Cientista político classificou fala de Lula como "antissemita"AFP
Publicado 18/02/2024 15:48 | Atualizado 18/02/2024 17:24
O presidente-executivo da StandWithUs Brasil, André Lajst, considerou "grave" e "antissemita" a declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em que compara a ação militar israelense na Faixa de Gaza ao Holocausto. Para a instituição sem fins lucrativos de educação sobre Israel, o pronunciamento de Lula também foi ofensivo e, sobretudo, traz um erro histórico

O cientista político salientou que, de acordo com a International Holocaust Remembrance Alliance (IHRA), uma organização intergovernamental com 35 países e da qual o Brasil é um membro observador, a definição de antissemitismo contemporâneo considera que qualquer comparação deste tipo sobre a política de Israel deve ser enquadrada como tal. "Na prática, é uma frase antissemita e está colocando em cima do judeus israelenses o pior crime que foi feito contra o próprio povo", avaliou.

Segundo o cientista político, não se trata de não poder criticar Israel, ser a favor de um cessar fogo ou mesmo defender a criação de um Estado Palestino, como Lula já fez em outras ocasiões. "O que o presidente não pode é tirar o direito de Israel de se defender, ainda mais que ele não menciona os estupros, os crimes contra as mulheres e crianças e os reféns", enumerou. "Além de um erro histórico, é ofensivo", acrescentou.

Lula falou na Etiópia antes de embarcar de volta para o Brasil. Horas depois, o primeiro-ministro Israelense, Benjamin Netanyahu, reagiu à fala do petista e disse que convocaria o embaixador brasileiro no país para uma reprimenda. "É uma frase muito grave a do presidente do Brasil, que vai causar muito desconforto não só para o governo de Israel, mas para o público israelense, para as comunidade judaicas no mundo e para outros governos democráticos, que vão condenar frase do presidente brasileiro", previu, citando que espera reações dos Estados Unidos e de países da Europa.

Lajst avalia que qualquer comparação com o Holocausto deve ser feita de forma delicada. Ele acrescentou que este caso ganha ainda mais potência porque vem de um líder político que não faz declarações sobre outras guerras, como as que ocorrem na África ou no Yemen, onde, conforme o cientista político, morreram ainda mais pessoas do que no conflito na Faixa de Gaza. "É uma inversão de valores", argumentou, dizendo que a explicitação de Lula "apequena a diplomacia brasileira" e que coloca o Brasil em posição delicada. Ainda mais em um momento em que o presidente já tentou ocupar o papel de intermediador entre outros conflitos Com o episódio de hoje, de acordo com Lajst, o Brasil deixará de ser escolhido como um interlocutor.
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"Após uma série de falas desastrosas sobre Israel, que evidenciam seu profundo desconhecimento, não apenas da realidade dos fatos atuais da guerra contra o Hamas, mas também da história do conflito israelo-palestino (e, inclusive, da história do Oriente Médio), o presidente da república, Luiz Inácio Lula da Silva, ultrapassou neste domingo (18) todos os limites, atacando o Estado judeu com uma declaração infame que envergonhará o Brasil por muito tempo.

"Durante coletiva de imprensa na Etiópia, Lula comparou Israel com a Alemanha nazista, mencionando expressamente o nome de Adolf Hitler, numa grave distorção e banalização do Holocausto.

"De acordo com o presidente, 'O que está acontecendo na Faixa de Gaza e com o povo palestino não existe em nenhum outro momento histórico. Aliás, existiu quando Hitler resolveu matar judeus'. 
"Lula se refere à Solução Final, política nazista adotada após a conferência de Wansee, de 20 de janeiro de 1942, quando 15 oficiais do alto escalão do Partido Nazista e líderes do governo alemão se reuniram para tratar da "questão judaica na Europa", ou seja, discutir formas de se livrar dessa população do modo mais rápido e econômico possível.

