Ciro Nogueira é senador pelo Piauí e ex-ministro da Casa Civil Divulgação
Publicado 07/05/2026 10:24 | Atualizado 07/05/2026 11:52
A Polícia Federal (PF) aponta que o senador Ciro Nogueira (PP-PI) recebeu propinas de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e "instrumentalizou o exercício do mandato parlamentar" em favor dos interesses do banqueiro no Congresso Nacional. O senador e presidente nacional do PP foi alvo de busca e apreensão nesta quinta-feira, 7, na quinta fase da Operação Compliance Zero.

A decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, que autorizou as diligências com base em provas reunidas pela PF, afirma que o senador recebia uma mesada de R$ 300 mil de Vorcaro. Segundo a investigação, "há relatos de que o montante teria evoluído para R$ 500 mil".

Os investigadores também apontam que Vorcaro teria disponibilizado gratuitamente ao senador, por tempo indeterminado, um imóvel de alto padrão, além de custear hospedagens, deslocamentos e outras despesas ligadas a viagens internacionais de luxo. Entre os gastos mencionados, estão estadias no Park Hyatt New York, restaurantes de alto padrão e despesas atribuídas ao parlamentar e à sua acompanhante. A investigação cita ainda a disponibilização de um cartão para cobertura de gastos pessoais.

Outro ponto apurado pela PF envolve a aquisição, por Ciro Nogueira, de participação societária estimada em cerca de R$ 13 milhões pelo valor de R$ 1 milhão, operação que, segundo os investigadores, teria sido viabilizada por Vorcaro.

Segundo as investigações, o negócio, com subvalorização das ações adquiridas, envolvia a venda de 30% da empresa Green, que teria participação na empresa Trinity, para a empresa CNLF Empreendimentos Imobiliários Ltda., formalmente administrada pelo irmão do parlamentar, Raimundo Nogueira - também alvo de mandado de busca e apreensão. A defesa dele não se manifestou.

"A narrativa policial enfatiza que os elementos colhidos demonstrariam a existência de um arranjo funcional e instrumental orientado por benefício mútuo, extrapolando relações de mera amizade", diz a PF.

Como revelou o Estadão, a PF encontrou no celular do banqueiro diálogos com o senador e ordens de pagamento destinadas a uma pessoa identificada apenas como "Ciro". Na ocasião, o parlamentar afirmou conhecer Vorcaro, mas negou proximidade e recebimento de pagamentos.

A Polícia Federal também localizou mensagens em que o banqueiro se refere ao senador como um "grande amigo de vida" e comemora uma iniciativa legislativa apresentada por Ciro Nogueira que beneficiaria o Banco Master.

A mensagem foi enviada em 13 de agosto de 2024, mesma data em que o senador apresentou emenda à proposta de autonomia financeira do Banco Central para elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o valor coberto pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) por CPF. Vorcaro descreveu a medida como uma "bomba atômica no mercado financeiro".
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Isso favoreceria diretamente o Master, porque o banco de Vorcaro usou a captação com pessoas físicas por meio de recursos via Certificados de Depósito Bancário (CDBs) para alavancar seu patrimônio. A emenda acabou não sendo aprovada.
Em diálogos, Vorcaro chegou a comentar que a emenda apresentada pelo parlamentar "saiu exatamente como mandei".
De acordo com a PF, o texto apresentado por Ciro Nogueira coincide "de forma integral" ao texto preparado pela assessoria do Banco Master. As mensagens colhidas no celular do banqueiro indicam que ele mandou que o texto fosse entregue em um envelope no endereço do senador.
Com base nos diálogos do celular do banqueiro, a PF rastreou o procedimento adotado na confecção da emenda. O texto foi elaborado pela assessoria do Master e encaminhado por um funcionário do banco ao WhatsApp de Vorcaro. Depois disso, o dono do Master determinou a impressão do documento e entrega na residência de Ciro.

Para a PF, a ação demonstra que Ciro Nogueira tomou iniciativas concretas para tentar favorecer Vorcaro no Senado em troca de pagamentos de propina, o que pode caracterizar o crime de corrupção.

Na decisão que autorizou a operação, o ministro André Mendonça reproduz os argumentos da Polícia Federal sobre esse fato.

"A representação descreve, de modo específico, que o senador apresentou a Emenda nº 11 à PEC nº 65/2023 com conteúdo produzido no âmbito do Banco Master, encaminhado por preposto de VORCARO, impresso e entregue em envelope endereçado a 'Ciro' em seu endereço residencial, tendo o texto parlamentar reproduzido, 'de forma integral', a versão previamente preparada pela assessoria do banco", diz a decisão.

