Cesário Melantonio Neto
Cesário Melantonio NetoDivulgação
Por Cesário Melantonio Neto
A necropolítica pode ser considerada um crime contra a humanidade e interpretada como um sinal de isolamento político do Brasil desgastando ainda mais a nossa combalida imagem internacional. Autoridades que fizeram campanhas de desinformação podem ser processadas e levadas à Justiça.
A recuperação do prestígio brasileiro afigura-se difícil, mas não impossível com uma revisão da atividade diplomática nos próximos 20 meses. Os ataques repetidos contra a China, Rússia, Estados Unidos, União Europeia, Mercosul e organismos internacionais danificam as parcerias bilaterais e multilaterais.
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O fornecimento de insumos para a fabricação de vacinas no Brasil depende de um bom relacionamento internacional. Os produtos chineses, por exemplo, representam 95% do total recebido pelo Brasil e são suficientes para cobrir 60% dos grupos de prioridade na fase emergencial.
A hipocrisia, a arrogância, e a ignorância são todas conselheiras nefastas e, como diria Heródoto, podem cegar o entendimento e levar os homens para sua própria ruína. Esses defeitos nos governantes produzem um processo de falhas sistêmicas que, somadas à mentira e desconhecimento dos temas, inviabilizam os esforços diplomáticos e ferem os mais altos interesses nacionais.
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Em 2022, o Brasil estará com desemprego alto, inflação elevada e sério problema fiscal exigindo uma melhor relação com os nossos principais parceiros em vez de agressões diárias. Países, como a França, pressionam a União Europeia para não concluir o acordo com o Mercosul, em razão do desmatamento na Amazônia e no Pantanal.
A rejeição às críticas feitas ao Brasil pela devastação florestal impede a melhoria da cooperação internacional. Só uma mudança radical nesse discurso negacionista pode melhorar as relações com a comunidade global.
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A solidariedade entre os povos sempre foi base da nossa lição diplomática e pode ser revivida a exemplo da colaboração entre a China e a Índia. Em outubro último, o Brasil se indispôs com a Índia ao votar contra a quebra das patentes para as vacinas dentro do grupo do Brics. A proposta foi apresentada pela África do Sul e pela Índia. Nesse caso, fizemos oposição aos países que mais fabricam vacinas para apoiar os contratos das farmacêuticas privadas que receberam grande volume de recursos públicos para desenvolver as vacinas nos Estados Unidos e na Europa.
A dimensão Brics da política externa brasileira sempre foi positiva para a defesa dos interesses nacionais. E antagonismo com a África do Sul, Índia, China e Rússia parecem um contrassenso para país fundador e fomentador do Brics como o Brasil.
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Em represália ao Brasil, a Índia atrasou as entregas dando prioridade à vacinação interna e ao fornecimento a países vizinhos. Recentemente, tivemos problemas na área do combate à pandemia, igualmente com a China e a Rússia. Quem sabe recuperar o protagonismo perdido no Brics não corresponde aos melhores interesses brasileiros?
A pandemia pode ser um motivo para resgatar essa antiga política com os membros do grupo, uma vez que a Índia suspendeu a venda de vacina em meados de abril último, com a explosão da doença no país. Declarações desastrosas como "a China inventou o vírus e agora quer tirar partido com a venda de insumos e equipamentos" só contribuem para acirrar os ânimos com os nossos importantes parceiros Brics.
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De nada adiantarão os esforços do Itamaraty se outras autoridades persistirem com grosserias em relação aos maiores parceiros do Brasil como os Estados Unidos, Europa e Brics. O titular da Economia não pode ignorar a contribuição dos chineses na pauta de exportações, nos investimentos, e na cooperação tecnológica.
A volta da diplomacia, do "soft power" no Itamaraty pode ser insuficiente para mudar a imagem negativa, caso outras autoridades sabotem esses esforços para a recuperação da credibilidade e respeitabilidade internacionais.
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As políticas de favorecimento da expansão ilegal da agropecuária em detrimento da conservação florestal devem parar, já que quatro milhões de hectares foram perdidos, ou seja, 30% a mais do que em 2015, e quase quatro vezes mais do que em 2017 e 2018.
A destruição do patrimônio ambiental brasileiro é um crime de lesa-pátria. O governo enfraqueceu a proteção à Amazônia e ao Pantanal como prioridade política. Os insultos repetidos a tantos países detonam os esforços de pacificação empreendidos pelo Itamaraty e afetam negativamente os esforços da diplomacia brasileira na área da Saúde.
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No momento em que o Itamaraty se recupera lentamente de um processo de devastação sistêmica a diplomacia da Saúde pode ajudar a resgatar a honorabilidade perdida.