"A 'solução' que criaram foi o extermínio sistemático, que matou ao menos 6 milhões de judeus. Essas pessoas não morreram — tal qual tantos alemães, poloneses, franceses ou ingleses não judeus — como consequência da Segunda Guerra Mundial. Não foram vítimas colaterais do enfrentamento entre os exércitos do Eixo e dos Aliados, mas de um plano deliberado de extermínio em escala industrial de civis, perpetrado pelos nazistas em todos os territórios da Europa sob o seu domínio.

"Para tanto, foram construídos guetos e campos de concentração e de extermínio. Os judeus eram caçados por toda a Europa, assassinados em florestas próximas a seus vilarejos ou transportados em trens, despojados dos seus nomes e identificados com números, classificados para o trabalho escravo ou para a morte imediata nas câmaras de gás e, no final, tendo seus corpos queimados ou jogados em valas comuns.

"Até a logística das linhas férreas foi repensada, dando prioridade ao transporte de judeus para campos de extermínio sobre a necessidade de usar os vagões para esforço de guerra, tais quais o deslocamento das tropas alemãs ou suprimento para elas. Isso porque o extermínio dos judeus era o objetivo primordial dos nazistas.

"Qualquer pessoa que tenha mínima ideia do que foi o Holocausto se dá conta de que não há absolutamente nada nele que possa ser comparado com a guerra atualmente em curso na Faixa de Gaza.

"Não existe plano de Israel para exterminar os palestinos. Uma das várias provas disso é o crescimento demográfico dessa população em Caza, na Cisjordânia e em território israelense, desde 1948. Israel enfrenta uma guerra iniciada pelo Hamas e 134 de seus cidadãos ainda estão em Gaza, sequestrados desde 7 de outubro.

"Quando 'Hiltler resolveu matar judeus', fez isso sem que eles tivessem tido qualquer atitude agressiva contra a Alemanha ou outros países ocupados pelo nazismo. Entre os homens, vários haviam feito parte do exército alemão durante a Primeira Guerra Mundial. Israel está combatendo uma organização terrorista, não um povo. A guerra é contra o Hamas, não contra os palestinos, e o objetivo dela não é matar pessoas, mas libertar os reféns e acabar com uma organização que visa o extermínio dos judeus.

"Criar falsos paralelos entre Israel e o nazismo é um dos mais vis tópicos contemporâneos do discurso antissemita no nundo inteiro, e nao e a toa: nenhuma outra comparação poderia ser mais cruel e mais ofensiva para os judeus. E por isso que a Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA), da qual o Brasil é membro, lista como um dos exemplos de manifestações antissemitas 'Efetuar comparações entre a política israelense contemporânea e a dos nazistas'.

"Comparações com o Holocausto, em qualquer contexto ou situação, devem ser feitas de forma cautelosa, para evitar a banalização do mesmo e o desrespeito às vítimas. No dia 7 de outubro de 2023, o grupo Hamas, que defende em sua carta fundacional a morte dos judeus, invadiu o território de Israel e matou a sangue frio mais de 1.200 pessoas, na maior matança de judeus por serem judeus desde a Shoá.

"Apesar disso, Dani Dayan, presidente do Yad Vashem (o museu do Holocausto de Jerusalém), ressaltou que há diferenças fundamentais entre os nazistas e o Hamas. Por mais que seja possível traçar paralelos, o Holocausto foi um episódio único na história, em que o aparato estatal nazista se voltou para o genocídio dos judeus.

"Mas a fala do presidente da república, além de banalizar o Holocausto, faz uma absurda inversão dos fatos, transformando suas vítimas em algozes.

"Com essa e outras falas lamentáveis sobre a guerra de Israel contra o Hamas - que, infelizmente, têm se sucedido uma após a outra nos últimos meses —, em vez de se envolver para combater o antissemitismo que cresce no mundo, Lula tem feito o oposto, contribuindo ainda mais para o fomento do ódio aos judeus, inclusive no Brasil. Judeus esses que são parte da população brasileira, a qual Lula tem o dever de proteger indiscriminadamente."

André Lajst
Presidente-Executivo da StandWithUsBrasil
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