Prossegue o documento: "Também há notícia de circulação, a partir de sua residência, de minutas de outros projetos legislativos de interesse do particular, posteriormente remetidas ao gabinete parlamentar. No plano patrimonial, aponta-se a percepção de vantagens reiteradas, materializadas por pagamentos mensais, aquisição societária com expressivo deságio, custeio de despesas pessoais e fruição de bens de elevado valor, além de indícios de recebimento de numerário em espécie".

A PF citou a existência de diálogos nos quais Vorcaro comenta o sucesso na apresentação da emenda à PEC. O banqueiro afirmou a um interlocutor que o texto apresentado por Ciro "saiu exatamente como mandei". Nos diálogos, um dos interlocutores diz que a medida "sextuplicaria" o negócio do Master, que se baseava em sua maior parte na alavancagem graças ao limite do FGC.

A investigação também encontrou no celular do banqueiro outros diálogos sobre a retirada de minutas de projetos de lei de interesse de Vorcaro da residência de Ciro Nogueira. Segundo a PF, esses projetos foram enviados a um escritório que assessorava Vorcaro e depois entregues a um servidor do gabinete do senador.

"A denotar que haveria nos episódios algo que iria além das vias ordinariamente empregadas no âmbito das relações que se estabelecem entre atores políticos e a iniciativa privada, os investigadores enfatizam que DANIEL VORCARO teve o cuidado de orientar a pessoa responsável por promover a devolução dos documentos, "para que o motorista não consiga vincular o transporte do documento ao parlamentar", bem como para que "o envelope utilizado não faça referência ao Banco MASTER"", diz a decisão.
Vorcaro questionou comparsa sobre atraso de mesada a Ciro Nogueira, afirma PF
A troca de mensagens entre Vorcaro e seu primo Felipe Cançado Vorcaro revela, segundo a Polícia Federal, como eram tratados os pagamentos de propina a Ciro Nogueira.

Segundo a investigação, Felipe questionou Daniel sobre a manutenção dos pagamentos mensais ao "pessoal que investiu" na BRGD S.A, empresa sediada em Nova Lima (MG) e dirigida formalmente por Oscar Vorcaro, pai de Felipe.

A PF aponta a companhia como uma das principais fontes dos recursos movimentados no esquema que pagava mesada de até R$ 500 mil ao senador.

Para os investigadores, a BRGD era usada para viabilizar repasses mensais ao parlamentar e ex-ministro da Casa Civil do governo de Jair Bolsonaro (PL) por meio da chamada "parceria BRGD/CNLF".

A CNLF Empreendimentos Imobiliários Ltda., segundo a investigação, era administrada formalmente pelo irmão do senador, Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, que também foi alvo de busca e apreensão. A defesa dele não se manifestou.

"Pessoal me passou aqui sobre o aumento dos pgtos parceiro brgd, mas fluxo está indo praticamente todo para o btg e ainda estou precisando aportar valores altos todo mes", escreveu Felipe Vorcaro a Daniel em 28 de janeiro de 2025, segundo as mensagens obtidas pela PF.

"Resolve isso pra mim", respondeu Vorcaro no mesmo dia. "Eu ponho dinheiro depois para repor."

Meses depois, em 30 de junho de 2025, Daniel voltou a cobrar o operador financeiro sobre os pagamentos ao senador. "Cara eu no meio dessa guerra atrasou dois meses ciro?", escreveu o banqueiro.

"Vou ver se dou um jeito aqui. Vai continuar os 500k ou pode ser os 300k?", respondeu Felipe Vorcaro, em referência, segundo a investigação, ao valor da mesada destinada ao senador Ciro Nogueira.
Em nota, a defesa do senador Ciro Nogueira negou qualquer irregularidade e afirmou que o parlamentar não teve participação nos fatos investigados pela PF no âmbito da Operação Compliance Zero.
Os advogados disseram que o parlamentar está à disposição para prestar esclarecimentos e criticaram a adoção de medidas cautelares com base em "mera troca de mensagens".
"A defesa do senador Ciro Nogueira repudia qualquer ilação de ilicitude sobre suas condutas, especialmente em sua atuação parlamentar", afirmou a nota.
"Pondera, por fim, que medidas investigativas graves e invasivas tomadas com base em mera troca de mensagens, sobretudo por terceiros, podem se mostrar precipitadas e merecem a devida reflexão e controle severo de legalidade, tema que deverá ser enfrentado tecnicamente pelas Cortes Superiores muito em breve, assim como ocorreu com o uso indiscriminado de delações premiadas", acrescentou.
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