Clementina de Jesus (1901-1987) - Divulgação
Clementina de Jesus (1901-1987)Divulgação
Por Sergio Gustavo
Para celebrar o Dia Nacional do Samba, o jornal O DIA destaca Clementina de Jesus (1901-1987), cuja história se confunde à própria emersão do gênero oriundo dos tambores percutidos por homens e mulheres trazidos da África e escravizados no Brasil. O pai da cantora era descendente banto, o grupo etnolinguístico que deu origem aos primeiros africanos que chegaram ao país.
Ainda menina, Clementina ouvia a mãe entoar cânticos ancestrais enquanto lavava roupa à beira do córrego da cidade em que nasceu, Valença. “A roupa batia na prancha, marcando o passo do canto, espirrando água e sabão na minha cara. E eu acocorada, cantando baixinho, pra aprender com a mãe”, recordou a cantora, que era uma mulúnduri, herdeira que retransmite a cultura de matriz africana. O pai, construtor e violeiro, também foi importante em sua formação musical. "Tina gostava de acompanhá-lo na cantoria de modinhas, jongos e cantos de trabalho, reforçando a presença de valores religiosos africanos mesclados à fé católica nos alicerces da família”, registra a biografia A Voz da Cor, que fixa o nascimento da cantora no dia 7 de fevereiro de 1901.

A família mudou para a cidade do Rio em 1908, período de relevante expansão na capital. Com a República recém-instalada, estados e municípios tinham obrigação de oferecer ensino primário às camadas pobres da população, mas a verdade é que apenas 29 a cada mil crianças tinham acesso à educação - Clementina estava nessa minoria. “Alfabetizou-se e conseguiu acesso a uma cultura tão inacessível quanto distante dos negros e pobres daquela época”, destacam os biógrafos Janaína Marquesini, Felipe Castro, Luana Costa e Raquel Munhoz. Quando a mãe passou a trabalhar como doméstica, Clementina entrou em regime de semi-internato, teve aulas de canto e entrou para o coro do orfanato Santo Antônio. Nessa época surge o apelido Quelé, dado por um barbeiro espanhol que adorava ouvi-la cantar. Apesar de provavelmente desconhecer a origem banto do apelido, ele acabou devolvendo à jovem a forma original de seu nome. Conforme explica o historiador Jacques Raymundo, palavras africanas passaram por alterações fonéticas (mulatização), inclusive nomes próprios. No caso de Clementina, a forma original era Quelementina.
Publicidade
Ao mudar-se para a Zona Norte, Quelé conheceu sambistas de Oswaldo Cruz e frequentou reuniões na casa de Tia Ciata, local fundamental para a consolidação do samba e onde teria surgido a primeira música do gênero gravada no país (Pelo Telefone, lançada por Donga em 1916), mas cuja autoria ainda é objeto de controvérsias. Clementina trabalhou grande parte da vida como doméstica, apresentando-se como cantora amadora na Taberna da Glória. Somente aos 63 anos, após ser ouvida por Hermínio Bello de Carvalho, sua carreira deslancharia. O poeta promoveu um jantar em seu apartamento e decidiu fazer uma gravação caseira de Quelé, que jamais havia visto um gravador. “Ao ouvir a própria voz reproduzida pela primeira vez, Clementina virou criança novamente: batia palma, ensandecida, olhava para o marido Pé Grande, que fazia a base rítmica com a mão, e dizia repetidas vezes: Olha, Pé, sou eu!”, relata a biografia A Voz da Cor.

Clementina deixa o trabalho de doméstica em 1964 e estreia profissionalmente no espetáculo produzido por Hermínio, dividindo o palco com artistas como Turíbio Santos. No ano seguinte estreia novo show, ao lado de Araci de Almeida, Paulinho da Viola e Elton Medeiros. A primeira viagem internacional aconteceu em 1966, quando Quelé representou o Brasil no I Festival de Artes Negras de Dacar, no Senegal. Em seguida foi convidada para o Festival de Cannes, na França. “Recebida como uma rainha, com batedores”, relatou Mario Borges, chefe da comitiva.

Premiada e homenageada, Clementina praticamente vivia apenas da aposentadoria do INPS nos últimos anos de vida. Em 1985, amigos como Luiz Melodia e Dona Zica estrelaram show beneficente cuja arrecadação foi suficiente para quitação de dívidas. Naquele mesmo ano, a cantora foi homenageada com a Comenda da Ordem dos Artistas do Ministério da Cultura da França, ao lado de Caetano Veloso e Tom Jobim. Em junho de 1987, após sofrer seu quinto derrame, Quelé foi internada na UTI da Casa de Saúde de Bonsucesso, com despesas pagas pela Sociedade dos Intérpretes e Produtores Fonográficos. Após dias em coma, morreu em 19 de dezembro. No ano seguinte, a Vila Isabel venceu o Carnaval do Rio com “Kizomba, Festa da Raça”, cujo samba-enredo cita Clementina. As homenagens seguem até hoje: Clementina virou peça de teatro em 1994, interpretada por Ruth de Souza; ganhou documentários em 2011 (de Wertinon Kermes) e 2018 (de Ana Rieper); três biografias e é objeto de inúmeros trabalhos acadêmicos por sua relevância para a cultura brasileira.