Opinião

João Batista Damasceno: Mito, judeu pobre e holocausto

Por causa deles não se admite soberania nacional ilimitada capaz de negar os direitos mínimos de toda pessoa humana ou grupos minoritários

Rio - A palestra na Hebraica de deputado cuja atuação expressa a incivilidade e a negação dos valores que nos caracterizam como humanos nos remeteu ao que foi feito com os judeus no nazismo.

Que aqueles que patrocinaram o genocídio dos indígenas e dos quilombolas tenham o deputado como mito é compatível com suas crenças intolerantes e seus interesses. Mas o que dizer de um povo cuja perseguição no nazismo será marcada na humanidade como evento que não pode se repetir e que mudou o parâmetro pelo qual se legitimam as atuações dos Estados Nacionais?

Por causa deles não se admite soberania nacional ilimitada capaz de negar os direitos mínimos de toda pessoa humana ou grupos minoritários. A maioria já não pode tudo.

O deputado apregoa que “bandido bom é bandido morto”. E mesmo quando o Estado mata quem não é bandido a história da pessoa é falsificada para justificar o homicídio.

Foi assim com Amarildo. Muitas mães que têm seus filhos mortos buscam na Justiça não a punição dos agentes do Estado que os assassinaram, mas declaração de que seus filhos não tinham envolvimento com crime. Isto porque depois de matar a pessoa a corja desumana mata a dignidade da vítima.

A tortura, a morte e o desaparecimento de Amarildo coincidiu com a colocação numa sala do Tribunal de Justiça de um quadro, do cartunista Carlos Latuff, com um homem negro crucificado e assassinado por um agente do Estado. O filho do “deputado hebraico” pediu à presidenta do TJ abertura de procedimento disciplinar contra o juiz.

Ela, também filha de policial cuja ficha funcional desconhecemos, atendeu prontamente. Karl Marx, que era judeu, escreveu sobre a questão judaica. Para ele, seu povo não deveria buscar apenas sua libertação, em prejuízo de outros povos.

Sob o nazismo, os perseguidos foram os judeus pobres, socialistas e comunistas. Judeus ricos chegaram a obter, por meio de pagamento, certificado de “raça pura” e tratados como arianos. O genocídio foi contra os pobres.

No nazismo, o Estado matava judeus pobres e não relacionados. No Brasil matam-se negros pobres não relacionados. Por isso, judeus de classe média, que se acreditam dominantes, são alheios às suas dores e aclamam como mito quem prega a exclusão.

João Batista Damasceno é doutor em Ciência Política e juiz de Direito

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