BNDES integra o grupo de empresas públicas chamadas de 'não dependentes', ao lado de Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal Érica Martin
Publicado 25/03/2026 08:00
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) respondeu às reportagens recentes que apontaram gastos com publicidade e o pagamento de bônus milionários à sua diretoria. Em nota, a instituição defendeu que todas as práticas seguem normas de governança, têm respaldo legal e são supervisionadas por órgãos de controle do governo federal.

As reportagens mostraram que os gastos com publicidade subiram de R$ 70,8 milhões entre 2019 e 2022 para R$ 210,9 milhões entre 2023 e 2025. Também revelaram que a diretoria recebeu quase R$ 760 mil apenas de gratificação natalina em dezembro de 2023.

O banco atribui o aumento dos gastos com comunicação à estratégia de ampliar o acesso ao crédito. "A retomada dos investimentos em publicidade foi ferramenta estratégica essencial para que o BNDES atingisse tais números", afirmou a instituição.

O banco destacou que os R$ 87,5 milhões investidos em publicidade em 2023 representaram cerca de três vezes menos do que o limite de R$ 284 milhões estabelecido pela Lei das Estatais, calculado sobre 0,50% da Receita Operacional Bruta.

Sobre os resultados, o BNDES informou lucro recorrente de R$ 15,2 bilhões em 2023, o maior de sua história, e inadimplência de apenas 0,06%, a menor do sistema financeiro. A carteira de crédito atingiu R$ 664 bilhões, o maior patamar desde 2016. A instituição também destacou que consultas, aprovações e desembolsos cresceram, respectivamente, 221%, 164% e 128% no triênio 2023-2025 frente ao triênio anterior.

Salários: TCU autorizou o modelo

Quanto à remuneração da diretoria, o BNDES tem respaldo institucional explícito. Em abril de 2023, o Tribunal de Contas da União decidiu, por unanimidade, que os salários dos executivos do banco não precisam observar o teto do funcionalismo público, fixado em R$ 41,6 mil. O relator, ministro Bruno Dantas, argumentou que, como o banco não depende de repasses do Tesouro para custeio, não pode ser classificado como estatal dependente.

O BNDES integra o grupo de empresas públicas chamadas de "não dependentes", ao lado de Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal. Nessa categoria, as regras salariais são mais flexíveis, porque essas empresas geram receita suficiente para cobrir seus custos operacionais e ainda repassam dividendos à União, o que, na visão do TCU, justifica a diferenciação.

A gratificação natalina paga exclusivamente à diretoria também tem embasamento interno. O banco a descreve como o pagamento de "um honorário fixo mensal" adicional em dezembro, prática diferente do 13º salário, que é pago a todos os cerca de 3 mil funcionários.

Transparência

O BNDES também acionou seu histórico de transparência como elemento de sua atual gestão. A instituição afirma ter sido reconhecida pelo TCU e pela Controladoria-Geral da União (CGU) como a instituição pública mais transparente do país pelo terceiro ano consecutivo. A abertura dos salários de todos os funcionários, inclusive os da diretoria, é pública e está disponível no portal de Acesso à Informação do banco.

O economista Carlos Henrique, especialista em economia e CEO da Sttart Pay, pondera que “ a transparência é condição necessária para o controle social, mas não substitui a avaliação de mérito ”, defendendo que decisões de gasto precisam demonstrar impacto concreto sobre investimento e acesso ao crédito.*

Vale registrar que os investimentos publicitários do banco seguem o Plano Integrado de Comunicação e Marketing, exigência do próprio TCU para a execução dessas ações, e são supervisionados pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República.

O que dizem especialistas

Analistas do setor financeiro apontam que estruturas de remuneração variável e de bônus são comuns em instituições financeiras, incluindo bancos públicos, e costumam estar vinculadas a resultados operacionais. A lógica, segundo esses especialistas, é a mesma adotada por grandes bancos privados: atrair e reter quadros qualificados em um mercado competitivo.

Na avaliação de parlamentares que acompanham o setor, o debate reflete uma tensão estrutural no modelo de bancos públicos: de um lado, a expectativa de que sigam as mesmas restrições do funcionalismo; de outro, a necessidade de competir com o mercado privado por talentos para uma carteira que hoje supera R$ 664 bilhões.

A importância do BNDES

O BNDES tem papel estratégico da instituição para o desenvolvimento do país.

