Também foi determinado o bloqueio e o sequestro de bens imóveis, veículos e ativos financeiros até o limite de R$ 47 milhõesDivulgação/ PF
Publicado 25/03/2026 08:05 | Atualizado 25/03/2026 14:18
A Polícia Federal (PF) deflagrou, na manhã desta quarta-feira (25), a Operação Fallax. A ação tem como objetivo desarticular uma organização criminosa suspeita de aplicar fraudes bancárias contra a Caixa Econômica Federal, além de atuar em crimes de estelionato e lavagem de dinheiro. Até o momento, 13 pessoas foram presas. O CEO e fundador do Grupo Fictor, Rafael Góis, é um dos alvos da investigação.
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Ao todo, estão sendo cumpridos 43 mandados de busca e apreensão e 21 mandados de prisão preventiva, expedidos pela Justiça Federal de São Paulo. As ações ocorrem em cidades dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia.

A Justiça também determinou o bloqueio e sequestro de bens, incluindo imóveis, veículos e ativos financeiros, até o limite de R$ 47 milhões. Segundo as investigações, o esquema pode ter causado prejuízos superiores a R$ 500 milhões.

Além disso, foram autorizadas medidas como a quebra de sigilo bancário e fiscal de 33 pessoas físicas e 172 pessoas jurídicas, com o objetivo de rastrear a movimentação financeira do grupo.
Os advogados de Rafael afirmaram que apenas um celular foi apreendido.

"Foi realizada hoje diligência de busca e apreensão na residência de Rafael Góis, CEO da Fictor, no âmbito de investigação conduzida pela Polícia Federal. Apenas o seu celular foi apreendido. Tão logo sua defesa tenha acesso ao conteúdo da investigação, serão prestados os esclarecimentos necessários às autoridades competentes, com o objetivo de elucidar os fatos", diz nota.
As investigações tiveram início em 2024, após a identificação de indícios de um esquema estruturado para obtenção de vantagens ilícitas. De acordo com a PF, o grupo contava com a participação de funcionários de instituições financeiras e utilizava empresas para movimentar e ocultar recursos de origem criminosa. Há indícios de que parte desses valores tinha origem em células criminosas vinculadas ao Comando Vermelho.

"A organização utilizava empresas de fachada e estruturas empresariais para dissimular a origem dos recursos ilícitos. Funcionários de instituições financeiras inseriam dados falsos nos sistemas bancários para viabilizar saques e transferências indevidas. Posteriormente, os valores eram convertidos em bens de luxo e criptoativos, com o intuito de dificultar o rastreamento", explicou a corporação.
Há indícios de prejuízos milionários a diversas instituições financeiras, dentre elas Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Bradesco, Santander e Safra..
Em nota enviada ao O DIA, a Caixa a operação é resultado direto de investigações conduzidas pelas autoridades, com "base em informações e comunicações realizadas pelo banco no curso regular dos mecanismos de monitoramento e notificação de indícios suspeitos".
"A Caixa reitera que possui políticas rigorosas de prevenção e combate a fraudes, lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo, alinhadas às melhores práticas de mercado, à legislação vigente e às normas dos órgãos reguladores. Sempre que identificadas movimentações atípicas ou evidências de irregularidades, os casos são imediatamente reportados aos órgãos competentes, colaborando de forma ativa com as investigações", diz um trecho do comunicado.
Por envolver investigação em curso, a instituição financeira afirma que "respeita o sigilo legal do processo e reforça que eventuais esclarecimentos adicionais devem ser solicitados às autoridades responsáveis pela operação".
O Bradesco afirmou apenas que "confia no trabalho da Polícia Federal e aguarda o desfecho das investigações".
Já o Banco do Brasil disse que não recebeu qualquer comunicação das autoridades que investigam o caso e desconhece o teor da operação.
"O BB exerce colaboração permanente às autoridades policiais e órgãos de investigação, dentro de suas atribuições institucionais", diz a nota.
A reportagem entrou em contato com todas as companhias citadas. O espaço está aberto.
Dinâmica criminosa:

- Captação de indivíduos para cessão de dados pessoais;

- Constituição de empresas fictícias com aparência de regularidade;

- Elaboração de documentação contábil fraudulenta (DRE, ECF e declarações fiscais);

- Manipulação de faturamento para simular capacidade financeira;

- Uso de certificados digitais para operacionalização remota, reduzindo a exposição dos envolvidos;

- Participação de gerentes bancários, responsáveis por fornecer informações privilegiadas e inserir dados falsos nos sistemas.
Papel do Grupo Fictor no esquema, segundo a PF

As investigações indicam que os responsáveis pelo Grupo Fictor exerceram papel relevante e estruturante no funcionamento da organização criminosa, atuando como núcleo de sustentação financeira e operacional.

Sua atuação consistia na injeção de recursos com o objetivo de simular movimentações financeiras entre empresas vinculadas à organização, especialmente por meio do pagamento cruzado de boletos, criando artificialmente aparência de liquidez e saúde financeira.

Além do aporte financeiro - que alcançou valores expressivos -, o grupo também atuava na criação e gestão de empresas de fachada

Nesse contexto, a atuação da Fictor viabilizava:

- Pagamentos cruzados para simulação de fluxo financeiro;

- Geração artificial de faturamento;

- Construção de histórico bancário fictício para obtenção de crédito.
Em nota, o Grupo Fictor afirmou que, assim que a defesa de Rafael tiver acesso ao conteúdo da investigação, "prestará os esclarecimentos necessários às autoridades competentes com o objetivo de elucidar os fatos".
O ex-sócio do Grupo Fictor Luiz Rubini também é alvo de buscas da PF. Ele é defendido pelo criminalista Rodrigo De Grandis.

A assessoria do executivo informou que a defesa não teve conhecimento prévio do processo e se manifestará oportunamente.
Os investigados poderão responder por crimes como organização criminosa, estelionato qualificado, lavagem de dinheiro, gestão fraudulenta, corrupção ativa e passiva, além de crimes contra o sistema financeiro nacional. Somadas, as penas podem ultrapassar 50 anos de prisão.
Tentativa de compra do Master e recuperação judicial

Em 17 de novembro do ano passado, a Fictor afirmou ter fechado um acordo para a aquisição do Banco Master, em conjunto com um consórcio formado por investidores dos Emirados Árabes Unidos. No dia seguinte, a instituição de Daniel Vorcaro foi liquidada pelo Banco Central, e o negócio foi desfeito.

A companhia é um grupo de participações e gestão de empresas com foco na indústria alimentícia, em serviços financeiros e em infraestrutura. Ela foi fundada em 2007 como uma empresa de soluções tecnológicas.

Em fevereiro deste ano, o Grupo Fictor protocolou um pedido de recuperação judicial para as empresas Fictor Holding e Fictor Invest. O valor total da dívida é de R$ 4 bilhões.

No pedido de recuperação judicial protocolado no Tribunal de Justiça de São Paulo, a Fictor solicitou a suspensão e o bloqueio das cobranças das dívidas por um prazo de 180 dias.
*Com informações do Estadão Conteúdo
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