Por paulo.gomes
Rio - No mundo escondido dentro dos abrigos para moradores de rua da prefeitura do Rio, além dos dramas de quem se entregou às drogas lícitas e ilícitas, que são 85% deles, chama a atenção a quantidade de pessoas com problemas psiquiátricos. Esses abrigados têm poucas possibilidades de deixar os abrigos. A maioria não tem família ou nem lembra onde os parentes estão. O problema surgiu há cerca de 15 anos, com o fechamento dos hospitais psiquiátricos e gera uma polêmica entre a Secretaria de Desenvolvimento Social (SMDS), que administra os abrigos, e a área da Saúde.
A maioria dos pacientes psiquiátricos que vivem em abrigos da prefeitura não possui família ou desconhece o paradeiro delesDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

No Abrigo Plínio Marcos, em frente à Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, os doentes mentais são 50% dos abrigados e, no Centro de Acolhimento Aldaíza Spozati, em Realengo, superam esse percentual, são 52 de 86 moradores. A SMDS não tem o percentual de pessoas com transtornos mentais na rede toda, mas reconhece que é alto.

“É preciso provocar um debate sobre esse problema com a área da Saúde. Afinal, com o fim da internação manicomial, essas pessoas foram deixadas aos cuidados da Assistência Social. Em geral, elas não têm família nem condições de viver nas ruas, o que seria uma covardia do poder público e da sociedade. O que será feito delas?”, questiona o vice-prefeito do Rio e secretário de Desenvolvimento Social, Adilson Pires.

Para a psiquiatra Fátima Vasconcelos, da Associação Brasileira de Psiquiatria, a questão é a falta de atendimento. “Acabaram com os hospitais psiquiátricos por decreto e eu ficaria muito feliz se pudessem acabar com a doença por decreto. O destino dessas pessoas é, muitas vezes, a rua, e grande parte deles, como os esquizofrênicos ou bipolares graves, não tem sequer condições de se defender dos perigos da rua”, critica a médica.

Roberval%2C carinhoso e querido%2C com a funcionária do abrigo Maria IsabelDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

X., que não quis se identificar, está no Plínio Marcos. Entre um remédio e outro, ele até poderia falar da vida que leva, mas prefere calar sobre o passado e o presente. “A mãe dele morreu e ele ficou ao lado do corpo dela, sem saber o que fazer durante uma semana, até que o encontraram”, conta a diretora do abrigo, Adriana Veríssimo. A polícia ainda desconfiou, na época, de X., por causa do histórico dele de doente mental, mas a necropsia provou que a mulher morrera do coração. “Como ele não tinha mais ninguém na vida, foi parar nas ruas e depois, conosco”, lembra Adriana.

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Carlos Emílio tem 30 anos e sempre viveu em abrigos. Ele faz questão de posar para fotografias: “Fiquei parecido com o Frank Sinatra, não foi?”, pergunta empolgado. Anderson Lima, de 35, parece uma criança. Emburrado nos primeiros momentos em que a equipe do DIA visitava a unidade, ao ver a câmera fotográfica, começou a fazer poses e abriu um largo sorriso que ficou ainda mais radiante quando ele viu suas próprias imagens na câmera.

Milton não quis contar o sobrenome para não desviar a atenção que dava à televisão. Enquanto olhava para a tela, que exibia um filme antigo, as mãos de Milton não paravam de se movimentar, de forma frenética, como se ele estivesse jogando um videogame. Já Roberval foi parar no abrigo depois de ser jogado nas ruas após cumprir pena em um manicômio judiciário. É um dos mais queridos pela direção, que afirma que ele é inofensivo e carinhoso.

Sem recuperação

“O que fazemos é uma vez por semana levá-los a uma unidade de saúde para que sejam receitados os remédios que eles precisam”, conta o vice-prefeito Adilson Pires, que acha mais adequado que os pacientes tivessem atendimento médico em tempo integral, em unidades de saúde. “Há internos que completaram cinco, seis anos, sem esperança de recuperação. E a área da Saúde não aceita essa discussão”, critica Pires.

Anderson%2C mostrando a foto em que ele aparece na parede do corredorDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

O presidente do Sindicato dos Médicos, Jorge Darze, rebateu as críticas do vice-prefeito Adilson Pires sobre a atuação dos profissionais de saúde. “É muito fácil apontar culpados, mas a autoridade, o vice-prefeito, deveria saber que ele faz parte de um governo municipal, ou seja, integra o poder público e, se essas pessoas estão sem a assistência devida, ele também é responsável. A Constituição determina que saúde é direito do cidadão e dever do estado, e entenda-se por estado União, estados e municípios”, respondeu Darze.

Para ele, não há consenso sobre a existência ou não dos manicômios. “Uma parcela dos psiquiatras defende a existência deles, outra não, muito por causa do modelo que existia, que tratava o doente como um prisioneiro e não recuperava ninguém. Era como uma prisão e isso, certamente, ninguém quer que volte”.
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Para Fátima Vasconcelos, é necessário que se reveja a estratégia. “Queremos hospitais psiquiátricos de qualidade”, afirmou a representante da Associação Brasileira de Psiquiatria. “Há um quadro de desassistência em todas as áreas da saúde pública e, na questão da saúde psiquiátrica, não existem mais leitos, fecharam todos em uma canetada”, afirma Rosa.
O Ministério da Saúde afirmou, em nota, que a Política Nacional de Saúde Mental tem por objetivo consolidar um modelo de atenção à saúde mental aberto e de base comunitária. Segundo o comunicado, o governo federal impulsionou a construção de um modelo humanizado, mudando o foco da hospitalização como única possibilidade de tratamento às pessoas com transtornos mentais e decorrentes do uso de álcool e drogas para um modelo de cuidados voltados para a reinserção social, a reabilitação e a promoção de direitos humanos.