O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) não esteve presente em somente seis destas reuniões.AFP
Por ESTADÃO CONTEÚDO
Publicado 17/05/2021 22:04
O presidente Jair Bolsonaro vai enfrentar, a partir desta terça-feira, 18, a fase mais dura até agora da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, que interroga, nesta semana, dois ex-ministros que saíram do governo sob ataque: Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e Eduardo Pazuello (Saúde). Bolsonaro está preocupado com o teor dos dois depoimentos, que podem atingir sua gestão no combate da pandemia de covid-19.
O primeiro a ser ouvido, hoje, será o ex-chanceler Ernesto Araújo, que deixou o Itamaraty "atirando" no Senado. Demitido em março e abandonado pela articulação política do governo, ele acusou o núcleo do Palácio do Planalto - influenciado por militares e congressistas - de ter perdido "a alma e o ideal". Até aqui, Araújo poupou Bolsonaro e recebeu manifestações de apoio do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente com quem fazia dobradinha na política externa.
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Araújo saiu do governo sob muitas críticas, como Pazuello. Foi acusado de atrapalhar o relacionamento com países-chave, como China e Estados Unidos, por causa de posições ideológicas adotadas ao lidar com temas sensíveis aos dois governos. O ex-chanceler sempre disse, no entanto, que as vacinas hoje disponíveis no Brasil foram negociadas quando ele esteve à frente da diplomacia.
O ex-ministro das Relações Exteriores foi um dos primeiros ícones da ala ideológica e da base conservadora bolsonarista a ser convocado à CPI. Na condição de testemunha, ele não pediu habeas corpus ao Supremo Tribunal Federal para se manter em silêncio, como fez Pazuello, e traçou sua estratégia de defesa em reuniões com um advogado particular, Rafael Teixeira Martins, sem envolvimento do governo. Em tese, ele teria direito a ser representado pela Advocacia-Geral da União, como fará o ex-titular da Saúde.
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"O ex-ministro está preparado, tranquilo e à disposição para prestar os esclarecimentos à CPI, sem nenhum tipo de dificuldade, constrangimento ou óbice. Ele quer contribuir e deixar clara sua participação no processo da pandemia. Não há nada que o implique, ele é uma testemunha, não teve envolvimento no processo decisório", disse Teixeira Martins.
Pazuello, por sua vez, conseguiu aval do Supremo para ficar calado diante de perguntas que possam incriminá-lo. Aliados do governo disseram que a medida é necessária para evitar "abuso de autoridade". O habeas corpus concedido pelo ministro do STF Ricardo Lewandowski, porém, não dá a Pazuello o direito de permanecer em silêncio quando for questionado sobre Bolsonaro, por exemplo. A secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, Mayra Pinheiro, conhecida como "capitã cloroquina", também acionou o STF pedindo para ficar calada. Ela depõe na quinta-feira.
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Governistas tentarão blindar o chanceler, o general e a secretária insistindo nas investigações contra governadores e prefeitos. "Queremos convocar outros gestores. É preciso chegar onde chegou o dinheiro e saber o que foi feito com ele", afirmou Marcos Rogério (DEM-TO), membro da CPI e vice-líder do governo.
Araújo se reencontra com o Senado um mês e meio depois de passar por uma sabatina "infernal", às vésperas de sua demissão. "Nossa expectativa é obter esclarecimentos sobre a postura do Brasil na busca por vacinas e insumos no combate à pandemia. Além disso, há necessidade de esclarecer se o governo recebeu orientação ou teve sugestão da defesa de cloroquina e outras práticas medicamentosas sem nenhum tipo de eficácia científica", disse o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE).
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Na lista de perguntas que serão feitas pela CPI estão as orientações passadas a embaixadas para compra de medicamentos como a cloroquina; detalhes da missão oficial para conhecer um spray nasal em Israel; interferência dos filhos do presidente na política externa; e hostilidades em relação à China. "O Ernesto já não prezava pelos cuidados em lidar com os senadores quando era ministro, agora não sei se ele vai segurar a língua", disse o líder da Minoria, Jean-Paul Prates (PT-RN).
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