No site oficial, o banco explica que, para o período entre 2026 e 2030, existem 10 objetivos centrais, nos planos de negócios e corporativos. São eles:

- Expandir o apoio a projetos de infraestrutura reduzindo o hiato de investimentos no setor e promovendo resiliência.

- Expandir o apoio ao desenvolvimento produtivo abrangendo inovação, digitalização e inteligência artificial.

- Ampliar o apoio a projetos de desenvolvimento social e regional e de gestão pública buscando expandir o acesso a serviços públicos de qualidade, reduzir as desigualdades e promover cidadania.

- Ampliar o apoio a projetos ambientais e climáticos contribuindo para a transição ecológica justa, a descarbonização e a conservação e restauração de biomas.

- Ampliar o apoio à exportação promovendo maior inserção das empresas brasileiras em mercados internacionais.

- Expandir crédito e garantias para MPMEs promovendo o acesso a crédito, a agropecuária sustentável e o cooperativismo.

- Fomentar o mercado de capitais e a atuação internacional do BNDES para contribuir com o desenvolvimento sustentável.

No plano corporativo, os outros dois objetivos são expandir o desembolso e as carteiras de crédito e de garantia, e assegurar o equilíbrio financeiro do Sistema BNDES.

Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

Uma das frentes nas quais o BNDES atua colabora para o alcance dos chamados ''Objetivos de Desenvolvimento Sustentável'', da Organização das Nações Unidas (ONU).

A meta é ''acabar com a pobreza, proteger o meio ambiente e o clima e garantir que as pessoas, em todos os lugares, possam desfrutar de paz e de prosperidade'', segundo o site da ONU.

O BNDES detalha no site oficial os projetos que desenvolve para chegar a esses objetivos.

Como o presidente atua
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Desde fevereiro de 2023, o BNDES é presidido por Aloizio Mercadante. Economista formado pela USP há 50 anos, mestre em Ciências Econômicas pela Unicamp e doutor em Teoria Econômica também pela Universidade de Campinas, ele tem experiência em áreas estratégicas nas quais o banco atua. Sua gestão tem focado em temas como a reindustrialização, transição energética, apoio a micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) e o fortalecimento de investimentos em economia verde.
Foi Ministro de Ciência, Tecnologia e Inovação, Ministro da Educação por duas vezes e Ministro-Chefe da Casa Civil. No discurso de posse, em 2023, Mercadante disse que o Brasil ''não seria o que é sem o BNDES''.

Lembrou que o país tinha menos de 30% da população atual, era predominantemente agrário, com uma indústria incipiente, infraestrutura precária. E destacou que a industrialização e a modernização da infraestrutura têm relação direta com projetos do BNDES.

Citou como exemplos a Ferrovia Central do Brasil, primeiro projeto financiado pelo banco, a Eletrobras e a Embraer, concebidas com atuação direta da instituição.

Na semana passada, ao comentar o lucro recorrente de R$ 15,2 bi em 2025, o maior da história, Mercadante destacou a contribuição diária gerada ao país.

"O BNDES fomenta o crédito em R$ 1 bilhão por dia, uma contribuição fantástica que permite investimento, inovação, modernização, descarbonização da economia. Inclusive, o aumento da competividade e da oferta de produtos ajuda a reduzir a inflação estrutural. O BNDES dá uma contribuição muito grande para o desenvolvimento do país", disse.

Em setembro de 2025, Mercadante defendeu a democratização do mercado de capitais e mais atuação do banco, com investimentos empresas de setores estratégicos, como descarbonização, inovação e economia verde.

Ao comparar com outros países, disse que, nos Estados Unidos, 48% da população investe em bolsa de valores, superando a China (16%), Índia (11%) e Brasil (2%).

BNDES integra força contra o crime organizado

Além dos projetos de apoio para o desenvolvimento e a inovação, o BNDES compõe um grupo de trabalho contra o crime organizado.

Nesta segunda-feira (23), o presidente do banco, Aloizio Mercadante, reuniu-se com o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Edson Fachin, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, para debater ações de combate à lavagem de dinheiro e para o estrangulamento financeiro de organizações criminosas.

Aloizio Mercadante destacou um grupo de trabalho composto pela Febraban, Polícia Federal e BNDES, com colaboração técnica do Banco Central. A prioridade do grupo é enfrentar os crimes financeiros cibernéticos.
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