Geane Vincler diz que o envelhecimento populacional é resultado de fatores demográficos de longas décadas Foto Assessoria/Divulgação
Publicado 23/08/2026 09:57
Cardoso Moreira - A educação municipal de Cardoso Moreira passou de uma posição mediana para se tornar uma das principais referências do estado do Rio de Janeiro. Nos resultados divulgados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), o município alcança a terceira colocação geral do Estado do Rio de Janeiro nos anos finais do Ensino Fundamental.
Publicidade
No entanto, se por um lado a educação avança a passos largos, os indicadores demográficos e de renda revelam vulnerabilidades que exigem atenção de longo prazo. A constatação é focada no índice de envelhecimento de 86,1% (o equivalente a 8,6 idosos para cada 10 crianças), enquanto a cidade tem apenas 36 anos.
O ritmo de envelhecimento é pontualmente mais expressivo do que a média do estado do Rio de Janeiro (73,3%) e coloca Cardoso Moreira na 17ª posição entre as que envelhecem mais rápido em nível estadual. Mas, na contramão das notícias desagradáveis, a rede municipal de ensino dá um salto expressivo ao registrar a nota 5,9.
Bem comparando, a cidade ocupava anteriormente a 55ª posição estadual nos anos iniciais (com nota 4,1) e acaba de registrar o maior crescimento educacional proporcional de todo o território fluminense. Com cerca de 14 escolas de Educação Básica, atende a três mil estudantes integrados, com distribuição entre creches, pré-escola e o ensino fundamental (anos iniciais e finais).
Dados demográficos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que o município conta com aproximadamente 12.958 habitantes, registrando um crescimento tímido de apenas 2,84% em relação ao censo anterior. O quadro sinaliza um alerta para o êxodo de jovens em busca de mercados de trabalho mais dinâmicos.
A cidade apresenta boas notas em saúde e chega ao topo em educação. Contudo, o pilar de Emprego & Renda puxa os índices sociais para baixo devido à baixa diversificação do comércio e dos serviços locais. A economia é de pequeno porte com alta dependência de transferências públicas e receitas correntes externas.
Mas a prefeita Geane Vincler demonstra que tem todos os dados computados e busca reverter o que é desfavorável. No caso específico do índice de envelhecimento elevado para uma cidade de apenas 36 anos ela diz que não é tratado como um problema, mas como uma realidade que exige planejamento.
ENTREVISTA/GEANE VINCLER
Cardoso Moreira conquistou o 3º lugar no IDEB do estado. Como a prefeitura planeja reter esses jovens talentos altamente qualificados no município, evitando que eles migrem para outras cidades por falta de oportunidades profissionais locais?
Geane Vincler - O resultado do Ideb nos mostra que estamos formando uma geração cada vez mais preparada. Cardoso Moreira alcançou 5,9 nos anos finais do Ensino Fundamental, saindo de 4,1 em 2023, um crescimento de 1,8 ponto. Esse avanço é motivo de orgulho, mas também aumenta a nossa responsabilidade: não basta preparar bem os nossos jovens; precisamos criar condições para que eles encontrem oportunidades aqui.
Por isso, a nossa estratégia passa por três frentes: educação, qualificação profissional e desenvolvimento econômico.
Na qualificação, já estamos trabalhando com iniciativas como o Empregos Azuis, que leva cursos gratuitos para áreas com demanda profissional, além de buscarmos ampliar parcerias com instituições de formação profissional. Também temos a Casa do Trabalhador e ações voltadas à aproximação da população com oportunidades de emprego e capacitação.
Ao mesmo tempo, estamos trabalhando para fortalecer o empreendedorismo, a agricultura, o comércio e a atração de novas atividades econômicas. A chegada de novas empresas e o fortalecimento dos negócios que já existem no município são fundamentais para criar oportunidades para quem está se qualificando.
O nosso objetivo é que um jovem cardosense possa olhar para a própria cidade e enxergar possibilidade de construir sua carreira aqui. E isso é um processo. O IDEB mostra que estamos avançando na formação das pessoas; agora precisamos avançar cada vez mais na geração de oportunidades.
O índice de envelhecimento da cidade está bem acima da média estadual. Quais são as políticas públicas planejadas para a Assistência Social e Saúde para acolher a crescente população idosa, sem comprometer o orçamento de investimentos?
GV - O envelhecimento da população precisa ser tratado não como um problema, mas como uma realidade que exige planejamento. Nós precisamos garantir que o idoso tenha acesso à saúde, convivência, assistência e qualidade de vida, ao mesmo tempo em que preservamos a capacidade de investimento do município.
Na Saúde, estamos fortalecendo a atenção básica e ampliando a estrutura de atendimento. A inauguração da UBS Enésio Soares da Silva, em São Luís, a Clínica da Mulher, a ampliação da rede de especialidades, a aquisição do nosso Mamógrafo Móvel e a chegada da Base Descentralizada do SAMU 192 fazem parte de uma estratégia de ampliar o acesso aos serviços e aproximar o atendimento da população.
