Publicado 16/06/2026 21:25
O ódio deixou de ser apenas uma emoção individual para se tornar um elemento que estrutura as relações sociais, políticas e culturais do século XXI. Essa é uma das hipóteses centrais da pesquisa desenvolvida pelo cientista político Paulo Renato Marques, que investiga como as transformações da sociedade contemporânea, associadas ao avanço das redes sociais, contribuíram para a consolidação de novas formas de hostilidade e polarização.
PublicidadeIntitulado “As Novas Fronteiras do Discurso do Ódio no Brasil”, o estudo parte de uma questão fundamental: por que o ódio ocupa hoje um espaço central no debate público?
“O ódio não pode ser compreendido apenas como uma reação emocional ou como um problema restrito a grupos extremistas. Ele passou a funcionar como uma espécie de linguagem política e social que organiza identidades, produz pertencimentos e define adversários”, afirma Marques.
A pesquisa também chama atenção para o papel das plataformas digitais nesse processo. Segundo o pesquisador, as redes sociais criaram um ambiente onde conflitos morais, religiosos, políticos e identitários são constantemente estimulados por mecanismos de visibilidade, engajamento e retroalimentação algorítmica.
Análise de mais de 22 mil comentários
Como parte da investigação, foi realizada uma ampla pesquisa em plataformas como Instagram e Facebook. O levantamento analisou mais de 22 mil comentários extraídos de 55 casos de grande repercussão nas redes sociais.
O estudo concentrou-se em oito grandes áreas temáticas: intolerância política, racismo, LGBTfobia, machismo e feminismo, intolerância religiosa, xenofobia, gordofobia e etarismo.
Os resultados preliminares indicam que o discurso de ódio raramente ocorre de forma unilateral.
“Encontramos uma dinâmica muito mais complexa do que normalmente aparece no debate público. Em diversos casos, o conflito passa a funcionar como mecanismo de fortalecimento das identidades dos próprios grupos envolvidos”, explica o pesquisador.
Polarização
A pesquisa sugere que a polarização política se tornou um articulador de praticamente todos os debates públicos contemporâneos, atravessando questões de raça, religião, gênero e cultura. Ao mesmo tempo, aponta que o ambiente digital favorece processos de fragmentação social, dificulta o diálogo entre grupos divergentes e estimula a construção de narrativas baseadas na lógica do inimigo.
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