Defesa de Deolane alega inocência da influenciadoraReprodução / Redes sociais
Publicado 23/05/2026 11:18
A Polícia Civil de São Paulo encontrou uma máquina de contar dinheiro e uma caixa com cerca de R$ 50 mil em espécie com o nome 'Dra Deolane' gravado na tampa. Os achados estavam na residência de Everton de Souza, o 'Player', alvo de buscas na Operação Vérnix que, na quinta-feira, 21, prendeu a influenciadora e advogada Deolane Bezerra dos Santos sob suspeita de integrar um esquema de lavagem de capitais do Primeiro Comando da Capital (PCC).
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A defesa de Deolane alega inocência da influenciadora. Ela já foi transferida para a Penitenciária de Tupi Paulista, a mais de 600 quilômetros de São Paulo. O Estadão busca contato com 'Player'. Ele também foi preso. O espaço segue aberto.
O inquérito da Operação Vérnix indica que 'Player', com quem Deolane 'mantém estreitas ligações', segundo a Polícia, atuava como intermediador e operador financeiro entre os irmãos Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola 'Narigudo', e Alejandro Camacho Júnior e o 'gestor operacional' do grupo, Ciro César Lemos, administrador de uma transportadora de fachada que serviu de base para o plano. O Estadão procurou a defesa dos acusados. O espaço permanece aberto.
Durante as buscas na casa de 'Player', em São Paulo, os investigadores encontraram na cozinha, sobre a pia de mármore, ao lado do fogão, sob um armário de parede, uma caixa estilizada com o dinheiro. As notas estavam presas em maço por um elástico. Na tampa da caixa, grafado o nome 'dra Deolane', abaixo do qual o desenho de uma balança, símbolo da Justiça, e a frase 'o justo se justifica'. Também ali estava a máquina de contar dinheiro.
'Player' não se encontrava na casa quando os homens da força-tarefa chegaram. Ele foi preso em seguida.
Conversas extraídas do celular de Ciro César Lemos revelam que ele recebia orientações de 'Player' sobre a destinação dos valores, indicando contas para recebimento das partes correspondentes a cada líder da organização criminosa. 'Player' também intermediava as comunicações sobre a distribuição dos 'lucros' da Lopes Lemos Transportes.
Empresa de fachada situada próxima à Penitenciária 2, de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo, a transportadora operava como a base da ocultação de uma fortuna do PCC.
A partir dela o dinheiro do crime organizado era redirecionado para contas dos líderes da facção e também de Deolane, que mantinha o controle de uma teia de 35 pessoas jurídicas todas no mesmo endereço, um modesto condomínio residencial de Martinópolis, a 440 quilômetros da capital.
A quebra dos sigilos bancário e fiscal de 'player' indicaram volume expressivo de créditos, com inúmeros depósitos em espécie fracionados, realizados em diferentes praças - 'padrão típico das condutas de ocultação da origem dos recursos e fragmentação da trilha financeira', segundo a Polícia.
O inquérito que levou Deolane à prisão é conduzido pelos delegados Edmar Rogério Dias Caparroz e Ramon Euclides Guarnieri Pedrão, da Delegacia Seccional de Presidente Venceslau.
Os dois descobriram a estratégia dos líderes do PCC para ocultação de ativos do crime organizado e chegaram à influenciadora e à transportadora a partir da análise de manuscritos que detentos da Penitenciária 2 haviam descartado, mas que foram resgatados no esgoto do presídio.
Segundo a investigação, empresas vinculadas a 'Player' apresentam as mesmas características das empresas de Deolane: endereços em imóveis residenciais sem atividade operacional, mesmo contador, outras pessoas jurídicas no mesmo endereço.
"Everton atua na administração dos bens de Marcos Willians Camacho e Alejandro, cabendo a Ciro César Lemos prestar-lhe contas e, ainda, mediante suas orientações, repassar valores em contas por ele indicadas, algumas de sua titularidade", assinala relatório de 298 páginas da Operação Vérnix.
Os delegados Caparroz e Ramon destacam que a 'apuração encontrou ligação entre Everton e Deolane, até então tida apenas como advogada de integrantes do crime organizado, colhendo inicialmente apontamento de que ela figuraria entre os beneficiários diretos dos repasses financeiros provenientes daquela transportadora gerida por Ciro César Lemos, sob mando dos irmãos Camacho'.
Os diálogos entre Ciro e 'Player' reforçaram a pista sobre contas bancárias utilizadas para o 'acerto mensal/balancete ou fechamento' da transportadora. Uma dessas contas, de titularidade de Deolane, foi confirmada por meio de comprovantes de depósitos bancários de uma agência na Luz, região central da capital paulista.
"Aqui cabe destacar que o recebimento direcionado para a conta de Deolane foi feito em contexto de prestação e fechamento de contas, e não de mero pagamento por eventuais serviços advocatícios lícitos", assinalam os delegados.
"Essa menção a Deolane, como recebedora de parte do valor do 'fechamento' daquele mês, foi exatamente o que fez a investigação avançar em sua direção e permitiu comprovar que ela empresta toda a sua estrutura financeira e aparente respeitabilidade social para o trânsito e integração de valores ilícitos, recebidos em nome da organização criminosa, completando assim a terceira fase do processo de lavagem de capitais, ou seja, a integração no sistema formal."
A proximidade da influenciadora com o operador financeiro da família Camacho levou a Polícia a ter convicção do envolvimento dela com a cúpula do PCC.
Rede de ocultação
Os delegados apontam para um 'farto conjunto de indícios que, a partir das informações colhidas em afastamentos de sigilos bancário, financeiro e fiscal, demonstram com bastante segurança que Deolane Bezerra dos Santos é hoje uma das mais importantes pessoas integrantes do vasto e diferenciado esquema de lavagem de capitais gerido pela organização criminosa PCC'.
O inquérito delimita a atuação de cada um no grupo. Ciro César Lemos e Everton de Sousa 'Player' como gestores e operadores financeiros; Paloma Sanches Herbas Camacho (sobrinha de Alejandro que está foragida na Espanha) e Leonardo Herbas Camacho (filho de Alejandro) como intermediários familiares; e Deolane como detentora de contas receptoras.
"Compunham o quadro completo da rede de ocultação e redistribuição de valores ilícitos, demonstrando a perfeita simetria entre o núcleo decisório (liderança prisional), o núcleo operacional (gestores e administradores) e o núcleo financeiro (interpostas pessoas e contas bancárias), caracterizando o modelo tripartite de organização criminosa complexa."
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