Publicado 25/03/2026 12:08
A Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Sociedade Brasileira de Cirurgia Pediátrica (CIPE) publicaram um alerta na manhã desta quarta-feira, 25, sobre conteúdos desinformativos que sugerem uma suposta "epidemia de micropênis" em meninos e incentivam o uso de hormônios, como a testosterona, para "resolver" o quadro.
As entidades destacam que vídeos assustam os pais ao afirmar que existe uma "janela de oportunidade" para o tratamento com esse hormônio e que, se ela não for aproveitada, o menino terá micropênis na vida adulta. Ocorre que o uso indiscriminado e sem indicação clara da substância pode gerar uma série de consequências negativas.
"O uso indiscriminado da testosterona de forma precoce pode fechar as cartilagens de crescimento, antecipar a puberdade e até mesmo causar problemas de fertilidade na vida adulta", explica Roni de Carvalho Fernandes, presidente da SBU.
O uropediatra Marcos Gianetti Machado, do Hospital Sírio-Libanês, acrescenta que o uso dos hormônios pode causar um efeito enganoso. "Ao administrá-los antes da puberdade, pode ocorrer um aumento do tamanho peniano, o que gera satisfação nos pais e a impressão de que o tratamento foi eficaz. No entanto, esse crescimento representa apenas uma antecipação do que ocorreria naturalmente durante a puberdade, e não um ganho real adicional", detalha.
"Ou seja, o uso hormonal precoce pode antecipar o crescimento, mas não aumenta o potencial final, além de expor a criança a riscos desnecessários", ressalta Machado.
Em alguns casos, o uso do hormônio pode, de fato, ser indicado. Ainda assim, a recomendação deve vir somente após uma avaliação médica rigorosa.
Medição deve ser feita por profissionais
PublicidadeAs entidades destacam que vídeos assustam os pais ao afirmar que existe uma "janela de oportunidade" para o tratamento com esse hormônio e que, se ela não for aproveitada, o menino terá micropênis na vida adulta. Ocorre que o uso indiscriminado e sem indicação clara da substância pode gerar uma série de consequências negativas.
"O uso indiscriminado da testosterona de forma precoce pode fechar as cartilagens de crescimento, antecipar a puberdade e até mesmo causar problemas de fertilidade na vida adulta", explica Roni de Carvalho Fernandes, presidente da SBU.
O uropediatra Marcos Gianetti Machado, do Hospital Sírio-Libanês, acrescenta que o uso dos hormônios pode causar um efeito enganoso. "Ao administrá-los antes da puberdade, pode ocorrer um aumento do tamanho peniano, o que gera satisfação nos pais e a impressão de que o tratamento foi eficaz. No entanto, esse crescimento representa apenas uma antecipação do que ocorreria naturalmente durante a puberdade, e não um ganho real adicional", detalha.
"Ou seja, o uso hormonal precoce pode antecipar o crescimento, mas não aumenta o potencial final, além de expor a criança a riscos desnecessários", ressalta Machado.
Em alguns casos, o uso do hormônio pode, de fato, ser indicado. Ainda assim, a recomendação deve vir somente após uma avaliação médica rigorosa.
Medição deve ser feita por profissionais
Os conteúdos também têm incentivado os responsáveis a medirem o pênis de crianças em casa. Fernandes informa, porém, que não isso não é simples: trata-se de um ato médico que deve ser realizado por profissionais, como pediatras, urologistas ou endocrinologistas.
Para começar, o procedimento não pode ser realizado em qualquer lugar. Afinal, ambientes frios podem afetar o estado do órgão e comprometer a avaliação. Além disso, a criança deve ser posicionada com calma, já que o medo de ser examinada pode provocar a contração do pênis e alterar o resultado. O instrumento de medição também precisa ser posicionado corretamente.