Para a pessoa idosa, isso é especialmente importante porque prevenção, acompanhamento contínuo e atendimento próximo ajudam a evitar agravamentos e internações que também pressionam o orçamento público.
Na Assistência Social, precisamos fortalecer a convivência, a proteção social, o acompanhamento das famílias e as ações de promoção da autonomia. E queremos fazer isso de maneira integrada com a Saúde, porque muitas das necessidades da população idosa não são exclusivamente de uma área.
A nossa preocupação é fazer uma gestão responsável: investir em prevenção, atenção básica e políticas que promovam autonomia é também uma forma de utilizar melhor os recursos públicos.
Como explicar um município com apenas 36 anos de emancipação político-administrativa ter um índice de envelhecimento bem maior do que o do próprio Estado do Rio de Janeiro?
GV - Uma coisa não determina a outra. A idade administrativa do município não significa que a população tenha a mesma idade. Cardoso Moreira ser um município relativamente jovem em termos de emancipação político-administrativa não significa que seja uma população jovem.
O envelhecimento populacional é resultado de fatores demográficos que acontecem ao longo de décadas, como redução da natalidade, aumento da expectativa de vida e migração de pessoas em idade produtiva. É justamente por isso que precisamos olhar para os dados demográficos e planejar o município para as próximas décadas.
O Censo 2022 mostra que o Rio de Janeiro passa por um processo acelerado de envelhecimento: o índice estadual baseado na população de 60 anos ou mais chegou a 105,9. Portanto, a questão é compreender a estrutura atual da nossa população e preparar a cidade para ela. E isso significa pensar simultaneamente em saúde, assistência social, mobilidade, acessibilidade, educação, emprego e desenvolvimento econômico.
Quais estratégias o município está adotando para atrair novas empresas e diversificar a base econômica local, reduzindo a dependência de repasses externos e gerando novas vagas de emprego formal?
GV - Esse é um dos grandes desafios de Cardoso Moreira e nós temos consciência disso. Uma economia municipal mais forte precisa ter diferentes fontes de geração de renda: empresas, comércio, serviços, agricultura, empreendedorismo e novas atividades produtivas.
Estamos trabalhando para melhorar a infraestrutura urbana, ampliar a qualificação da mão de obra e criar um ambiente mais favorável para quem quer empreender ou investir no município. O Complexo Urbanístico Municipal, as obras de pavimentação e saneamento, a melhoria dos espaços públicos e os investimentos estruturantes fazem parte dessa construção de uma cidade mais organizada e preparada para crescer.
Ao mesmo tempo, programas de qualificação, como o Empregos Azuis, ajudam a preparar a mão de obra local para oportunidades que estão surgindo em setores estratégicos da região. Também precisamos aproveitar melhor nossas vocações. Cardoso Moreira tem uma forte relação com a agricultura, pecuária e produção rural, e a Expo Cardoso Moreira mostra a dimensão econômica e cultural desse setor.
A nossa estratégia é transformar essas potencialidades em negócios, empregos e renda, criando um ciclo em que uma economia mais diversificada também aumenta a arrecadação própria e reduz gradualmente a vulnerabilidade às transferências externas.
A cidade apresenta boas notas em saúde e chega ao topo em educação. Contudo, o pilar de Emprego & Renda puxa os índices sociais para baixo. Como reverter esse quadro?
GV - Nós reconhecemos esse desafio. Uma boa educação e uma boa estrutura de saúde são fundamentais, mas desenvolvimento humano também depende de emprego e renda. Por isso, não estamos tratando educação, saúde e desenvolvimento econômico como áreas separadas. Uma criança que recebe uma boa educação hoje precisa encontrar amanhã uma oportunidade de trabalho compatível com aquilo que aprendeu.
O caminho passa por qualificação profissional, empreendedorismo, fortalecimento do comércio, agricultura familiar, atração de empresas e melhoria da infraestrutura. O programa Empregos Azuis é um exemplo concreto dessa estratégia. Já foram ofertados cursos gratuitos como Almoxarife Offshore, Operador de Empilhadeira, Montador de Andaimes e Taifeiro, aproximando a formação profissional das demandas de setores que têm oportunidades na região.
Também estamos fortalecendo a agricultura e os pequenos produtores. A parceria da Secretaria de Agricultura com a Emater-Rio, inclusive com iniciativas como o fornecimento de Briqfeno a pequenos produtores, mostra que desenvolvimento econômico também passa pela valorização de quem produz no campo. Não existe uma solução única. Precisamos criar um ecossistema de oportunidades.
De que maneira a prefeitura planeja expandir o suporte aos microempreendedores individuais (MEI) e produtores locais para fortalecer o comércio interno e a agricultura familiar?
GV - O pequeno empreendedor tem um papel enorme em um município do nosso tamanho. Quando fortalecemos um MEI, um pequeno comércio ou um produtor rural, estamos fortalecendo a economia que circula dentro da própria cidade. A nossa intenção é ampliar a orientação e facilitar o acesso dos empreendedores às informações, capacitações e oportunidades disponíveis, além de estimular a formalização e a melhoria da gestão dos pequenos negócios. Hoje facilitamos o acesso das pessoas a isso, pois na Casa do Trabalhador conseguimos abrir o MEI em apenas 10 minutos, dando todo o suporte necessário ao empreendedor.
