo, de dinheiro ou de outros recursos à prática da inovação. As empresas de tecnologia — assim como qualquer grupo multiplataforma, aliás — têm que levar isso em consideração permanentemente. A responsabilidade aumenta à medida que somos líderes — ou competidores — em segmentos diferentes.

A propósito, Fry nos lembra que somos seres simbióticos, ou seja, precisamos tanto do planeta, que está indo para as cucuias, quanto precisamos uns dos outros. Eis uma questão que tem a ver com ética, assunto nem sempre lembrado nas discussões sobre gerenciamento de sistemas e equipes. Ponto para o Fry.

São com esses princípios claros na cabeça que, de acordo com o engenheiro químico da 3M, um sujeito deve começar a pensar em inovação. Até porque, sem isso, nada feito. É altíssima a taxa de mortalidade das boas ideias, como sabemos. Elas vão morrendo nas diversas etapas pelas quais vão passando. 

Entre a concepção e a execução de uma ideia, rola muita água.Temos o momento aparentemente divino da criação, que é quando surge a ideia para um produto ou processo, como diz o Fry.
Mas essa iluminação não é o suficiente. A invenção vem em seguida — e aí já começa a dar trabalho, desestimulando muita gente. A ideia tem que sair da cabeça e virar uma realidade.
Só então podemos pensar em inovação. E é aí que está o busílis. “Falamos em inovação quando as pessoas adotam novos padrões e passam a usar um novo produto”, diz Art Fry.

Padrões. Vivemos cercados deles, a começar pelo DNA, e romper essas amarras faz parte do sucesso das inovações. Como rompê-las?

Já comentei aqui, e volto a sublinhar, que as empresas preocupadas em inovar (e qual não está?) poderiam fazer com suas equipes o mesmo que fazem Google e 3M, entre outras. Elas incentivam que seus funcionários dediquem pelo menos 15% do seu tempo a projetos pessoais — daqueles que, evidentemente, possam beneficiar a empresa.

Esse tempo livre pode não ser exatamente útil, mas gerou inúmeros produtos na Google (a rede social Orkut, por exemplo) e na 3M (o próprio PostIt).

O que é importante nesse jogo é que o sujeito esteja antenado. Curiosidade, tenacidade, know-how, recursos: eis alguns dos elementos que vão fazê-lo perceber novas oportunidades.

Foi numa “janela” dessas que o Post-It foi criado. Art Fry precisava dar um jeito de deixar pequenas anotações presas aos livros de partituras de sua igreja, sem danificar as páginas quando tivesse que retirá-las. Sabia que o parceiro Spencer Silver, também da 3M, tinha desenvolvido uma cola que talvez servisse para isso. Detalhe: o tal adesivo tinha sido criado havia cerca de dez anos e estava lá, encostado. Vamos resumir dizendo que, entre testes e testes, os dois chegaram ao produto final.

Antes do sucesso estrondoso, porém, os dois passar por muitas tentativas fracassadas e, mesmo depois de o produto estar pronto, Art Fry teve que aturar a gozação — ou a incredulidade — não só de alguns pares, como também de alguns escalões superiores. Mas ele sabia que estava no caminho certo, e deu no que deu.

Como Art Fry resume aquele período? Com bom humor, claro: “Você tem que beijar muitos sapos até que finalmente apareça o príncipe encantado”, ensina.

Brincadeiras à parte, certo é que o produto inovador não vem do acaso. Precisa de incentivos e de motivações internas ou externas. O acaso é muito menos acidental do que a literatura romântica faz parecer.

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Acabei de reler esta coluninha e, com certo horror, calculo que não, não teria como o Art Fry ser meu avô. A não ser que ele tivesse sido demasiadamente precoce... O tempo voa, cruz credo.

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