Publicado 10/02/2026 17:09 | Atualizado 10/02/2026 17:11
Alvo de busca e apreensão no fim de janeiro, em investigação sobre um suposto esquema de fraudes em licitações no Rio Grande do Norte, o prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra (União), se recusou a informar à Polícia Federal a senha do seu celular e de um computador apreendidos durante a Operação Mederi. Segundo a PF, ele é suspeito de receber 15% sobre o valor de cada nota fiscal emitida pela empresa Dismed, que mantinha contratos suspeitos para fornecimento de medicamentos ao município e faturou R$ 13,5 milhões entre 2021 e 2025.
PublicidadeA defesa do prefeito informou que não irá se manifestar sobre a investigação. No dia da deflagração da Operação Mederi, em 27 de janeiro, os advogados de Allyson afirmaram que "não há qualquer fato que o vincule pessoalmente" às suspeitas de fraudes e recebimento de propinas.
O celular do prefeito - um iPhone17 ProMax azul - foi recolhido durante busca pessoal da PF em Mossoró. Os federais anotaram em relatório que Alisson não quis fornecer acesso ao aparelho - os peritos da PF, no entanto, dispõem de mecanismos que alcançam até arquivos remotos do celular.
Na mochila do prefeito, os policiais federais encontraram um notebook, cujo acesso também não foi autorizado por ele, além de dois HDs externos e um pendrive.
O apartamento do prefeito em Natal, no bairro Ponta Negra, cartão-postal da capital potiguar, foi vasculhado por agentes federais a partir de 8h da manhã daquele dia. No momento da diligência, o prefeito não estava em casa.
"No apartamento foram identificados diversos itens pessoais e sinais de presença recente", registra o relatório ao qual o Estadão teve acesso.
As equipes encontraram um cofre e uma gaveta trancada que foram arrombados. O cofre foi retirado do nicho e vistoriado, mas estava vazio e, segundo a PF, "não se averiguou nada de interesse para a investigação".
No escritório do imóvel, os investigadores apreenderam ainda outro celular, da marca Positivo, e um cartão de memória.
"Localizaram-se ainda anotações, planilhas, documentos, inclusive um comprovante de cartão de crédito no valor de R$ 1 349,56, datado de 23/01/2026", diz o documento.
No relatório, o delegado Júlio Sombra, que conduziu as buscas, afirma que o imóvel passou "claramente por uma reforma recente"
Na estante da residência foi encontrado um chapéu de vaqueiro, marca política do prefeito. O acessório foi usado por Allyson no sábado, 7, durante o evento de lançamento de sua pré-candidatura ao governo do Rio Grande do Norte. Ele confirmou que pretende renunciar ao cargo de prefeito para disputar o Executivo estadual, com saída prevista para março.
'Quinze do homem'
Para a PF, a referência ao pagamento de 15% em favor do prefeito de Mossoró aparece em uma escuta ambiental nas dependências da Dismed, quando o empresário Oseas Monthalggan discute como seria feita a divisão de valores.
"Quinze do homem e dez disso aí, vezes vinte e cinco por cento", disse o dono da Dismed.
"O contexto geral destas conversas parece deixar claro que "o homem" ali referido é Allyson, prefeito de Mossoró, sendo esta uma forma de identificação indireta", conclui a PF na investigação.
Os federais também indicam que, além das referências diretas ao recebimento de valores pelo prefeito, "há um elemento que sugere consciência da ilicitude por parte" de Allyson.
'Ah, esse prefeito é ladrão'
"O problema porque é o seguinte: os cara... se eu fosse prefeito, meus funcionários por exemplo... ah, esse prefeito é ladrão, quem rouba é ele, pode falar, não me importa não! Aí os cara é um cuidado, não porque ninguém pode saber não", disse Oseas na ocasião.
Os investigadores apontam que a declaração do empresário comprova o 'tom cauteloso' adotado pelo prefeito ao receber as propinas.
"Os interlocutores percebem no prefeito um comportamento cauteloso voltado a manter oculta sua participação nos esquemas discutidos, o que seria indicativo de conhecimento da irregularidade das práticas", diz a investigação.
COM A PALAVRA, O PREFEITO DE MOSSORÓ, ALLYSON BEZERRA
Quando a Operação Mederi foi desencadeada em 27 de janeiro, a defesa do prefeito Allyson Bezerra divulgou nota pública por meio da qual negou categoricamente ligação com o esquema das farmacêuticas:
"A defesa do prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra, vem a público esclarecer que, na data de hoje, foi cumprido mandado judicial de busca e apreensão no âmbito de investigação.
A apuração conduzida pelas autoridades federais tem como objeto central contratos firmados entre municípios do Rio Grande do Norte e empresas de medicamentos, envolvendo fatos ocorridos em diferentes entes municipais, e não se confunde com a atuação pessoal do chefe do Poder Executivo de Mossoró.
Pelo que já se teve acesso, não há qualquer fato que vincule pessoalmente o prefeito Allyson Bezerra, tendo a medida sido deferida com base em diálogos envolvendo terceiras pessoas, não se podendo dar maiores detalhes em razão do sigilo da investigação.
O cumprimento da medida cautelar decorre de decisão judicial proferida em fase investigativa, sem qualquer juízo de culpa, sendo importante destacar que o prefeito Allyson Bezerra não foi afastado de suas funções e não sofreu qualquer medida pessoal restritiva.
Desde o primeiro momento, o prefeito colaborou integralmente com a diligência, franqueando acesso às informações solicitadas, em respeito às instituições e à legalidade, convicto de que a apuração técnica e imparcial dos fatos demonstrará a correção de sua conduta.
Como medida preventiva e de fortalecimento dos mecanismos de controle e transparência, ainda em dezembro de 2023, o prefeito Allyson Bezerra editou o Decreto nº 6.994/2023, que tornou obrigatória a utilização do Sistema Nacional de Gestão da Assistência Farmacêutica - Hórus como sistema oficial de controle de estoque e dispensação de medicamentos no âmbito da Prefeitura de Mossoró, além de atribuir à Controladoria Geral do Município a responsabilidade direta pela fiscalização e acompanhamento de sua correta utilização.
A defesa reafirma a confiança no trabalho das autoridades, nas garantias constitucionais e na preservação da presunção de inocência.
O prefeito Allyson Bezerra segue exercendo normalmente suas funções, com foco na gestão pública, na transparência administrativa e no interesse da população de Mossoró."
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