Tubarão na baía da Ilha GrandeDivulgação/Reprodução Rede Social
Publicado 19/08/2026 11:37
Ilha Grande – A Baía da Ilha Grande, em Angra dos Reis, na Costa Verde, vem ganhando destaque nacional nas pesquisas sobre tubarões. O que há anos atrás era considerado um ambiente ainda pouco estudado para grandes predadores marinhos, tornou-se um importante laboratório natural do Atlântico Sul, reunindo registros inéditos e um dos maiores programas de monitoramento da espécie no Sudeste brasileiro.
As pesquisas são conduzidas pelo Instituto PROSHARK, primeira instituição brasileira dedicada exclusivamente ao estudo de tubarões e arraias. Os trabalhos indicam a presença constante de tubarões-galha-preta e tubarões-tigre na região e apontam que a baía exerce papel importante para alimentação, reprodução, deslocamento e permanência desses animais.
Entre as descobertas estão registros de grandes agregações. Imagens feitas recentemente por drones vêm ganhando as redes sociais e identificam aproximadamente 200 tubarões-galha-preta reunidos em uma única área da Baía da Ilha Grande. Também foi registrada uma grande concentração de tubarões-tigre em águas brasileiras, além de “Big Mama”, considerada pelo instituto o maior tubarão-tigre já registrado por drones no país, com mais de 4,5 metros de comprimento e indícios de gestação.
O monitoramento utiliza tecnologias como telemetria satelital e acústica, drones, acompanhamento ambiental e ciência cidadã. Os equipamentos instalados nos animais permitem acompanhar seus deslocamentos e identificar áreas utilizadas para alimentação, reprodução, permanência e migração.
A trajetória mais recente começou em julho de 2025, com Beth, primeira fêmea de tubarão-galha-preta monitorada via satélite pelo programa. Em agosto do mesmo ano, Aurora também passou a ser acompanhada.
Em janeiro de 2026, Gaspar e Baltazar se tornaram os primeiros tubarões-tigre do Sudeste monitorados simultaneamente por telemetria satelital e acústica. Em maio, foi a vez de Belchior. Já em julho, duas novas marcações ampliaram o conhecimento sobre as espécies. Os nomes referem-se ao monumento da Praia do Anil, em homenagem a data de aniversário e história da fundação da cidade (6 de janeiro).
Caiçara, uma fêmea de tubarão-tigre de 2,40 metros, tornou-se a primeira fêmea da espécie monitorada por telemetria satelital no Sudeste brasileiro. No mesmo dia, Badjeca, uma fêmea de tubarão-galha-preta de aproximadamente 2,30 metros e possivelmente grávida, também recebeu o equipamento de monitoramento.
Os nomes escolhidos para os animais também fazem referência à cultura local.
Caiçara homenageia as comunidades tradicionais que colaboraram com os pesquisadores na identificação das áreas frequentadas pelos tubarões. Badjeca, por sua vez, presta homenagem à cultura tradicional da Ilha Grande.
Registros encontrados em sambaquis indicam que os tubarões já faziam parte do ecossistema da região há muito tempo. Estudos também identificaram fêmeas grávidas de diferentes espécies utilizando a Baía da Ilha Grande e a Baía de Sepetiba, reforçando a importância dessas áreas para o ciclo reprodutivo dos animais.
O trabalho conta ainda com a participação de pescadores artesanais e moradores caiçaras. O conhecimento transmitido por gerações ajudou os pesquisadores a localizar áreas utilizadas pelos tubarões e demonstra a importância da integração entre conhecimento científico e saber tradicional.
Para Vanessa Bettcher Brito, pesquisadora do projeto Important Shark and Ray Areas (ISRA) e integrante do Grupo de Especialistas em Tubarões da Comissão de Sobrevivência de Espécies da IUCN, a proteção desses animais é uma prioridade mundial. Segundo a avaliação global da Lista Vermelha da IUCN, mais de um terço das espécies de tubarões, raias e quimeras está ameaçado de extinção, principalmente devido à pressão da pesca, à degradação dos habitats e à insuficiência de medidas de conservação.
No Brasil já foram reconhecidas 42 Áreas Importantes para Tubarões. Nesse cenário, a Baía da Ilha Grande vem conquistando espaço como uma área de relevância para a produção de conhecimento sobre essas espécies.
O Instituto PROSHARK também atua na elaboração de protocolos de convivência entre pessoas e tubarões, educação ambiental, planejamento de áreas protegidas e incentivo ao turismo sustentável. A proposta é ampliar o conhecimento sobre os animais e reduzir a desinformação que alimenta o medo em torno dos grandes predadores marinhos. A orientação para quem gosta de aproveitar as águas cristalinas da Ilha Grande, é manter sempre à distância e evitar alimentar esses animais.
Com as novas descobertas e o avanço do monitoramento, a Baía da Ilha Grande se consolida como um importante centro de pesquisa sobre tubarões no país. Os estudos mostram que conhecer e proteger esses animais também significa preservar a biodiversidade e o equilíbrio dos ecossistemas marinhos.
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