Na agricultura, queremos continuar fortalecendo a assistência técnica, as parcerias com instituições como a Emater-Rio, a capacitação dos produtores e iniciativas que aumentem produtividade e agreguem valor à produção. Também precisamos aproximar cada vez mais produtor e consumidor, estimulando a compra local e criando condições para que parte maior da riqueza produzida em Cardoso Moreira permaneça circulando no próprio município.
Existem parcerias em andamento ou planejadas com o S, SENAI ou outras instituições para oferecer cursos profissionalizantes gratuitos voltados às demandas reais do mercado de trabalho na região?
GV - Sim. A qualificação profissional já é uma frente de trabalho da Prefeitura. O exemplo mais recente é o Empregos Azuis, desenvolvido em parceria com o Governo do Estado, que trouxe cursos gratuitos como Montador de Andaimes, Taifeiro, Almoxarife Offshore e Operador de Empilhadeira. A iniciativa busca justamente preparar os moradores para setores que apresentam demanda por mão de obra qualificada.
Também temos buscado parcerias com instituições de formação profissional e queremos ampliar esse trabalho. Tivemos, por exemplo, a atuação do SENAC com a Escola Móvel de Beleza. O princípio é muito claro: não queremos oferecer cursos apenas para gerar certificados. Queremos buscar capacitações que tenham relação com as oportunidades existentes em Cardoso Moreira e na nossa região.
Quais investimentos em infraestrutura urbana e escoamento produtivo estão previstos no plano de governo para tornar o município mais competitivo para a instalação de indústrias e empreendimento?
GV - Infraestrutura é uma condição básica para o desenvolvimento econômico. Estamos avançando em obras que melhoram a estrutura urbana e, ao mesmo tempo, criam condições para o crescimento econômico. Temos investimentos em pavimentação, saneamento, urbanização e melhoria dos espaços públicos, além de obras estruturantes como o Complexo Urbanístico Municipal.
Também temos investimentos importantes em localidades e bairros, como as obras de Calçamento e Saneamento no Bairro Cachoeiro, além de equipamentos públicos como a UBS de São Luís, a Creche Modelo de Outeiro e a Clínica da Mulher.
Quando uma empresa avalia onde investir, ela olha para vários fatores: infraestrutura, logística, disponibilidade de mão de obra, qualidade dos serviços públicos e capacidade de crescimento. Por isso, cada obra estruturante contribui para tornar Cardoso Moreira mais preparada.
No campo, melhorar as condições de produção e de circulação também é fundamental para que o produtor consiga escoar aquilo que produz.
Que tipo de política é desenvolvida pelo município voltada para o idoso?
GV - A política para a pessoa idosa precisa ir muito além do atendimento quando existe uma doença ou uma situação de vulnerabilidade. Precisamos trabalhar com prevenção, convivência, autonomia, atividade física, acompanhamento de saúde, assistência social e participação comunitária.
A prefeitura trabalha para fortalecer a atenção básica e o acompanhamento da população, além das políticas de convivência e proteção social desenvolvidas pela Assistência Social. Também entendemos que equipamentos e espaços públicos precisam ser cada vez mais acessíveis e adequados para uma população que está envelhecendo.
A nossa visão é que o idoso não deve ser visto apenas como alguém que precisa de cuidados. É uma pessoa que tem história, experiência, capacidade de participação e direito a envelhecer com dignidade e qualidade de vida.
O que o município representa, produtivamente, para a economia regional?
GV - Cardoso Moreira tem uma posição importante dentro da dinâmica econômica regional justamente porque reúne características que se complementam. Temos uma forte vocação agropecuária, com produtores rurais, pecuária e agricultura, além de comércio e serviços que atendem à população local e ajudam a movimentar a economia.
A Expo Cardoso Moreira é uma demonstração muito clara dessa vocação. O evento não é apenas uma festa: envolve produtores, exposição de animais, concurso leiteiro, negócios, agricultura, cultura, comércio e serviços.
Ao mesmo tempo, estamos buscando ampliar a nossa participação em novos setores, principalmente por meio da qualificação profissional e da preparação da mão de obra para oportunidades existentes na região. Cardoso Moreira tem pouco mais de 13 mil habitantes, segundo o Censo 2022, e uma área territorial de aproximadamente 522,6 km². Nosso desafio é fazer com que esse território e suas potencialidades sejam cada vez mais produtivos.
Eu acredito que Cardoso Moreira não precisa tentar ser igual a outros municípios. Precisamos identificar aquilo que fazemos bem, melhorar nossa infraestrutura, qualificar nossa população e criar condições para que novas atividades econômicas encontrem aqui um ambiente favorável.
O que estamos construindo é justamente isso: uma cidade com educação de qualidade, saúde estruturada, infraestrutura, produção rural fortalecida, qualificação profissional e uma economia cada vez mais diversificada.
Leia mais