Seis fintechs ligadas ao PCC movimentaram mais de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025 em lavagem de dinheiroMarcello Casal Jr / Agência Brasil
Publicado 28/05/2026 21:10
O Grupo de Atuação e Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo e a Receita Federal deflagraram ontem a Operação Fluxo Oculto, segunda fase da Operação Carbono Oculto. Seis fintechs suspeitas de atuar como bancos paralelos de uma organização criminosa ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC), com negócios no setor de combustíveis, foram alvo da ação. Elas movimentaram, conforme a Receita, mais de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025 e eram usadas em esquemas de lavagem de dinheiro, sonegação fiscal, blindagem patrimonial e ocultação de recursos ilícitos.

Das seis fintechs investigadas, uma chamou a atenção do Gaeco e da Receita por operar cerca de R$ 1 bilhão em dinheiro vivo entre 2022 e 2024, segundo a investigação. As seis fintechs são apontadas como parte crucial da estrutura financeira do esquema e teriam mantido as irregularidades mesmo depois da Operação Carbono Oculto, em agosto de 2025, que é considerada pela Promotoria a maior ofensiva contra a lavagem de dinheiro do PCC no setor de combustíveis.

'Dupla camada de ocultação'
Publicidade
Dados colhidos pela Receita mostram que as fintechs a serviço da facção paulista atuaram com "dupla camada de ocultação" dos recursos. Segundo o Gaeco, o dinheiro obtido nas operações era direcionado a quatro fundos de investimento, que alcançaram R$ 205 milhões em ativos. Nesse núcleo, foram identificados, além dos fundos, duas administradoras e duas gestoras, também alvo da operação.

Ainda de acordo com o Ministério Público, os fundos registraram crescimento superior a 200% em pouco mais de um ano e integram um robusto núcleo financeiro usado pela facção para movimentações internas entre distribuidoras e postos de combustíveis, transações entre empresas e fundos de investimento

A Receita apontou que, até 2025, as instituições de pagamento não eram obrigadas a enviar a e-Financeira, declaração usada para registrar movimentações de clientes. Sem essa obrigação, o rastreamento das operações era limitado.

No caso da Operação Fluxo Oculto, três das seis fintechs investigadas entregaram a e-Financeira, informando cerca de R$ 8 bilhões em movimentações em 2025. As outras três já foram autuadas por não apresentarem a declaração.

Alvos

Ao todo, a operação cumpriu 59 mandados de busca e apreensão contra pessoas físicas e jurídicas em cinco Estados. Em São Paulo, a ação ocorreu na capital e nas cidades de Arujá, Atibaia, Barueri, Santos e São José do Rio Preto. Os agentes, que contaram com apoio das Polícias Civil e Militar, também realizaram buscas em Cascavel e Paranavaí, no Paraná; em Iguatemi, em Mato Grosso do Sul; em Belo Horizonte, em Minas Gerais; e no Rio de Janeiro.

Entre os principais alvos da operação estão empresas do grupo Ceopag, em São José do Rio Preto e Barueri; do grupo Sispay, instalado em conjuntos comerciais na Rua Joaquim Floriano, no Itaim-Bibi; do grupo Smart Solutions, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro; e do grupo Yaw, com endereços em Alphaville e no centro de Belo Horizonte. A investigação também alcançou a Ello Gestora de Recursos Ltda, com endereços na Vila Nova Conceição e na Avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo. A reportagem do Estadão pediu manifestação de todos os grupos citados. Até as 20h de ontem, só o grupo Yaw enviou nota, dizendo que "não mantém nenhum vínculo ou ligação com organizações criminosas".

De acordo com a Promotoria, as empresas eram usadas para compensações financeiras entre distribuidoras e postos de combustíveis, movimentações entre empresas e fundos de investimento administrados pela organização criminosa, além do pagamento de colaboradores e de despesas pessoais dos principais operadores do esquema.

A investigação também aponta que o esquema utilizava familiares, pessoas em situação de vulnerabilidade social e até presos para abrir empresas em diversos Estados, para ocultar os verdadeiros responsáveis pelas operações. A Receita disse ainda ter identificado transações de ao menos R$ 365 milhões em criptoativos envolvendo empresas suspeitas de lavar dinheiro para organizações investigadas em outras operações.
Leia mais