Há ainda certas condições capazes de confundir o diagnóstico em casa, gerando "falsos positivos" - sobretudo entre crianças com obesidade. É o caso, por exemplo, de implantação da pele na região genital (chamada de pênis embutido ou pênis palmeado). Nesses casos, a haste peniana pode parecer menor do que realmente é.
De acordo com reportagem da Agência Einstein, a confusão entre percepção e realidade foi confirmada por um levantamento da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) realizado no final de 2025 e apresentado durante o 40º Congresso Brasileiro de Urologia. A pesquisa avaliou como os pais de 99 meninos percebiam o tamanho do órgão sexual do filho durante atendimentos do mutirão Novembrinho Azul, em Florianópolis. Embora 48% dos participantes considerassem o tamanho dentro da normalidade, cerca de 24% acreditavam que estava abaixo da média
Quando os médicos realizaram as medições padronizadas, porém, descobriram que os responsáveis subestimavam o comprimento peniano em cerca de 2,5 a 3 centímetros. Entre todas as crianças examinadas, nenhuma apresentava micropênis, revelando que muitos pais não conhecem as variações normais da anatomia infantil.
O que, de fato, caracteriza o micropênis?
Para começar, o procedimento não pode ser realizado em qualquer lugar. Afinal, ambientes frios podem afetar o estado do órgão e comprometer a avaliação. Além disso, a criança deve ser posicionada com calma, já que o medo de ser examinada pode provocar a contração do pênis e alterar o resultado. O instrumento de medição também precisa ser posicionado corretamente.
Há ainda certas condições capazes de confundir o diagnóstico em casa, gerando "falsos positivos" - sobretudo entre crianças com obesidade. É o caso, por exemplo, de implantação da pele na região genital (chamada de pênis embutido ou pênis palmeado). Nesses casos, a haste peniana pode parecer menor do que realmente é.
De acordo com reportagem da Agência Einstein, a confusão entre percepção e realidade foi confirmada por um levantamento da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) realizado no final de 2025 e apresentado durante o 40º Congresso Brasileiro de Urologia. A pesquisa avaliou como os pais de 99 meninos percebiam o tamanho do órgão sexual do filho durante atendimentos do mutirão Novembrinho Azul, em Florianópolis. Embora 48% dos participantes considerassem o tamanho dentro da normalidade, cerca de 24% acreditavam que estava abaixo da média
Quando os médicos realizaram as medições padronizadas, porém, descobriram que os responsáveis subestimavam o comprimento peniano em cerca de 2,5 a 3 centímetros. Entre todas as crianças examinadas, nenhuma apresentava micropênis, revelando que muitos pais não conhecem as variações normais da anatomia infantil.
O que, de fato, caracteriza o micropênis?
De acordo com Machado, o micropênis é uma condição clínica rara definida cientificamente quando o tamanho do órgão está 2,5 desvios-padrão abaixo da média esperada para a idade.
O quadro deve ser identificado ainda na infância, no primeiro ou segundo ano de vida. "Isso é importante porque, nesse momento, ainda há possibilidade de avaliar causas e, quando indicado, realizar intervenções que possam ter efeito", detalha.
Vale destacar que o quadro não é sinônimo de infertilidade. Só existe essa possibilidade, segundo Machado, se ele estiver associado a síndromes genéticas ou alterações cromossômicas.
Existe um tamanho ideal do órgão?
Não. Machado afirma que o tamanho peniano varia e depende de fatores hormonais e genéticos. O ambiente tem pouca influência. Há grande variação mesmo dentro de uma mesma população.
"Um ponto importante é que, no desenvolvimento normal da criança, entre os 4 e os 11 ou 12 anos praticamente não há crescimento peniano. Nesse período, o corpo pode crescer, mas o genital tende a permanecer praticamente inalterado", detalha o uropediatra do Sírio-Libanês.
"O crescimento mais significativo ocorre na puberdade, quando há maior estímulo hormonal, levando ao desenvolvimento genital mais evidente", continua.
