Publicado 11/05/2026 17:31
Parlamentares veem a bancada do PP no Congresso Nacional sob constrangimento após a operação da Polícia Federal que mirou no presidente nacional do partido, Ciro Nogueira (PP-PI), no curso das investigações sobre o Banco Master. Relevante figura do Centrão, Nogueira foi ministro do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e se tornou o primeiro congressista a ser oficialmente alvo das apurações.
PublicidadePara parlamentares ouvidos pela reportagem, a operação pode impactar as articulações do partido para as eleições deste ano. Em 7 de maio, a PF cumpriu mandado de busca e apreensão contra o senador. A PF encontrou no telefone celular do banqueiro Daniel Vorcaro diálogos com o senador e ordens do empresário para pagamento a uma pessoa de nome "Ciro".
A defesa do presidente do PP diz que ele "não teve qualquer participação em atividades ilícitas e nos fatos investigados" e que as medidas investigativas contra ele "podem se mostrar precipitadas e merecem a devida reflexão e controle severo de legalidade". Nesta segunda, 11, o escritório de Antônio Carlos de Almeida Castro (Kakay) deixou o caso do senador.
Segundo avaliações de quadros de centro e de direita no Congresso ouvidos pela reportagem, a operação não deve prejudicar a bancada internamente no Congresso, mas pode ter reflexos na disputa eleitoral, num momento em que os partidos estão negociando parcerias pelos Estados.
De acordo com essas análises, o impacto da operação inibe a atuação dos dirigentes partidários locais e diminui o valor político e eleitoral da legenda, o que pode aumentar o custo do prejuízo de ter o PP nos palanques.
Parlamentares também avaliam que a operação coloca uma nuvem de incertezas sobre quem será alcançado nas investigações. Um líder de centro diz avaliar que Vorcaro parece ter atuado de forma cirúrgica com Nogueira e descarta um envolvimento generalizado do Congresso. Para outra liderança, apesar de não se poder falar que todos os parlamentares compactuam com a conduta, há uma expectativa de que a investigação alcance quadros de diferentes alas ideológicas, da base governista à oposição.
Parte da bancada do PP se preserva em silêncio. Na semana passada, a líder do PP no Senado, Tereza Cristina (MS), defendeu a continuidade das investigações. Perguntada se a operação contra Ciro pode impactar as eleições presidenciais e uma eventual aliança com Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Tereza Cristina adotou a cautela e fez um gesto de não saber.
Nem o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), nem parlamentares do centro vieram a público se manifestar sobre o caso. Sob reserva, alguns senadores afirmam que a "bola está com as investigações" e cabe à Casa esperar o que será revelado para, só então, cogitar algum movimento sobre Nogueira.
Pesa a favor do presidente do PP a boa interlocução com os colegas do Senado, tanto do Centrão como da oposição, além de contar com diálogo aberto com o PT - apesar das críticas ao partido.
Medo de escândalos
Nos bastidores, o medo de escândalos motivou a saída de parlamentares do partido. Um deputado de alto clero relatou antes de deixar a legenda que "todo dia você acorda com medo de ter o Ciro e o partido com escândalo estampado nos jornais". Outro deputado que já passou pela bancada indicou que também convivia com esse receio.
Um senador relatou que chegou a evitar encontros com Nogueira. Um deputado mais próximo do presidente do PP, por outro lado, adota o discurso de defesa de Nogueira e diz que vê uma ação política contra o senador.
Outra repercussão se deu sobre a conduta de Flávio Bolsonaro sobre o escândalo. "A gente não está negociando o apoio do senador Ciro Nogueira. O que sempre negociamos foi o apoio da federação. São dois partidos juntos, o Progressista União Brasil, e são bancadas grandes, são dezenas de parlamentares", disse, em entrevista à CNN Brasil.
Os dois são colegas no Senado e costumam manter conversas frequentes. No mesmo dia da busca e operação contra Ciro, Flávio publicou um vídeo defendendo as investigações, mas sem citar o nome do aliado nem do PP, e direcionando as críticas ao PT e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
"Como esse banco cresceu, quem estava por trás, quem se beneficiou, e quais são as ligações do Master com a alta cúpula do PT Nacional e da Bahia?", questionou na publicação.
Para quadros de centro e da direita, o filho de Bolsonaro não teve uma boa postura ao se afastar da figura de Nogueira de imediato. Aliados de Flávio, porém, avaliaram que ele tinha que tomar uma atitude em favor das investigações para não colocar em risco a sua pré-candidatura, "doa a quem doer".
A ausência da assinatura do senador do PP na CPMI do Banco Master havia ligado o alerta no entorno de Flávio, relatou um parlamentar.
Na visão de parlamentares, o governo se beneficia da operação contra Nogueira e tenta associar Flávio ao caso, mas tem ganho limitado, porque a prática de corrupção é muito associada popularmente ao PT. Já a oposição tenta desgastar o Supremo Tribunal Federal (STF) por relações de ministros com Vorcaro.
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