Edilberto Jose SoaresElisângela Leite
Publicado 18/06/2026 17:19
Cabo Frio - No próximo dia 27 de junho, às 18h30, a cidade de Cabo Frio receberá o lançamento de O Último Sertanejo, autobiografia do escritor e poeta Edilberto José Soares. O evento será realizado no Charitas – Casa de Cultura José de Dome – e marcará uma noite de homenagem, memória e celebração da literatura como instrumento de transformação social.

A obra conta com patrocínio do Governo do Estado do Rio de Janeiro, Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa, através do edital Literatura do Rio ao RJ, tendo como proponente o produtor cultural cabofriense Pedro Turra. O lançamento conta ainda com o apoio da Prefeitura de Cabo Frio, da Secretaria Municipal de Cultura, e da Casa de Cultura José de Dome, que cedeu o espaço para a realização do evento.

Inicialmente, a noite seria uma sessão de autógrafos do autor seguida por uma palestra. No entanto, um mês antes do lançamento, no dia 28 de maio, Edilberto José Soares faleceu, sem poder presenciar a realização daquele que era um dos maiores sonhos: ver publicada a sua autobiografia. Ocupante da cadeira 03 da Academia Brasileira de Letras do Cárcere (ABLC), fundada em 2023, com o objetivo de promover a reintegração social através da leitura e da escrita reunindo pessoas privadas de liberdade ou egressas do sistema prisional, Edilberto chegou a publicar dois livros e a participar de 6 coletâneas e antologias poéticas, conquistando reconhecimento em diversos estados brasileiros e tornando-se uma referência de superação e de transformação através da literatura.

Mesmo diante da perda, a equipe responsável pelo projeto decidiu manter a data prevista para o lançamento, transformando o evento em uma homenagem ao poeta e ao legado que ele construiu através das palavras. Conhecido como “Poeta da Favela”, Edilberto José Soares teve uma trajetória marcada por erros, quedas e recomeços entre o sertão nordestino, Rio de Janeiro e São Paulo. Ao longo dos 31 anos em que esteve no sistema prisional, Edilberto encontrou na literatura e na poesia um caminho de reconstrução pessoal. Mais do que a prisão, foi a escrita que transformou sua vida.

Nos últimos seis anos, dedicou-se integralmente à promoção da cultura, participando de projetos sociais e realizando palestras para crianças, adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade social e em cumprimento de medidas socioeducativas. Em seus encontros, compartilhava sua própria história para mostrar que o crime não compensa e que a educação, a arte e o conhecimento podem abrir novos caminhos.

Mais do que contar a história de um homem, O Último Sertanejo apresenta um relato emocionante, repleto de desafios, perdas, escolhas e recomeços, mostrando ao leitor como a força da palavra foi capaz de ressignificar uma vida.

“Edilberto não estará fisicamente conosco nessa noite, mas sua presença está em cada página do livro e em cada pessoa que ele inspirou. Manter o lançamento é uma forma de honrar a sua memória e garantir que sua história continue transformando outras vidas”, destaca Pedro Turra, proponente do projeto.

A jornalista Alexandra de Oliveira, responsável pela edição da obra e parceira de Edilberto na construção da autobiografia, explica que uma das maiores preocupações durante o processo de escrita foi preservar a autenticidade do autor.

“Eu não escrevi a história do Edilberto por ele. O livro foi construído a partir das suas memórias, da sua forma de falar e de enxergar o mundo. Meu trabalho foi organizar, revisar e dar unidade editorial ao texto, mas fiz questão de preservar a maneira simples, direta e profundamente humana com que ele contava a própria vida. Essa era a essência dele”, explica a jornalista.

Edilberto acompanhou todo o desenvolvimento da obra. Participou de ensaio fotográfico e escolheu a imagem da capa, aprovou a identidade visual e o projeto gráfico do livro. Encantado com o resultado, não via a hora do lançamento para poder conversar com o público e participar da noite de autógrafos.

E, de certa forma, o autor realizou o sonho de concluir o livro. O que ele não vai poder viver é a celebração pública desse sonho, estando presente na noite de lançamento. A autobiografia traz um testemunho fiel da trajetória de um homem que encontrou na literatura uma possibilidade de reconstrução e de esperança.

“Ele fez questão de contar tudo, sem esconder os erros, as dores e os recomeços. Queria que sua história servisse de exemplo para outras pessoas. E é exatamente isso que este livro entrega: uma história real, emocionante e profundamente transformadora”, acrescenta Alexandra de Oliveira.

As palestras para adolescentes e jovens em cumprimento de medidas socioeducativas, inclusive, faziam parte das ações previstas no próprio projeto contemplado pelo edital. E Edilberto conseguiu realizar em vida uma dessas atividades, participando de um encontro no Rio de Janeiro com jovens em cumprimento de medidas socioeducativas.

Na ocasião, compartilhou sua trajetória de vida e falou sobre como a literatura e a poesia foram decisivas para sua transformação pessoal, reforçando a mensagem que levava por onde passava: educação, arte e cultura podem abrir caminhos para a reconstrução e a esperança.

O desejo do poeta era retornar a essas instituições após o lançamento do livro, levando exemplares de sua autobiografia e ampliando esse diálogo com os jovens. Embora não tenha tido tempo de concretizar esse plano, deixou cumprida uma parte importante dessa missão, transformando sua própria história em instrumento de conscientização e incentivo a novos recomeços.

A primeira edição de O Último Sertanejo conta com 500 exemplares impressos e 164 páginas. Como contrapartida prevista no projeto contemplado pelo edital Literatura do Rio ao RJ, 100 exemplares serão destinados à Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro, que fará a distribuição das obras entre bibliotecas públicas estaduais, ampliando o acesso do público à trajetória do poeta.

Os demais exemplares serão utilizados durante o lançamento e em ações de divulgação da obra, cumprindo um desejo do próprio Edilberto: fazer com que sua história e sua mensagem chegassem ao maior número possível de pessoas. Mais do que publicar um livro, o autor desejava compartilhar um testemunho de vida capaz de inspirar jovens e adultos.

O lançamento contará com intérprete de Libras, garantindo acessibilidade para pessoas surdas e ensurdecidas. O Charitas dispõe de acessibilidade arquitetônica e a equipe do projeto recebeu treinamento em acessibilidade cultural, reafirmando o compromisso com uma cultura mais inclusiva e democrática.

Após a cerimônia, os convidados participarão de um pequeno coquetel. A entrada é gratuita e o público poderá receber exemplares do livro para conhecer de perto a história de um homem que encontrou na literatura e na arte um novo sentido para a vida.
Publicidade
Evento acontece no Charitas  - Divulgação
Evento acontece no Charitas Divulgação
Leia mais