Segundo Luiz Claudio Castro, endocrinologista pediatra e coordenador do departamento de endocrinologia pediátrica da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), o desenvolvimento do pênis e dos testículos ocorre em fases bem definidas ao longo da vida.
Ainda no período intrauterino, o pênis já apresenta crescimento, impulsionado pela ação dos hormônios testosterona e di-hidrotestosterona, fundamentais para a formação adequada da genitália masculina.
"Após o nascimento, existe um período importante chamado 'minipuberdade', que ocorre nos primeiros meses de vida, geralmente até cerca de 6 meses. Nessa fase, há um aumento temporário dos hormônios sexuais, o que contribui para o crescimento do pênis e dos testículos", detalha Castro.
"Depois desse período, o crescimento do pênis continua, mas de forma mais lenta e gradual ao longo da infância. O aumento mais significativo ocorre apenas na puberdade, quando há uma nova elevação das concentrações de testosterona, que estimula o crescimento do órgão até que atinja seu tamanho final", adiciona
Por fim, Machado cita que "há uma preocupação crescente com a adultização das crianças, ou seja, a criação de expectativas relacionadas a tamanho e sexualidade ainda na infância. Em muitos casos, isso parte dos próprios pais."
"É importante refletir se a exposição indiscriminada a conteúdos inadequados, como materiais pornográficos, não está contribuindo para essas expectativas irreais e para uma sexualização precoce, que é extremamente prejudicial", finaliza.
O quadro deve ser identificado ainda na infância, no primeiro ou segundo ano de vida. "Isso é importante porque, nesse momento, ainda há possibilidade de avaliar causas e, quando indicado, realizar intervenções que possam ter efeito", detalha.
Vale destacar que o quadro não é sinônimo de infertilidade. Só existe essa possibilidade, segundo Machado, se ele estiver associado a síndromes genéticas ou alterações cromossômicas.
Existe um tamanho ideal do órgão?
Não. Machado afirma que o tamanho peniano varia e depende de fatores hormonais e genéticos. O ambiente tem pouca influência. Há grande variação mesmo dentro de uma mesma população.
"Um ponto importante é que, no desenvolvimento normal da criança, entre os 4 e os 11 ou 12 anos praticamente não há crescimento peniano. Nesse período, o corpo pode crescer, mas o genital tende a permanecer praticamente inalterado", detalha o uropediatra do Sírio-Libanês.
"O crescimento mais significativo ocorre na puberdade, quando há maior estímulo hormonal, levando ao desenvolvimento genital mais evidente", continua.
Segundo Luiz Claudio Castro, endocrinologista pediatra e coordenador do departamento de endocrinologia pediátrica da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), o desenvolvimento do pênis e dos testículos ocorre em fases bem definidas ao longo da vida.
Ainda no período intrauterino, o pênis já apresenta crescimento, impulsionado pela ação dos hormônios testosterona e di-hidrotestosterona, fundamentais para a formação adequada da genitália masculina.
"Após o nascimento, existe um período importante chamado 'minipuberdade', que ocorre nos primeiros meses de vida, geralmente até cerca de 6 meses. Nessa fase, há um aumento temporário dos hormônios sexuais, o que contribui para o crescimento do pênis e dos testículos", detalha Castro.
"Depois desse período, o crescimento do pênis continua, mas de forma mais lenta e gradual ao longo da infância. O aumento mais significativo ocorre apenas na puberdade, quando há uma nova elevação das concentrações de testosterona, que estimula o crescimento do órgão até que atinja seu tamanho final", adiciona
Por fim, Machado cita que "há uma preocupação crescente com a adultização das crianças, ou seja, a criação de expectativas relacionadas a tamanho e sexualidade ainda na infância. Em muitos casos, isso parte dos próprios pais."
"É importante refletir se a exposição indiscriminada a conteúdos inadequados, como materiais pornográficos, não está contribuindo para essas expectativas irreais e para uma sexualização precoce, que é extremamente prejudicial", finaliza.
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